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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Prelúdios, de Manuel de Freitas e João Paulo Esteves da Silva

Yvette Centeno
Licenciou-se em Filologia Germânica, e e doutorou-se com uma tese sobre A alquimia no Fausto de Goethe. É desde 1983 Professora Catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia, actualmente integrado no Centro de Estudos do Imaginário Literário.

Ed. Alambique, 2020

A Pandemia fez nascer muito livro, de editores fiéis, fazendo pequenas tiragens ou tiragens um pouco maiores, conforme cada caso. O que todos têm, como se fosse combinado, é uma escolha de capas escuras, sóbrias e elegantes, como o vestido preto de sair à noite. Pegamos nesses livros que nos chegam por amizades várias, com cuidado, com amor, e temendo não estar sempre à altura da leitura que merecem. É o que me acontece agora de novo, com estes Prelúdios, que abrem com um shot de Manuel de Freitas, que João Paulo evoca, antes de iniciar a sua parte, ou a sua partitura que nos dá a ler.

Manuel de Freitas, que diz gostar acima de tudo de cães abandonados, de pessoas que desconhece e bebidas nunca provadas, é levado, apesar disso a afirmar: “E, no entanto, recomeço”. O seu recomeço poético, entenda-se, nasce do inusitado a que chama insónia, pesadelo, golpe baixo. Qual de nós pode dizer que nunca sofreu desses males? Em DEDICATÓRIAS (p.13) reflecte em como são perecíveis, passado tempo, e que melhor seria nunca as ter feito. Mas a algumas mantém-se fiel, como o in memoriam a José Escada, o pintor que foi embora mais cedo do que os seus amigos esperavam. Manuel, leal, fiel ao nome ar amizades conclui :” Prefiro apagar poemas, ou até um livro inteiro, a rasurar um nome”. Sabemos a quem se refere, e fica-lhe bem ser fiel, ou assumir o erro…saímos da poética para a ética, neste poema…

Leio e recordo os meus Poemas com Endereço. Escrevi muitos, a dada altura, e também eu nada alteraria do que fiz e do que disse. O livro sumiu por si próprio e não mereceu mais atenção. No ANDANTE, dedicado ao João Paulo Esteves da Silva, Manuel resume no poema o que foi uma tarde com João Paulo, em que todos os temas foram abordados, do estudo da língua hebraica a ver  um mendigo em Londres, passando por compositores de Jazz, sem esquecer um Mozart paciente, que aguarda o seu momento. Com espanto veremos que na obra de poeta e de compositor (como de tradutor de uma língua sagrada) João Paulo escreve uma partitura entrelinhada de estrelas, são VINTE E QUATRO PRELÚDIOS, que darão título ao livro feito a meias. Os títulos (os acordes) não serão de acaso, mas talvez, se bem recordo o que leio e releio, de um ocaso pressentido numa memória extinta, que se deseja “seguir como um cão”, DÓ MAIOR. (p.41).

Pela poesia de João Paulo Esteves da Silva passa um sopro que da grande cultura, de repente, nos leva para um quotidiano que é de todos nós e assim descemos com ele à terra: pela sua mão deixou de ser banal a rua, o gato do quintal, um amor de infância, uma vendedeira como já não há. Ou um concerto onde ele tocou e ouviu um comentário que primeiro pareceu desagradável e a seguir o seu ouvido corrigiu para outra mais positiva alusão: FÁ MAIOR, p.51).

Em LÁ MAIOR (p.59)encontro uma espécie de confissão que é resumo de vida:

“Também não gosto das coisas, em geral. Nem da música, nem da poesia, nem, sobretudo da humanidade. Amo esta ou aquela música, sim, esta ou aquela pessoa, ou este poema ou povo em particular.
A minha alma foge das grandes ideias. Se sai para o infinito, é nas coisas ínfimas”.

 

Não tenho piano para ir ouvir o Lá Maior. Mas ressoa em mim a sabedoria do seu dito. É no pequeno que se revela o grande, e ocorre-me Paul Celan, no poema ENTRADA DE VIOLONCELOS, nos versos finais:

“tudo é menos do que
é
tudo é mais”.

 

João Paulo, em SI MAIOR, retoma o somatório de que são feitos os dias (a vida): “As rotinas, os padrões, os circuitos, as repetições do dia a dia, as casas, as ruas, os bares, os rostos, tudo pode acabar a qualquer hora. Fora melhor não reparar nesta possibilidade. Mas os poemas vêm a quem dá por ela, um pouco, de esguelha, devagar (p.63).

A vida do seu gato que ele vê ser apagada, em SI MENOR transporta-nos no fim para a meditação da morte que tantos agora colocam nas agendas políticas. João Paulo entende que chegou a hora de desabafar: “Não me falem de eutanásia. Matem se tiver que ser, mas calem-se quanto ao valor do porquê”(p.64).

E volto aos Shots do início, para reler o desafio: São copos ou são tiros?

 

Manuel de Freitas e João Paulo Esteves da Silva

Prelúdios

 

Ed. Alambique

2020

 

 


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