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Quarta-feira, Maio 25, 2022

Paulo Leminski, 30 anos de saudades

Paulo Leminski, escritor, ensaísta, letrista de música popular, crítico literário, tradutor e um dos mais inventivos poetas de sua geração, faleceu há 30 anos, no dia 7 de junho de 1989, com apenas 45 anos de idade, vítima de cirrose hepática.

Paulo Leminski virou uma legenda, uma espécie de ‘mito’ da poesia mais recente produzida no Brasil. Para isso contribuiu, sem dúvida, a sua morte prematura; nesse sentido, está ao lado de companheiros ilustres: Mário Faustino, Torquato Neto. Foi um tipo algo romântico e radical, que via (e vivia) a poesia em tudo”.

A vida irreverente e boêmia do poeta, sem dúvida, contribuiu para a construção do mito, que recorda a jornada de astros de rock como Jimmi Hendrix e Janis Joplin. Sua obra, porém, supera o encanto circunstancial da biografia pela densidade estética e referencial.

A poesia de Leminski descende do rigor formal do Concretismo, mas ele também incorporou influências da contracultura, da linguagem publicitária, da cultura japonesa, do zen-budismo, da música pop, das histórias em quadrinhos e escreveu sobre os mais variados temas, desde questões políticas:

(“en la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras, noches, poemas”)

até existenciais:

(“apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme”)

quase sempre fazendo uso da ironia, do humor, da linguagem coloquial, dos trocadilhos e da musicalidade dos versos.

A gíria, o palavrão e a dicção urbana também são frequentes em sua obra, como neste poema:

“o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique”

assim como elementos formais assimilados da vanguarda, como a eliminação da pontuação, o uso exclusivo de letras minúsculas, a disposição geométrica das palavras na página, o emprego de neologismos e de palavras-valise, que multiplicam as possibilidades de significação do texto. O artesanato poético de Leminski valoriza ainda recursos da poesia tradicional, como as rimas, que são essenciais para a estrutura rítmica de seus poemas.

O autor curitibano, “mestiço de polaco com negra”, como ele mesmo gostava de se apresentar, ingressou aos 12 anos no Mosteiro de São Bento, onde adquiriu conhecimentos de latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Em 1963, abandonou a vocação religiosa. Viajou a Belo Horizonte para participar da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, onde conheceu Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, criadores do movimento internacional da Poesia Concreta. No ano seguinte, publicou seus primeiros poemas na revista Invenção, editada pelos concretistas, e torna-se professor de História e Redação em cursos pré-vestibulares, experiência que motivou a criação de seu primeiro romance, Catatau (1976), ambientado em Recife, durante as Invasões Holandesas. Leminski também atuou como diretor de criação e redator em agências de publicidade, o que contribui com a sua atividade poética, pela convivência com profissionais de comunicação visual.

Paulo Leminski

O poeta curitibano (1944-1989), que faleceu há 30 anos: sua obra ainda preserva extrema atualidade

 

Fascinado pela cultura japonesa e pelo zen-budismo, Leminski foi faixa-preta e professor de judô, escreveu haicais e uma biografia de Matsuo Bashô. Colaborou em revistas de vanguarda, como RaposaMudaQorpo Estranho e fez parcerias musicais com Caetano Veloso e Itamar Assumpção, entre outros. O interesse pelos mitos gregos, por sua vez, inspirou a prosa poética Metaformose.

Paulo Leminski exerceu atividade intensa como crítico literário e tradutor, vertendo para o português obras de James Joyce, Samuel Beckett, Yukio Mishima, Alfred Jarry, entre outros. Politicamente, foi de esquerda, integrou os quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e escreveu no jornal Voz da Unidade, embora nunca tenha sido um marxista-leninista ortodoxo. Seu temperamento, talvez, estivesse mais próximo ao anarquismo.

Em 1968, casou-se com a poeta Alice Ruiz, com quem viveu durante 20 anos, e teve três filhos: Miguel Ângelo (morto aos 10 anos de idade), Áurea e Estrela. Em 7 de junho de 1989, o poeta faleceu no Hospital Nossa Senhora das Graças, vítima de cirrose hepática, e foi velado na Reitoria da Universidade Federal do Paraná.

