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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

A nova face da Europa

Arnaldo Xarim
Economista

Não havia necessidade de esperar pelos resultados destas eleições europeias para se anteverem as principais características da nova Europa que aquele resultado eleitoral deixa prever. À primeira vista não se concretizou o antecipado desastre de uma forte representação dos partidos soberanistas de direita (ECR, ENL e EFDD) que no conjunto pouco ultrapassaram os 22% dos votos que lhes darão direito a 171 assentos parlamentares, nem a retumbante entrada em cena de partidos transeuropeus, como o Diem25 – diluído em alianças transnacionais sob a designação “European Spring” – ou o Volt, aos quais a imprensa pouco ou nenhum destaque deu durante a campanha. Assim, as grandes alianças de partidos nacionais como o PPE, o S&D e a ALDE (agora fortalecida com os liberais franceses do partido do presidente Macron) irão continuar a dominar o hemiciclo europeu.

Mas na aparente estabilidade muito estará a mudar, pois esta terá sido a mais europeia e a mais democrática da história da UE. Com uma média de participação que rondou os 50%, países houve, como a Bélgica e o Luxemburgo, que ultrapassaram os 80%; pela negativa outros, como a República Checa, a Croácia, a Eslováquia e a Eslovénia, não alcançaram sequer os 30%.

Este fenómeno de elevada abstenção (sempre mais gravosa no caso das eleições europeias) deverá ter origem em dois factores: o alheamento popular das questões públicas e pior ainda quando elas são de dimensão europeia – fomentado pelo reiterado desinteresse no debate de ideias e de políticas concretas que incentivem a participação dos cidadãos – e a insistência dos principais partidos na condução de campanhas eleitorais alicerçadas em questiúnculas pessoais ou em “casos” de nulo interesse prático em lugar da apresentação de propostas concretas e no esclarecimento de dúvidas e do interesse factual da participação dos cidadãos.

O lado negativo é que esta onda de democratização está a ser conduzida pelos chamados partidos populistas, particularmente os da direita soberanista, com base em agendas simplistas, onde se destacam como principais: a da retoma do controle das fronteiras, a da reafirmação de princípios “protectores” (numa óbvia tentativa de disfarçar a ideia de um protecionismo puro e duro), a da priorização da identidade europeia, a do endurecimento das políticas de migração interna e externa e da recuperação das taxas de natalidade.

A eficácia desta nova agenda no Parlamento Europeu, agora compartilhada por uma nova categoria de partidos de direita radical (a Frente Nacional de Le Pen na França, o holandês Fórum pela Democracia de Thierry Baudet, o neo-franquista Vox em Espanha, a AfD na Alemanha, o austríaco Partido da Liberdade de Heinz-Christian Strache, a italiana Lega de Matteo Salvini, ou o britânico Partido Brexit de Nigel Farage) que estão estratégica e ideologicamente unidos, estará ligada a uma coerência e coordenação – lembre-se a participação de Steve Bannon, o guru de Donald Trump – que os meios de informação persistem em nos esconder. A enfrentá-los estarão por um lado, os famosos partidos “pró-europeus” centristas, os detentores oficiais do sistema europeu “democrático”, que aparecerão agora com maior pendor nacional e por isso mais divididos e mais ineficientes do que anteriormente, a par com uma extrema-esquerda, também ela em processo de europeização (via movimento europeu Spring/Diem25), mas numa fase menos adiantada, devido à maior complexidade da sua mensagem e à completa falta de apoio financeiro e de exposição mediática.

A direita radical deverá por isso assumir o controle do discurso político no Hemiciclo, não só pela sua matriz populista mas também porque estão a difundir um discurso irresistível sobre a questão dos migrantes. Esta problemática, teoricamente mais polarizadora, leva a que quase nenhum partido se atreva a produzir um contradiscurso, sobre o protecionismo, a priorização europeia, as suas fronteiras, a defesa e outras questões similares… todos estão de acordo e apesar de terem sido os designados governos de centro a iniciarem as chamadas políticas duras, ideologicamente, esse tipo de programa pertence de facto à extrema-direita.

Uma década onde vigorou uma crise económico-financeira e social mal administrada (no sentido desta ter sido gerida por via não política e divorciada da sociedade) construíram os alicerces para a vitória das soluções da extrema-direita, que está prestes a acontecer por falta de oposição dos ineptos partidos centristas e de uma extrema esquerda inevitavelmente amordaçada por um establishment que favorece, clara e abertamente, uma extrema direita com a qual pode cooperar e dela espera beneficiar. Assim se explica que a mais europeia das eleições, por ter contado pela primeira vez com a participação de movimentos políticos transeuropeus, não tenha sido noticiada por uma imprensa nacional incapaz de ouvir outras forças europeias além das da extrema-direita, as únicas realmente enraizadas ao nível nacional.

Em consequência de tudo isso, não deverá demorar muito para assistirmos a um enorme efeito cascata no discurso dos grupos soberanistas no Parlamento, cujos argumentos serão cada vez mais adoptados pelos outros partidos. É emblemático desse fenómeno, e por isso mesmo prova irrefutável, a situação que o PPE atravessa na gestão da chamada “crise Orban”, família política europeia que está repleta de correntes políticas muito próximas às da direita soberanista que graças a um bem conseguido processo de refocalização abandonou o seu tradicional discurso antissemita à ultra-minoria dos partidos políticos neo-nazis que representam agora a nova extrema-direita. A presença do partido de Orban, das forças neo-franquistas do PP espanhol que ainda não aderiram ao partido de direita Vox e de todas as franjas mais extremistas dos tradicionais partidos de direita, garantem em conjunto a adopção gradual pelo PPE do mesmo discurso e das sementes de uma ainda maior desagregação do projecto europeu.

A notável excepção de tudo isto será a minoria de extrema esquerda, que deverá procurar tirar proveito desta realidade para forjar o seu próprio contradiscurso… mas será que vai ser ouvida?


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