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Terça-feira, Julho 5, 2022

Os limites do crescimento (do Clube de Roma ao futuro)

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

De forma explícita ou implícita, algumas vezes tenho referido neste espaço a questão do crescimento económico e do seu limite, algo que se pode responder de forma imediata com a ideia que este estará directamente associado e dependente da finitude dos recursos naturais. No entanto, a resposta não será assim tão simples quando equacionamos outras questões como o que determina o limite desses recursos e se será imutável a sua disponibilidade na natureza?

Mesmo na ausência de respostas absolutas (como seria de esperar da complexidade do tema) e depois da formulação malthusiana (ver o artigo OS LIMITES DO CRESCIMENTO (de Malthus aos baby boomers)) que de uma forma ou de outra nos acompanhou durante mais de dois séculos, a questão dos “limites do crescimento” voltou à ribalta com a apresentação de um relatório encomendado pelo Clube de Roma – um think tank criado em 1968 por um grupo de notáveis (também muito ligados ao Fórum Económico Mundial) para debater um conjunto de assuntos relacionados política e economia internacional, mas sobretudo, com o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável – que concluiu que, apesar dos avanços tecnológicos, o planeta não suportaria o crescimento populacional devido à crescente pressão sobre os recursos naturais e energéticos e ao aumento da poluição. Tal como já sucedera com as projecções de Thomas Malthus, também estas se mostraram desajustadas, tanto no capítulo do esgotamento dos recursos naturais, como no da evolução dos processos produtivos, ainda que os indefectíveis contra-argumentem, à falta de melhor, que se tratará apenas de uma questão de tempo.

Talvez o maior contributo do Clube de Roma, além do de ter despoletado o debate, tenha sido o de trazer a abordagem ecológica para o assunto, embora esta, à semelhança de todo o cenário, careça da devida apreciação crítica.

A perspectiva ecológica e em especial a recente tendência para a descarbonização das economias – ou seja substituição de fontes de energia de origem fóssil, como o carvão, o petróleo e o gás – estão a abrir novas vias para o debate, defendendo uma rápida transição para “energias verdes”, como a solar ou a eólica.

Sem pretender subverter os termos do debate e perfeitamente conscientes dos problemas de poluição associados ao uso dos combustíveis fósseis, sempre lembro que as soluções alternativas ainda estão muito longe de se perfilarem como competidoras sérias. Veja-se a distribuição dos consumos de energia em função das respectivas origens ao longo das duas últimas gerações para se perceber a enorme dependência dos hidrocarbonetos (e estamos a falar apenas de produção de energia) e da ainda reduzida expressão das alternativas eólica e solar.

O gráfico seguinte mostra que estas duas soluções apenas na última década começaram a revelar alguma expressão e que só a opção nuclear chegou a representar, nos últimos anos do século passado, valores próximos da solução hídrica.

 Apresentada no início como portadora de um enorme potencial, a solução nuclear conheceu grande contestação, após os tristes acontecimentos de Chernobyl (1986) e especialmente os de Fukushima (2011), embora, pelo menos desde 1952, tenham ocorrido outros acidentes em centrais nucleares no Canadá, Japão, França, Rússia e EUA dos quais o de maior impacto foi, sem sombra de dúvida, o da central norte-americana de Three Mile Island, em 1979.

Ainda assim, a World Nuclear Association estima no seu relatório de Setembro deste ano que cerca de 10% da energia mundial tenha origem em centrais nucleares, facto que deve merecer especial atenção por representar (segundo dados de 2019) quase tanto quanto o somatório de todas as outras fontes renováveis, incluindo a eólica e a solar.

Se recordarmos que o grande estigma da energia nuclear é o resultado dos acidentes ocorridos em instalações que processam material radioactivo mediante recurso à tecnologia de fissão nuclear, mas que já está em desenvolvimento a alternativa da fusão nuclear (o que distingue a fissão da fusão é que na primeira a energia resulta da quebra dos átomos de urânio enquanto a segunda se obtém a partir da fusão dos átomos), cujos resultados, a comprovarem-se, juntarão às vantagens da não geração de gases com efeito de estufa, do aumento da produção constante de electricidade e aos baixos custos de produção, o fim dos resíduos radioactivos (os resultantes do processo de fusão podem ser objecto de reaproveitamento clínico) e dos riscos de explosão.

Esta hipótese da fusão nuclear, repito e sublinho, em fase de estudo, podendo apresentar uma solução viável para o problema da produção acessível de energia, justifica desde já a formulação de duas importantes questões: a do investimento na investigação e a do quase silenciamento da sua existência, que podem levar até à desinformação que continua a rodear as questões em torno da “energia verde” e da declarada intenção de descarbonização das economias.

A questão das origens do financiamento à investigação científica e dos relatórios em que se têm baseado defensores e detractores do actual modelo energético ou das suas alternativas, não é despiciente nem inócuo, do mesmo modo que só os ingénuos acreditarão que a transferência dos grandes centros de investigação da esfera pública para a privada derivou do filantropismo dos mega-ricos, ou que os acidentes com as centrais nucleares são fruto exclusivo da perigosidade do material radioactivo e nunca do aumento dos riscos provocados por sistemas de manutenção e segurança reduzidos ao mínimo com o óbvio objectivo de aumentar os lucros das empresas privadas a que foram entregues.

Mesmo sem aprofundar demasiado a inegável necessidade de políticas que conduzam à redução dos níveis actuais de poluição – e aqui o uso dos hidrocarbonetos tem um peso e um papel especiais – permanece a necessidade de um óbvio debate em torno das alternativas e as escolhas que hoje se fizerem não podem responder apenas a uma das vertentes do problema. É que qualquer que seja alternativa escolhida terá obrigatoriamente de responder também a critérios económicos, sob pena do seu completo fracasso.

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