Leminski posa para foto em sua casa, em Curitiba, durante uma entrevista em 1986

Obra criativa, densa e plural

Os primeiros livros do autor, Não Fosse Isso e Era Menos / Não Fosse Tanto e Era Quase e Polonaises (1980, ed. do autor), foram reunidos, com o acréscimo de novos poemas, em Caprichos e Relaxos (1983), que desde a sua primeira edição exerceu notável influência nas gerações mais jovens. Em Distraídos Venceremos (1987), o poeta curitibano reuniu peças densas e reflexivas que discutem temas relacionados à história, à leitura, ao amor, à perda da fé religiosa, e sobretudo à própria poesia, como em M, de Memória:

“Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda”.

No final do volume, Leminski incluiu um caderno chamado Kawa Cauim: Desarranjos Florais, uma seleção de 27 haicais irônicos e concisos como este:

“alvorada
alvoroço
troco minha alma
por um almoço”.

Após a morte do poeta, foram editados dois livros com poemas póstumos, La vie em close (1991) e O Ex-Estranho (1996), que reafirmam a posição Leminski como o nome mais destacado de sua geração.

A prosa de ficção de Leminski inclui os romances Catatau (1976), Agora É que São Elas (1984), Metaformose (1994) e o livro de contos O Gozo Fabuloso (2004). Classificar esses textos como “romances”, “novelas” ou “contos”, porém, é bastante arriscado, conforme escreveu Maria Esther Maciel, pois “Leminski experimentou e mesclou todos os gêneros, num movimento de abertura ao híbrido, ao mutante”, não respeitando as fronteiras entre poesia, ficção ou ensaio. O romance Catatau, por exemplo, embora tenha uma trama ficcional que se desenvolve a partir de uma visita imaginária do filósofo francês René Descartes ao Brasil, acompanhando a comitiva de Maurício de Nassau, no período das Invasões Holandesas, descarta a construção linear de tempo, espaço e personagem, própria do realismo, e se aproxima de textos experimentais como o Finnegans Wake, de James Joyce, do Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ou das Galáxias, de Haroldo de Campos. Como declarou o próprio Leminski “O Catatau não tem enredo. Tem apenas um contexto. No Catatau, quase nada acontece. No sentido da narrativa do século 19, claro. No plano da linguagem e do pensamento, acontece quase tudo”.

Leminski fez dezenas de parcerias musicais, com músicos como Caetano Veloso (à esq.) e Moraes Moreira (à dir.)

 

O texto inventivo de Catatau dissolve a distinção entre prosa e poesia e faz amplo uso da paródia e da sátira, incorpora neologismos, arcaísmos, palavras em línguas estrangeiras, citações eruditas e provérbios populares, sendo por isso considerado um exemplo de literatura neobarroca, gênero fundado na América Latina pelo cubano Lezama Lima, que tem como principal característica a mestiçagem de estilos.

O trabalho de Leminski como tradutor não foi menos notável. O poeta traduziu Satiricon, de Petrônio, diretamente do latim para o português; traduziu o relato Sol e Aço, de Yukio Mishima, e haicais de Bashô a partir dos textos originais japoneses; traduziu o Supermacho, de Alfred Jarry, escrito em francês, além de poemas, novelas e textos inventivos de James Joyce, Lawrence Ferlinghetti e John Lennon, escritos em inglês, entre outras obras.

Paulo Leminski deixou ainda um livro de literatura infantil, Guerra Dentro da Gente (1988); uma coletânea de ensaios, Anseios Crípticos (1986); e dezenas de parcerias musicais feitas com músicos como Caetano Veloso, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção. Sua correspondência com Régis Bonvicino foi publicada no livro Envie Meu Dicionário (1998), que reúne ainda textos críticos de autores como Carlos Ávila e Boris Schnaiderman sobre o trabalho do poeta curitibano. Nos dias de hoje, Paulo Leminski é ainda um dos poetas que mais influenciam as gerações mais novas, o que só revela a extrema atualidade de sua poesia.


por Claudio Daniel, Poeta, tradutor e ensaísta, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, com mestrado e doutorado em Literatura Portuguesa pela USP, além de pós-doutor em Teoria Literária pela UFMG | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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