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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Os dias negros de Outubro – IV

Arnaldo Xarim
Economista

Coincidência, ou não, os piores crash bolsistas (designação usada nos mercado de capitais para uma descida grande e inesperada do valor das acções que se traduz num impacto negativo na economia) registados no século XX ocorreram quase sempre no mês de Outubro, ou muito próximo dele.

As crises seguintes

Desta vez pelas suas características eminentemente financeiras a crise que ocorreu em 1999, teve início em 1997 na Ásia, alastrou no ano seguinte à Rússia e ao Brasil e conheceu o seu pico em 1999 com o colapso de um fundo de longo prazo, que mais não era que um fundo especulativo (hedge funds, o mais conhecido dos quais foi o Long-Term Capital Management, fundado por John Meriwether, um ex-vice-presidente da Salomon Brothers) que procurava obter ganhos a partir dos curtos diferenciais entre as taxas de juro das dívidas públicas de diferentes países e do postulado que a longo prazo aqueles tenderiam para zero. A crise, despoletada por razões de natureza económica alastrou aos mercados de capitais e conheceu maior amplitude por se ter revelado particularmente adversa a uma teoria então dominante e que esteve na sua origem. Apresentada por dois premiados com o Nobel da Economia, Myron Scholes e Robert Merton, postulava que a longo prazo haveria uma convergência nas taxas das obrigações dos diferentes países e provocou uma verdadeira corrida aos fundos que especulassem nas diferenças registadas entre as diferentes taxas.

O pior foi quando em 1998 a Rússia suspendeu o pagamento dos juros da sua dívida, originando um movimento de rejeição da generalidade das obrigações públicas que teve como contrapartida uma corrida às obrigações do tesouro americano (US Treasury Bonds) e uma subida no diferencial entre aquelas taxas. O LTCM que tinha recorrido ao crédito para construir as suas carteiras (falou-se na época numa alavancagem 25 vezes maior que o capital investido) segundo os pressupostos da convergência das taxas, via-se a braços com sérias dificuldades de liquidez e contribui em muito para ampliar um efeito de choque cujos efeitos negativos sobre o mercado de capitais o FED procurou minimizar liderando a formação de um sindicato bancário para socorrer o fundo e mais de 3,5 mil milhões de dólares foram nele injectados até à sua liquidação em 2000.

Ainda mal refeitos dos efeitos da falência do LTCM, logo em 2000 o mercado de capitais voltou a conhecer uma nova corrida e um novo crash. Desta feita o estranho objecto de desejo foram as acções de um mercado recentemente criado, o NASDAQ (acrónimo de North American Securities Dealers Automated Quotation System é uma bolsa de valores electrónica, constituída por um conjunto de corretores conectados por um sistema informático; caracteriza-se por compreender as empresas de alta tecnologia em electrónica, informática, telecomunicações e biotecnologia) e cujas empresas listadas ficaram na gíria como as “dot com” (a designação associa a actividade das empresas em questão com o surto de expansão da Internet e do facto de nesta as respectivas páginas serem designadas pelo nome da empresa, um ponto «dot» e a extensão «com»), independentemente da reduzida dimensão das empresas e dos reduzidos ou nulos lucros que geravam na sua actividade económica. A bolha rapidamente rebentou e em finais de Outubro de 2000 o índice NASDAQ tinha caído quase 80%.

Tal como em situações anteriores o efeito deste crash também se fez sentir na economia norte-americana, com uma quebra no investimento e o abrandamento do crescimento económico, situação que seria ainda ampliada com o 11 de Setembro de 2001. Tal como no passado, o FED voltou a recorrer à receita do corte nas taxas de juro visando a dinamização da economia.

Embora a crise iniciada em 2007 e com origem na falência do mercado subprime norte-americano possa parecer diferente das anteriores e não respeite a tendência para a redução dos ciclos de ocorrência (sempre mediaram sete anos desde a crise das “dot com”, contra apenas dois entre esta e a do LTCM), todas apresentam em comum o facto de terem sido geradas a partir de expectativas generalizadas de grandes e rápidos ganhos.

Assim, uma lição que delas se pode extrair, sempre repetida e sempre esquecida, é a de que as árvores não crescem até ao céu…; outra é a recentemente avançada por Paul Krugman ao dizer que a próxima crise pode ser completamente diferente da anterior e resultar de um acumular de pequenas coisas.

 

 

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