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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Onde fica a Somália?

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Historiador, Professor Universitário; investigador da área de Ciência das ReligiõesTodos somos filhos de uma mescla ancestral e em nenhum de nós correrá sangue de fonte límpida, pois cruzámo-nos com o tempo e somos o mapa composto de muitas peles, de muitas violações e muitos mais amores.

Todos somos refugiados de algum lugar e mestiços de alguma cultura. Ou paternidade.

O que de nós vemos ao espelho é um embuste – ou pelo menos é a dúvida de quem seríamos nas nossas origens. Nenhum ADN é regular, perfeito, irrepreensível, monocromático ou fundamental.

Não faz sentido, assim, pedirem-nos um rumo diferente do que leva o nosso semelhante – ou impor-nos a sua crença que recusa a nossa.

Somos um infinito mosaico e não uma mancha homogénea. E se hoje recuamos aos tempos em que não sabíamos progredir, agarrados às saias de medos e entidades superiores, esquecidos do que a evolução cultural nos permitiu em liberdades, do respeito mútuo que devemos ao laicismo e ao respeito pelo nosso semelhante que ele proporcionou, é porque falhámos em algum ponto. Falhámos a dimensão do que de melhor tínhamos em nós.

Julgávamos esquecidas as atitudes fundamentalistas e prosélitas do missionarismo e conversão de crentes (que levaram à morte os filhos quase irmãos das igrejas cristãs europeias e rivais), para vivermos o pesadelo das políticas de morte em nome das crenças dos nossos dias.

Não me emociono quando leio a notícia de um padre degolado numa igreja francesa, nem pelo ato assassino e indesculpável, menos ainda pela sua idade (teria 86 anos), porque a essa emoção junto milhares de outros exemplos e de muita outra emoção incontida.

Quantos cristãos degolaram católicos e quantos católicos degolaram muçulmanos e quantos muçulmanos degolaram católicos e cristãos, nos últimos 1500 anos? Quantos revolucionários degolaram os seus semelhantes acreditando que da morte nasceria um mundo novo? As respostas a estas interrogações, sim, emocionam-me.

Lembro-me dos relatórios em vídeo, áudio e papel que me mostraram da guerra da Bósnia (1992-1995) e dos genocídios e dos seus protagonistas (católicos, cristãos, muçulmanos, distinguindo neste texto católicos dos cristãos, resguardando os segundos entre os que se dizem representantes de igrejas protestantes de tradição luterana e calvinista).

Se olhar para a história do mundo, nenhuma religião é na sua essência portadora do desejo da morte de outra, mas os homens que agem em seu nome impõem pelo sangue o que nem fé nem razão forçaram declarar ou consagrar.

Os monoteístas agudizaram algumas vontades, nomeadamente que o deus único de um era melhor do que o deus único de outro – esquecendo-se de respeitar a divindade e auscultá-la e sobretudo ignorando os crentes e a ideia pura que os move: aquilo em que acreditamos, fora ou dentro das religiões, o que se constitui como tema na nossa dimensão humana, é uma consagração da nossa existência íntima e nunca do coletivo que nos queiram impor.

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O que me emociona realmente é a Humanidade – e o Humanismo perdido. É o silêncio europeu sobre a Somália, sobre os assassinos da Al-Shabab, ligados à Al-Qaeda, ou sobre lugares que os europeus têm muita dificuldade em apontar no mapa.

As divisões doutrinárias têm profundas consequências doutrinais. Isto é, a algum grupo que reivindique possuir a verdade suprema contra os grupos que não o entendem, sucede o efeito do conflito e a este o beco sem retorno da Guerra. O diálogo inter-religioso continua e supera as divisões, é fruto de inteligência e do progresso. As vontades políticas dos homens, não.

Estamos em Guerra. E a Guerra nunca nos trouxe mais do que cemitérios cheios, ruínas e memórias vergonhosas.

Todos falamos línguas que não nos pertencem e por isso, às vezes não nos entendemos. Resta-nos os gestos. Mas só alguns são detentores da afetividade.

Este texto respeita as regras do AO90.

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