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João de Sousa

Terça-feira, Outubro 26, 2021

Para o camarada Ruy, o amigo clássico que faleceu

Urariano Mota, no Recife
Escritor e colunista da Boitempo e do Direto da Redação. Colabora também com Vermelho, Carta Capital e Fórum.

Eu me lembro que diante da notícia só consegui falar palavrões, que não expressavam a raiva: porra, puta que pariu, caralho… e os palavrões se tornavam palavrinhas dóceis e mansas porque não alcançavam a dimensão de ira por isto: Ruy faleceu.

Vocês por favor entendam. Eu não sei que título deve ter o texto. Deixo para André Cintra, o competente editor de cultura do Vermelho, escolher. Este é um texto de urgência.

Não faz duas horas, André Cintra me falou por telefone a triste e terrível notícia: José Carlos Ruy acabara de falecer. O seu corpo havia sido encontrado pela filha Carolina Ruy. Eu me lembro que diante da notícia só consegui falar palavrões, que não expressavam a raiva: porra, puta que pariu, caralho… e os palavrões se tornavam palavrinhas dóceis e mansas porque não alcançavam a dimensão de ira por isto: Ruy faleceu.

Agora, bem sei que outros camaradas, amigos de José Carlos Ruy de muito tempo em São Paulo, sabem informações que eu não tenho. Então só me resta falar do Ruy que eu conheci, a pessoa a quem tanto devo.

A primeira coisa é: como foram bons os nossos encontros! No primeiro deles, nós nos encontramos em Olinda, eu, ele e Marco Albertim, o nosso Marcão. Dessa vez, fomos para o Alto da Sé, e lá do alto, pela janela do restaurante, víamos o Recife, o porto do Recife, e bebemos aguardente e cerveja. Como foi bom!

Muitos talvez não acreditem nesta realidade: como podem pessoas, que nunca se viram antes, terem um encontro fraterno, rico, só possível em velhos amigos? É que os comunistas têm isso, e quem não é não sabe o que está perdendo.

O fato é que ali o nosso encontro foi de velhos camaradas, embora na época eu não houvesse entrado no partido. Ele e Marcão, sim. O certo é que ali bebemos e conversamos de tudo e de todas as coisas que eram possíveis.

Eu via Ruy, à penumbra da noite, falar de literatura, do Vermelho, da cultura, da literatura, da história do comunismo no mundo, com propriedade e erudição, sem ar professoral. Ele falava como um amigo que é um outro de nós. Entendem? A lição de suas palavras vinha como numa aula de Sócrates, que fazia o interlocutor descobrir uma verdade como se fosse própria.

Então depois, Ruy, em São Paulo, me pediu um texto para o romance que Marco Albertim publicava em capítulos, como um folhetim, no Vermelho. O romance era Conspiração no Guadalupe, e de modo privado Ruy me pediu um texto para o amigo comum. Eu consegui escrever e publicar Folhetim: breve apresentação do escritor Marco Albertim.

Depois, de modo mais recente, Ruy foi a pessoa essencial e sem ele eu não teria publicado tão cedo o romance A Mais Longa Duração da Juventude pela LiteraRua. Ruy foi o cara que fez os contatos, quebrou arestas, atapetou o caminho para o livro, sobre o qual escreveu a brilhante apresentação, “Um sonho que a repressão não destrói”.

E finalmente, o que ninguém sabe até hoje, José Carlos Ruy foi a ponte da tradução do romance para o inglês, que será feita pelo escritor e poeta Peter Lownds. Agora, sei que o leitor se pergunta: por que falo e escrevo estas coisas, como se fossem uma autorreferência? Entendam, Ruy foi o intelectual e amigo que me abriu portas para a divulgação da literatura que escrevo. Não somente para mim, mas até onde sei, de Marco Albertim também, de Christiane Brito, e de outros que não alcanço.

Isto é, eu tenho com esse homem que se foi sem aviso ou queixas uma dívida impagável. Ele era um heroico amigo, que quase cego não reclamava. Nunca vi um só momento Ruy reclamar dos males que sofria, solidão, doenças, angústia, raiva, desespero. Nada. Ele era sempre o sorriso fraterno. O acolhimento e o incentivo para as viagens culturais e literárias.

Nesta semana, eu confessei a um amigo de infância que me preocupava muito com a saúde dos amigos. E nisso havia fraternidade e egoísmo ao mesmo tempo. De um ponto de vista mais alto, eu me preocupo porque um amigo que falece é uma parte de nós que também falece. Ficamos sempre menores, pois de nós se arranca uma parte do nosso ser. E de um ponto de vista menor, terrível, uma voz nos sussurra de um anjo cruel e inapelável: “Serás o próximo”.

De um ponto de vista grandioso, o nosso Ruy, que se despede hoje sem aviso, era um clássico! Um homem que escrevia sobre filosofia, literatura, história, política, sem temer a dimensão dos intelectuais criadores e temas sobre os quais falava. Ele escrevia sobre Machado de Assis e sobre Engels, sobre Marx e sobre Shakespeare, com a maior propriedade sem pose. Repito: José Carlos Ruy era um clássico! Mas ele era também um clássico da amizade, pois era aquele amigo que procuramos quando sentimos e caímos no maior desassossego.

Sentimos um abalo forte, mas em honra da sua memória não devemos deixar que o desalento, o desânimo nos invada, mesmo diante desta hora extrema da sua partida. Ruy era um guerreiro. A sua vida era um combate franco, aberto, de humanista. Bem sei, é inegável o sentimento de que nós, que nada temos, ficamos mais pobres. Um paradoxo, que Ruy talvez aceitasse como uma mais-valia da amizade.

Então digo apenas, no fim. Eu vi um clássico brasileiro vivo: José Carlos Ruy. Presente, amigo e camarada. Que reciprocidade! Para você, que para nós sempre foi um presente.


Texto em português do Brasil


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