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Quinta-feira, Junho 24, 2021

“Retratos do real” vão estar em ecrãs do Porto

José M. Bastos
Crítico de cinema

A partir de hoje e atá ao próximo dia 01 de Dezembro vai decorrer no Porto a 6ª edição do ‘porto/ post/ doc’ um festival de cinema focado em retratos da realidade.

Um festival do cinema independente, do documentário mais ou menos convencional à ficção baseada no real, situado em épocas, geografias e contextos culturais e sociais diversificados. Nos ecrãs do Teatro Municipal do Porto – Rivoli, do Cinema Passos Manuel e do Planetário do Porto – Centro Ciência Viva passarão mais de cento e trinta filmes integrando secções competitivas e diversas mostras. Debates, ciclos temáticos, sessões de cinema para famílias, workshops, concertos e festas fazem parte de um programa que promete agitar a baixa portuense (e não só) nos próximos dias.

O Amor de Leonard Cohen e Marianne na sessão de abertura

Poucos dias depois de se terem completado três anos sobre a morte de Leonard Cohen, o ‘porto/post/doc’ exibe esta noite, na sessão de abertura do festival, a realizar pelas 21h30 no Grande Auditório do Teatro Municipal Rivoli,  “Marianne & Leonard: Words of Love” de Nick Broomfield (E.U.A., 2019). O encontro do artista canadiano com Marianne Ihlen, a jovem norueguesa que ele conheceu numa ilha grega em 1960 e que viria a ser musa inspiradora das suas primeiras canções é o ponto de partida deste filme centrado na história de amor que viria a durar até à morte de ambos. Refira-se que Marianne morreu também em 2016, poucos meses antes da morte de Leonard.

O filme está integrado na secção ‘Highlights’ na qual serão também apresentados “Andrey Tarkovsky: A Cinema Prayer”, em que Andrey A. Tarkovsky, filho do celebrado realizador russo, aborda vida e obra do pai,  e “Zé Pedro Rock’n’roll”, documentário de Diogo Varela Silva dedicado ao inesquecível músico dos ‘Xutos e Pontapés.  Em “Highlights” passarão ainda “O Filme do Bruno Aleixo”, de João Moreira e Pedro Santo, e “Cães que Ladram aos Pássaros”, de Leonor Teles, a curta-metragem sobre a gentrificação no Porto nomeada para os Prémios do Cinema Europeu que serão atribuídos em Berlim daqui a três semanas.

Nove filmes na competição internacional

Cada vez há menos fronteiras no mundo do cinema. Enquanto alguns apostam em erguer muros, a criação cinematográfica é algo cada vez mais global e transnacional. A selecção dos filmes da secção internacional do ‘porto / post/ doc’ ilustra esse facto de forma exuberante.

O fotógrafo e cineasta austríaco Andreas Horvath recria um pedaço da história de uma imigrante russa nos Estados Unidos que, ao fim de alguns anos, confrontrada com as dificuldades da vida, resolve voltar à sua terra natal. O percurso, a pé, de uma mulher que em 1927 enfrentou as inóspitas terras do Alasca até desaparecer para sempre é o tema de “Lilian”, exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.

A britânica Kim Longinotto traz-nos “Shooting the Mafia”, sobre a figura da octogenária fotógrafa e fotojornalista italiana Letizia Battaglia com uma carreira quase integralmente focada no quotidiano do povo da Sicília e em particular nas actividades da máfia na região de Palermo.

A Transnístria é uma pequena região situada no território da Moldávia que, com o apoio de tropas russas, declarou a independência em 1990. Independência que se mantém até hoje. A sueca Anna Eborn resolveu dar-nos um retrato desse estranho país com “Transnistria”, um trabalho em registo documental, que tem como protagonistas alguns jovens adolescentes que, tendo como sombra o passado comunista e poucas oportunidades de afirmar o seu futuro, procuram viver os seus primeiros amores.

De outra sueca, Anna Odell, presente na primeira edição do ‘porto / post / doc’ com “A Reunião”, poderá ser visto “X & Y”, um documentário que é também uma experiência sociológica, uma análise de comportamentos, filmada num recinto fechado em que, perante um grupo de actores,  a realizadora se confronta com um deles. Um filme de conflitos e emoções exacerbadas.

Enquanto o britânico Ben Rivers e a tailandesa Anocha Suwichakornpong apresentam “Krabi, 2562”, exibido no Festival de Locarno, um filme rodado na Tailândia que conta o passado de uma cidade e o presente marcado pelo turismo de massas e pela gentrificação, da germânica Ute Aurand, nome incontornável do cinema experimental alemão e cuja obra será de resto objecto de especial atenção no programa do festival, poderá ser visto “Rushing Green With Horses” um filme muito pessoal e intimista, colecção (ou colagem?) de pequenos filmes, registados entre 1999 e 2018,  sobre o quotidiano da família e amigos da autora.

“The Science of Fictions”, do indonésio Yosep Anggi Noen, menção especial da secção oficial do Festival de Locarno, conta a história de um homem que, em 1960, assiste por acaso às filmagens de uma ‘aterragem’ na Lua, realizadas por uma equipa de cinema estrangeira, numa zona despovoada da Indonésia.

Os italianos Gaia Formenti e Marco Piccarreda dão em “Creatura Dove Vai?” uma imagem quase demencial de uma relogiosidade levada ao extremo ao contar a história de uma velha mulher que, no Sul da Itália recebe a misteriosa visita de um Santo que a incita a fazer uma peregrinação para um destino desconhecido.

Uma referência final para outro filme da competição: “De Quelques évènements sans signification” do marroquino Mostafa Derkaoui, obra que, enquanto objecto fílmico tem a sua própria história. Datado já de 1974, foi proibido pela censura e ficou invisível até este ano. Foi a Filmoteca da Catalunha que encontrou o material filmado e o digitalizou. E, assim, poderemos agora conhecer um filme politicamente comprometido, situado nos bairros de trabalhadores de Casablanca e que procura reflectir as contradições da sociedade marroquina dos anos 70 do século passado.


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