Diário
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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

Precisamos agir

Arnaldo Xarim
Economista

Com novo crescimento nos casos de infecção pelo SARS-CoV-2 (o vírus responsável pela covid-19) recrudesceram as críticas (umas mais fundamentadas que outras) mas poucas ou nenhumas alternativas.

Enquanto se vai sabendo que segundo a agência Moody’s (uma daquelas especialistas que nunca vislumbrou qualquer risco nos complicados produtos financeiros que estiveram na origem da crise do “subprime”) Portugal é dos países que poderá ter maior “destruição económica”, discute-se o encerramento, ou não, de actividades como a da restauração, os malefícios para sectores como o turismo e o comércio e uma maior ou menor suspensão da actividade económica, mas continuamos sem ver a constituição de um verdadeiro “gabinete de crise” que integre especialistas em questões de saúde (virologistas e outros especialistas), cientistas, sociólogos, economistas e militares (quem melhor que eles para juntarem o conhecimento sobre gestão de crises e, porque não, alguma disciplina ao debate) e funcione como órgão consultivo para a decisão política.

Se por cá ainda não assistimos a um processo de politização da pandemia idêntico, ou próximo, ao norte-americano, nem por isso a informação tem melhorado significativamente, continuando a fazerem-se manchetes com o número de infectados e a discutir-se a capacidade do SNS, a defender-se ora a opção pelo confinamento ora o seu contrário e raramente, muito raramente, a difundir-se informação com a devida fundamentação médico-científica e que constitua útil contributo para a protecção dos cidadãos e para a elaboração de uma estratégia de actuação.

Nesse sentido aqui deixo a tradução de um artigo publicado na revista The Lancet (uma das mais antigas e conhecidas revistas médicas do mundo e considerada como uma das mais prestigiadas) e assinado por um grupo de especialistas internacionais:

Consenso científico sobre a pandemia COVID-19: precisamos agir agora

A síndrome respiratória aguda grave coronavírus 2 (SARS-CoV-2) infectou mais de 35 milhões de pessoas em todo o mundo, com mais de 1 milhão de mortes registradas pela OMS em 12 de Outubro de 2020. Como uma segunda onda de COVID-19 afecta a Europa, e com a aproximação do Inverno, precisamos de uma comunicação clara sobre os riscos apresentados pela COVID-19 e das estratégias eficazes para a combater. Aqui, compartilhamos a nossa visão do consenso actual baseado em evidências sobre a COVID-19.

O SARS-CoV-2 espalha-se através do contacto (via gotículas maiores e aerossóis) e transmissão de longo alcance via aerossóis, especialmente em condições onde a ventilação é insuficiente. A sua elevada infecciosidade, combinada com a susceptibilidade das populações não expostas a um novo vírus, cria condições para uma rápida disseminação pela comunidade. A taxa de mortalidade por infecção de COVID-19 é várias vezes maior do que a da gripe comum, e a infecção pode levar a doenças persistentes, incluindo em pessoas jovens previamente saudáveis (isto é, COVID de longa duração).

Não está claro quanto tempo dura a imunidade protectora, e, tal como com outros coronavírus sazonais, como o SARS-CoV-2 é capaz de reinfectar pessoas que já tiveram a doença, mas a frequência da reinfecção é desconhecida.

A transmissão do vírus pode ser mitigada por meio do distanciamento físico, uso de máscaras, higiene das mãos e respiratória e evitando aglomerações e espaços mal ventilados. Testes rápidos, rastreamento de contacto e isolamento também são essenciais para controlar a transmissão. A OMS tem defendido essas medidas desde o início da pandemia.

Na fase inicial da pandemia, muitos países instituíram confinamentos (restrições gerais à população, incluindo ordens para ficar em casa e trabalhar a partir de casa) para retardar a rápida disseminação do vírus. Isso foi essencial para reduzir a mortalidade, evitar que os serviços de saúde ficassem sobrecarregados e ganhar tempo para estabelecer sistemas de resposta à pandemia para suprimir a transmissão após do confinamento. Embora estes tenham sido perturbadores, afectando substancialmente a saúde mental e física e prejudicando a economia, esses efeitos têm sido piores em países que não foram capazes de usar o tempo durante e após o bloqueio para estabelecer sistemas eficazes de controle da pandemia. Na ausência de disposições adequadas para gerir a pandemia e os seus impactos sociais, esses países enfrentam restrições contínuas.

Isso, compreensivelmente, levou a uma desmoralização generalizada e à diminuição da confiança. A chegada de uma segunda vaga e a percepção dos desafios futuros levaram a um interesse renovado numa chamada abordagem de imunidade colectiva, que sugere permitir um grande surto descontrolado na população de baixo risco enquanto protege os vulneráveis. Os proponentes sugerem que isso levaria ao desenvolvimento de imunidade populacional adquirida por infecção na população de baixo risco, o que acabaria por proteger os vulneráveis.

