Diário
Director

Independente
João de Sousa

Quinta-feira, Janeiro 27, 2022

Os “homens normais” manipulados para impedir os pobres de melhorarem de vida

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Grande parte das canções da música popular brasileira versam sobre a alma do povo deste enorme país. Inclusive faz parte da formação da identidade nacional. Por isso, em geral, as músicas são selecionadas para mostrar a diversidade e a riqueza da cultura brasileira e dos dilemas de quem vive da sua força de trabalho.

São quatro músicas brasileiras e uma do grupo mexicano Café Tacvba, que tem um trabalho voltado para os interesses do povo mexicano.

Raimundo Sodré

A primeira canção completa 40 anos neste ano e apresenta uma atualidade incrível. Parece profecia. “A Massa”, dos baianos Jorge Portugal (1956-2020) e Raimundo Sodré, foi apresentada ao grande público pela primeira vez no Festival da Nova Música Popular Brasileira, da Rede Globo, em 1980.

A empatia do público foi imediata e na final no Maracanãzinho lotado, no Rio de Janeiro, o público inteiro cantou a música que tirou o terceiro lugar. “Agonia” (E sem que se perceba a gente se encontra pra uma outra folia/Eu vou pensar que é festa vou dançar, cantar é minha garantia), de Mongol, ficou em primeiro. “Foi Deus que Fez Você” (Foi Deus que fez a noite/E um violão plangente/Foi Deus que fez a gente/Somente para amar, só para amar), de Luiz Ramalho em segundo.

Mas “A Massa” ganhou o coração do público porque um ano após a Anistia – que trouxe de volta muitos exilados políticos – cantava o sufoco que o país vivia sob uma ditadura desde 1964. Atentem para os versos:

“A dor da gente é dor de menino acanhado
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar
Que salta aos olhos igual a um gemido calado
Moinho de homens que nem girimuns amassados
Mansos meninos domados, massa de medos iguais
Amassando a massa a mão que amassa a comida
Esculpe, modela e castiga a massa dos homens normais”

 

A Massa (1980), de Jorge Portugal e Raimundo Sodré

 

 

Luedji Luna

Uma nova voz baiana se destaca nesta edição. Luedji Luna canta o antirracismo e o feminismo emancipacionista como forma de colaborar para o aprofundamento desses temas no seio da sociedade, principalmente entre os que vivem do trabalho. Suas músicas mesclam vários gêneros musicais brasileiros com R&B, jazz e blues.

“Eu sou um corpo
Um ser
Um corpo só
Tem cor, tem corte
E a história do meu lugar
Eu sou a minha própria embarcação
Sou minha própria sorte”

 

Um Corpo no Mundo (2017), de Luedji Luna

 

 

O Rappa

A banda do Rio de Janeiro, O Rappa mistura rock, reggae e rap com uma pitada de ritmos nacionais. Formada em 1993, a banda se notabilizou por cantar a necessidade das pessoas sem voz e que sofrem com a repressão e violência de um sistema desumano.

“É Dia de Feira” é um claro exemplo da temática preferencial do grupo. Porque como diz a letra quem fornece a mercadoria não precisa fugir do “rapa” e ganham mais, muito mais, com a exploração do trabalho dos vendedores ambulantes.

“Mas eu não sou autorizado
Quando o rapa chega
Eu quase sempre escapo
Quem me fornece
É que ganha mais
A clientela é vasta
Eu sei!
Porque os remédios normais
Nem sempre
Amenizam a pressão”

 

É Dia de Feira (1996), de Falcão, Lauro Farias, Marcelo Lobato, Marcelo Yuka e Xandão; canta: O Rappa

 

 

Café Tacvba

Café Tacvba é um grupo mexicano de rock alternativo. Desde 1989 canta as mazelas do México e as lutas para mudar a cara do país.

“Se progredir é o nosso trabalho
e ainda há muitos índios por aí
que não sabem o que é viver na cidade”

 

Trópico de Câncer (1994), de Café Tacvba

 

 

Nelson Cavaquinho

Nelson Antônio da Silva, o Nelson Cavaquinho (1911-1986) é um dos mais importantes compositores brasileiros. Com toda a sua melancolia produziu pérolas da música popular brasileira como “Juízo Final”, “Folhas Secas”, “Rugas” e muitas outras. Bastante popularizado na voz de Beth Carvalho, principalmente.

Em “Quando Eu Me Chamar Saudade” ele pede para receber afagos e saudações em vida.

“Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga
Para aliviar meus ais”

 

Quando Eu Me Chamar Saudade (1985), de Guilherme Brito e Nelson Cavaquinho


Texto em português do Brasil


Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a Newsletter do Jornal Tornado. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

 

Receba a nossa newsletter

Contorne o cinzentismo dominante subscrevendo a nossa Newsletter. Oferecemos-lhe ângulos de visão e análise que não encontrará disponíveis na imprensa mainstream.

- Publicidade -

Outros artigos

- Publicidade -

Últimas notícias

Mais lidos

- Publicidade -