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Domingo, Outubro 24, 2021

Prémios ‘Donostia’ para Marion Cotillard e Johnny Depp

José M. Bastos
Crítico de cinema

69º FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DE SAN SEBASTIÁN

Chega hoje ao fim a edição de 2021 do Festival de Cinema de San Sebastian, a segunda edição em pandemia. Enquanto se aguarda que os diversos júris tornem públicas as suas decisões fazemos, neste apontamento, breves referências a alguns factos marcantes destes dez dias de cinema vividos na cidade basca, ainda não mencionados em textos anteriores.

Começamos pelos prémio ‘Donostia’, a distinção de carreira do festival que, desde 1986, vem distinguindo figuras incontornáveis da cultura e da indústria cinematográficas como, e só para citar alguns,  Gregory Peck, Bette Davis, Lauren Bacall, Robert Mitchum, Al Pacino, Woody Allen, Robert de Niro, Liv Ullman, Agnès Varda ou Sigourney Weaver (que este ano emprestou o seu rosto ao cartaz oficial do certame).

Desta feita os homenageados foram:

  • na cerimónia de inauguração, a actriz francesa Marion Cotillard. Com uma vasta carreira repartida entre a Europa e os Estados Unidos, Marion Cotillard obteve o ‘Oscar’ e o ‘Globo de Ouro’ com a sua interpretação de Edith Piaf em “La Môme / La Vie en Rose” (Olivier Dahan, 2007). O seu talento e versatilidade (é capaz de brilhar em papéis dramáticos, cómicos ou de acção) levaram-na a trabalhar, entre muitos outros, com realizadores como Michael Mann, Christopher Nolan, Woody Allen, Steven Soderbergh, James Gray, Tim Burton, Abel Ferrara, Arnaud Desplechin, Nicole Garcia, Leos Carax, Guillaume Canet ou os irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne. Firme defensora da preservação do meio ambiente, a actriz é também co-produtora de “Bigger Than Us”, um documentário de Flore Vasseur. O filme, que esteve presente no Festival de Cannes, e que dá voz  à juventude comprometida que, um pouco por todo o mundo, luta pelos direitos humanos, pelo clima, pela liberdade de expressão, pela justiça social ou pelo acesso à educação e à comida foi agora exibido em San Sebastián no âmbito da homenagem a Marion Cotillard.
  • na passada quarta-feira, o actor norte-americano Johnny Depp, três vezes nomeado para o ‘Oscar ‘ e dez para os ‘Globos de Ouro’ (obteve um com ‘O Terrível Barbeiro de Fleet Street‘). O intérprete de “Pesadelo em Elm Street” ,  “Gilbert Grape” , “Eduardo Mão-de Tesoura”, “Homem Morto ou “O Pirata das Caraíbas’ deslocou-se pela terceira vez a San Sebastián. Esteve presente na edição do ano passado acompanhando a exibição de “Crock of Gold: A Few Rounds with Shane MacGowan”. A atribuição do Prémio ‘Donostia’ a Johnny Depp foi entretanto condenada  pela Associação Espanhola de Mulheres Cineastas e de Meios Audiovisuais já que o actor tem vindo a enfrentar uma acusação de violência doméstica.

Paolo Sorrentino deu uma “aula magistral” e mostrou “A Mão de Deus”

Poucos dias após a conquista do Grande Prémio do Júri do Festival de Veneza, Paolo Sorrentino mostrou em San Sebastián “È stata la mano di dio” (A Mão de Deus) um filme autobiográfico em que o autor relata o momento trágico da morte dos pais quando ele tinha apenas 16 anos e como Diego Maradona, ao tempo jogador do Nápoles, “salvou a sua vida”.

O realizador e argumentista napolitano, um dos nomes mais prestigiados do cinema italiano dos nossos dias – recorde-se que, para além de muitos outros prémios, conquistou em 2014 o ‘Oscar’ para o melhor filme estrangeiro com”A Grande Beleza” – , deslocou-se ao certame basco para dar uma “aula magistral”.