Esta é uma falácia perigosa não suportada por evidências científicas.

Qualquer estratégia de gestão da pandemia baseada na imunidade de infecções naturais para a COVID-19 é falsa. A transmissão não controlada em pessoas mais jovens apresenta risco de morbilidade significativa e mortalidade em toda a população. Além do custo humano, isso afectaria a força de trabalho como um todo e sobrecarregaria a capacidade dos sistemas de saúde de fornecer cuidados agudos e de rotina. Além disso, não há evidência de imunidade protectora duradoura ao SARS-CoV-2 após infecção natural, e a transmissão endémica que seria a consequência da diminuição da imunidade representaria um risco para as populações vulneráveis por tempo indeterminado. Essa estratégia não acabaria com a pandemia de COVID-19, mas resultaria em epidemias recorrentes, como era o caso de várias doenças infecciosas antes do advento da vacinação. Isso também representaria um custo inaceitável para a economia e os profissionais de saúde, muitos dos quais morreram de COVID-19 ou sofreram traumas como resultado da prática da medicina de desastres. Além disso, ainda não entendemos quem pode sofrer de COVID de longa duração.

Definir quem é vulnerável é complexo, mas se considerarmos aqueles em risco de doença grave, em algumas regiões a proporção de pessoas vulneráveis representa até 30% da população.

O isolamento prolongado de grandes faixas da população é praticamente impossível e altamente antiético. Evidências empíricas de muitos países mostram que não é viável restringir surtos não controlados a sectores específicos da sociedade. Tal abordagem também corre o risco de exacerbar ainda mais as desigualdades socioeconómicas e as discriminações estruturais já reveladas pela pandemia. Esforços especiais para proteger os mais vulneráveis são essenciais, mas devem andar de mãos dadas com estratégias multifacetadas ao nível de população.

Mais uma vez, enfrentamos um aumento acelerado de casos de COVID-19 em grande parte da Europa, nos EUA e em muitos outros países em todo o mundo. É fundamental agir de forma decisiva e urgentemente. Medidas eficazes para suprimir e controlar a transmissão precisam ser amplamente implementadas e devem ser apoiadas por programas financeiros e sociais que incentivem respostas da comunidade e abordem as desigualdades que foram ampliadas pela pandemia. Restrições contínuas provavelmente serão necessárias no curto prazo, para reduzir a transmissão e corrigir sistemas ineficazes de resposta à pandemia, a fim de evitar bloqueios futuros. O objectivo dessas restrições é suprimir efectivamente as infecções por SARS-CoV-2 a níveis baixos que permitem a detecção rápida de surtos localizados e uma resposta rápida por meio de sistemas eficientes e abrangentes de localização, teste, rastreamento, isolamento e suporte para que a vida possa retornar ao próximo normal sem a necessidade de restrições generalizadas. A protecção de nossas economias está intimamente ligada ao controle do COVID-19. Devemos proteger nossa força de trabalho e evitar incertezas de longo prazo.

Japão, Vietname e Nova Zelândia, para citar alguns países, mostraram que respostas robustas de saúde pública podem controlar a transmissão, permitindo que a vida volte ao quase normal, e há muitas dessas histórias de sucesso. A evidência é muito clara: controlar a disseminação da COVID-19 pela comunidade é a melhor maneira de proteger as nossas sociedades e as economias até que vacinas e terapêuticas seguras e eficazes cheguem nos próximos meses. Não podemos permitir distracções que prejudiquem uma resposta eficaz; é essencial agirmos com urgência e com base nas evidências.»

Os autores do trabalho dizem, em resumo, que na falta de melhores opções é necessário conter a propagação do vírus mediante recurso ao distanciamento físico, ao uso de máscaras (algo que numa primeira fase não foi feito no Ocidente devido à enorme carência desse tipo de equipamento, mas que agora, numa clara demonstração do seu “soft power” e perante a ausência de actuação dos EUA, a China se preocupa em colmatar), aos cuidados de higiene das mãos e respiratória e evitando aglomerações e espaços pouco ventilados. Refutam a ideia da imunidade de grupo e reconhecem os efeitos negativos do recurso ao confinamento (degradação da saúde mental e física das populações e das respectivas economias) e apontam a necessidade de sistemas eficazes de controle da pandemia, sob pena de se criar um ciclo de contínuas restrições que agrava as desigualdades socioeconómicas, que precisam do apoio de programas financeiros adequados.

Como especialistas em matérias de saúde que são, não se alargam (e bem…) sobre este último ponto ao qual voltaremos em breve.


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