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Sábado, Janeiro 22, 2022

Portugal e Moçambique: duas nações irmãs e os desafios do futuro

Delmar Gonçalves, de Moçambique
De Quelimane, República de Moçambique. Presidente do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora (CEMD) e Coordenador Literário da Editorial Minerva. Venceu o Prémio de Literatura Juvenil Ferreira de Castro em 1987; o Galardão África Today em 2006; e o Prémio Lusofonia 2017.

“Moçambique é um caroço que está sempre inventando o fruto em seu redor. Quando acreditamos ter adivinhado a sua identidade surge uma dimensão inesperada”.
Mia Couto

“Sempre no nosso horizonte de portugueses se perfilou como solução desesperada para obstáculos inexpugnáveis a fuga para Céus mais propícios”.
Eduardo Lourenço

Sermos operários da palavra tornou-se uma obrigação nossa. Dobrados sobre a grande máquina do mundo e sobre o formigueiro dos homens a tentar fazê-los mover, arrolando cada um de nós para uma função própria através da língua. «Um homem, escreveu Jean-Paul Sartre, nunca é um indivíduo; seria preferível nomeá-lo universal singular». A minha língua sou eu próprio e o meu percurso. Há já quem seja engenheiro da palavra. O poeta regista a fome da letra, adicionando suor e labor no edifício da palavra inspirada. Sem querer extrair conclusões definitivas sobre a questão dos valores, adiantarei, no entanto, algumas reflexões mais importantes. Uma delas diz respeito à profunda e vasta mudança porque passam Moçambique e Portugal. Não apenas no campo económico e das estruturas em que essa transformação é evidente, mas também no campo das ideias, dos critérios, das sensibilidades, das relações, em poucas palavras, no campo dos valores e da cultura.

Assiste-se, como alguém já afirmou, ao refazer de Moçambique e Portugal, duas Nações irmãs. “Mãe vou ao funeral da verdade, que a mentira é o rosto dos homens que plantam a cidade. Mãe a minha pátria é o teu solo.”

Na verdade, é isso mesmo que acontece nos nossos dias e continuará a acontecer por longos anos no futuro. Que um país não se renova de um ano para o outro, leva muito tempo a transformar-se. É tarefa de gerações.

Ao fazer estas afirmações pretendo sublinhar a grandeza e mesmo a gravidade daquilo que está a acontecer tanto em Moçambique como em Portugal e ao mesmo tempo quero realçar a necessidade de todos os moçambicanos e portugueses se sentirem interpelados e comprometidos neste longo processo.

Estão em causa, deixai-me repetir, não apenas realidades materiais, mas também o perfil cultural, histórico, linguístico, social e religioso dos povos de Moçambique e Portugal. É o modo de ser, de estar e de agir que se encontra em transformação. Conclui-se daqui que, aqueles que tem responsabilidade de orientar este processo terão de pensar seriamente sobre as opções e decisões a tomar pelas suas vastas e profundas consequências nas comunidades moçambicanas e portuguesas.

Trata-se de algum modo de definir para longo tempo, o destino dos povos Moçambicano e Português, o que exige acção, competência, lucidez, prudência e humildade. Em trabalho desta grandeza e exigência, deixai-me dizer e sublinhar um outro aspecto de extraordinário valor e absolutamente necessário: refiro-me ao sentido da história, da história da existência dos povos moçambicano e português, para lhe descobrir na alma, que na história se revela, os seus sentimentos, anseios e projectos, os seus valores, opções e critérios.

Só pode servir bem um povo quem lhe conhece o espírito, não apenas pelo hoje, que vive e anuncia o futuro que se avizinha, mas também pelo ontem que viveu e até hoje se projecta em fundamento indispensável. Só quem tem capacidade de sintonia, de crítica e autocrítica, de comunicação é que é idóneo para orientar um povo.

Quem não tenha esta capacidade, ao decidir e dirigir impõe-se, impondo as suas ideias, critérios e opções, que não é certo coincidirem com a experiência vital do povo.

Para não me alongar mais neste aspecto, concluo dizendo, que apesar da inteligência, boa vontade e dedicação de todos os orientadores das vidas moçambicana e portuguesa, não têm faltado atropelos ao longo destas fases de mudança, contra a verdadeira consciência e anseios dos povos moçambicano e português.

Ficou definido, que a estrutura social da cultura de qualquer povo é constituída por normas ou regras, papéis, funções, sanções, símbolos e valores. Tudo isto se está a perder, a desmoronar com a actual globalização selvagem que se vive. É missão dos escritores, poetas, professores, educadores e intelectuais tentarem inverter as actuais tendências. Mas por outro lado, é importante sublinhar, que a inteligência dos poetas e intelectuais precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que as sociedades em que vivemos traçaram tão mesquinhos limites.

Haverão, porém, valores que se imponham como necessidade? Atrevo-me a sugerir uma resposta afirmativa com a qual termino. A experiência de como o homem tende a defender certos valores mais difíceis, que precisamente são difíceis por contrariarem as suas tendências mais espontâneas, assim o levam a pensar. Mas há razões mais importantes: se não houver valores objectivos que exijam o seu respeito por cima de qualquer tendência subjectiva, então cairemos numa ética subjectiva que se não acabar em anarquia, será pela pura imposição ditatorial e arbitrária de outro ser humano ou grupo humano. E, logicamente, a educação e a literatura serão actos fundamentais desta degradada espécie. A comunidade é o meio próprio para o desenvolvimento das pessoas.

É necessário, por isso, juntar ao primado da pessoa humana a necessidade de salvaguardar sempre os valores da comunidade, da sociedade e do bem comum, que as exprimem. Como dizia Noémia de Sousa (poeta moçambicana) “Se me quiseres conhecer estuda com os olhos bem de ver esse pedaço de pau-preto que um desconhecido irmão maconde de mãos inspiradas talhou e trabalhou em terras distantes lá do norte… Se quiseres compreender-me vem debruçar-te sobre minha alma de África”. E no caso de Portugal, bem lembra o Poeta Manuel Alegre, quando diz “E quanto mais te perco mais te encontro morrendo e renascendo…”. Como podem facilmente depreender, as palavras são sempre reveladoras. Os silêncios também.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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