 

Destaque para o cinema coreano dos anos 50/60

Inicialmente programado para o ano passado, e adiado devido à pandemia, foi disponibilizado nesta edição do festival o ciclo ‘Flores en el infierno. La edad de oro del cine coreano’. Organizado em colaboração com as Filmotecas Espanhola e Basca e com o Centro Cultural Coreano em Espanha, a retrospectiva incluiu dez títulos produzidos nos anos 50 e 60 do século passado.

 

Se é certo que a partir dos anos 90 o cinema da Coreia do Sul passou a ter grande notoriedade e a ser uma presença constante nos ecrãs e festivais do ocidente, a história do cinema daquele país é praticamente desconhecida na Europa. O objectivo deste ciclo é, exactamente, resgatar a memória do cinema  de uma época de crise económica no período  pós-guerra da Coreia. Um cinema popular, dirigido ao grande público, em alguns casos inspirado no cinema americano (como o ‘western manchú’, filmes de aventuras ambientadas na Manchúria e inspiradas  no ‘western ‘), mas noutros fazendo a denúncia das más condições de vida da época, apesar de ser feito sob um regime ditatorial. Um cinema que permitiu a afirmação de um conjunto de realizadores e que esteve na base da criação de uma indústria cinematográfica que fez do cinema coreano aquilo que ele é actualmente.

Entre os títulos exibidos  encontram-se “Hanyeo” /The Housemaid(1960) de Kim Ki-young, considerada uma das obras-primas do cinema sul-coreano, representantes de um “neo-realismo” coreano como ”Ji-okhwa” / The Flower in Hell”(1958) e “Obaltan” / Aimless Bullet (1961), ou clássicos do melodrama como “Gwiro” /Homebound (1967) “Angae” /Mist (1967)  e “Hyu-il” /A Day Off (1968). Também  presente na mostra o ‘filme negro’, o ‘filme juvenil’ e o ‘western’.

Made in Spain

Esta é uma secção não competitiva que integra uma seleção de filmes espanhóis produzidos no último ano. O Festival cumpriu assim, e como faz todos os anos, o papel de difusor internacional do cinema do seu país.

Foram oito os filmes exibidos:

  • “Ama” de Júlia de Paz;
  • “Buñuel, Un cineasta Surrealista” de Javier Espada;
  • “Destello Bravio” de Ainhoa Rodríguez;
  • “El Año del Descubrimiento” de Luiz López Carrasco;
  • “El Ventre del Mar” de Agustí Villaronga;
  • “Hombre Muerto No Sabe Vivir” de Ezekiel Montes;
  • “Sedimentos” de Adrián Silvestre; e
  • “Un Blues para Teherán” de Javier Tolentino.

 

Klasikoak – Cinema Clássico 

Desde 2018 o Festival de San Sebastián tem vindo a dedicar um pequeno espaço à exibição de filmes marcantes, realizados em anos já longínquos, e que podem ser já considerados como “clássicos”.

“Klasikoak” é o nome basco desta ciclo que nesta edição foi constituído pelos seguintes filmes:

  • “Ça commence aujourd’hui” (1999) de Bertrand Tavernier, Prémio do Público em San Sebastián;
  • “Esa Pareja Feliz” (1951) de Luis Garcia Berlanga e Juan Antonio Bardem;
  • “La Muerte y el Leñador” (1962) de Luis Garcia Berlanga;
  • “Manicomio” (1954) de Fernando Fernán-Gómez e Luis María Delgado;
  • “The Outsiders: The Complete Novel” (1983) de Francis Ford Coppola; e
  • “Rain People” (1969) de Francis Ford Coppola

A secção evocou este ano o centenário do nascimento de Berlanga e a morte, no passado mês de Março, de Bertrand Tavernier, grande figura do cinema francês com fortíssimas ligações a esta mostra basca.

 

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