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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Olivença e os intelectuais do meu país

Carlos Luna, em Estremoz
Professor de História, Investigador

Elogiar a Lusofonia é politicamente correto. Fá-lo qualquer intelectual português de forma automática. Delira em dissertações sobre o Português em Timor Leste. Medita sobre a sobrevivência de vocábulos e apelidos portugueses na Malásia (Malaca). Estremece com a referência a goeses que ainda sabem algo da língua de Camões. Ainda se deleitará com placas toponímicas com apelidos portugueses no Sri Lanka (Ceilão). Se tiver alguma coragem, referirá as afinidades entre o Português e o Galego. Se não falar duma língua única com dois dialectos, falará duma origem comum ou duma alma comum.

Mas… nada de confusões políticas. A Galiza tem de ser tratada sem compromissos!

Poderá referir ruas de cidades dos Estados Unidos ou da Inglaterra onde se fala algum Português. Ou de vestígios de lusismos no Uruguay. Fica tão bem a um homem de cultura, consagrado, falar destas coisas!! Afinal, ele não é uma pessoas qualquer. É a elite moderna de Portugal, aberto, europeu, obediente a regras internacionais, algo crítica (talvez) em relação aos mercados desregulados que estão a destruir o mundo e até uma determinada ideia de Europa, mas… sem tocar em assuntos mais polémicos!

Fica mal. Uma elite assim é asséptica. Gosta de receber prémios… ou de ler opiniões em que se diz que, se ainda os não recebeu, esse dia chegará!

Enchem-se páginas de fino recorte literário, como soe dizer-se, com dissertações sobre palavras soltas, almas, recordações lusitanas um pouco por toda a parte. Bonito, tudo isto. É História! É “chique”! Fica mesmo bem!! É uma cultura que “já deu quase tudo o que tinha a dar” (passe a vulgaridade), e que importa realçar. Afinal, ela até tem aspectos interessantes.

Mas, por favor, não se fale de Olivença. Muito menos da recuperação, por locais, de valores culturais e linguísticos (caso de 73 topónimos) portugueses para “aquelas bandas”! Menos ainda de que quase mil oliventinos já têm a nacionalidade portuguesa (2014-2017), por iniciativa duma associação local, autóctone, a “Além Guadiana”.

Desfaçatez suprema! Ao fim de duzentos anos, tal tipo de eventos assusta! Como é possível ressurgir uma cultura que foi duzentos anos reprimida? E logo… cultura portuguesa e alentejana? Que heresia! Ainda se fossem algumas palavras em Ormuz, ou nas Ilhas Hawai, ou entre holandeses descendentes de portugueses. Em Olivença? Estranho…

As elites não gostam de surpresas destas. Calam. Silenciam. Para que ninguém saiba.

Elites, isto? Não, não são. Pensam que são. Como dizia Zeca Afonso, “os eunucos devoram-se a si mesmos”.

Grande Zeca, como tenho saudades tuas!!!

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