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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

Prémios Donostia para Penélope Cruz, Costa-Gavras e Donald Sutherland

José M. Bastos
Crítico de cinema

67º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián

A edição do Festival de San Sebastián que hoje termina acrescentou mais três nomes à impressionante lista de figuras do cinema que têm vindo a ser distinguidas, desde 1986, com o Prémio Donostia, o prémio de carreira instituído por este certame basco. Ao longo de mais de trinta anos foram já homenageados quase sete dezenas de grandes intérpretes e realizadores do cinema de todo o mundo.

Penelope Cruz, Costa-Gavras e Donald Sutherland são os nomes que este ano passaram a integrar uma lista de que constam: Gregory Peck (1986), Glenn Ford (1987), Vittorio Gassman (1988), Bette Davis (1989), Claudette Colbert (1990), Anthony Perkins (1991), Lauren Bacall (1992), Robert Mitchum (1993), Lana Turner (1994), Susan Sarandon e Catherine Deneuve (1995), Al Pacino (1996), Michael Douglas, Jeremy Irons e Jeanne Moreau (1997), John Malkovich e Anthony Hopkins (1998), Fernando Fernán-Gómez, Vanessa Redgrave e Anjelica Huston (1999), Michael Caine e Robert de Niro (2000), Julie Andrews, Warren Beatty e Francisco Rabal (2001), Jessica Lange, Bob Hoskins, Dennis Hopper e Francis Ford Coppola (2002), Isabelle Huppert, Sean Penn e Robert Duvall (2003), Woody Allen, Annette Bening e Jeff Bridges (2004), Ben Gazzara e  Willen Dafoe (2005), Max Von Sydow e Matt Dillon (2006), Richard Gere e Liv Ullman (2007), Antonio Banderas e Meryl Streep (2008), Ian McKellen (2009), Julia Roberts (2010) e Glenn Close (2011), John Travolta, Oliver Stone, Ewan McGregor, Tommy Lee Jones e Dustin Hoffman (2012), Carmen Maura e Hugh Jackman (2013), Denzel Washington e Benecio del Toro (2014), Emily Watson (2015), Ethan Hawke e Sigourney Weaver (2016), Ricardo Darín, Agnès Varda e Monica Bellucci (2017), Judi Dench, Hirokazu Koreeda e Danny DeVito (2018).

Penélope Cruz

A mais internacional das actrizes espanholas da actualidade recebeu ontem o  Prémio Donostia no decorrer de uma sessão em que foi exibido “Wasp Network”, co-produção entre Brasil / Espanha / França e Bélgica, filmada este ano nas Canárias pelo francês Oivier Assayas. Penélope Cruz é uma das protagonistas de uma história centrada na aventura de um piloto cubano que, nos anos 90, sai do seu país e se fixa em Miami onde, com outros companheiros, se infiltra num grupo anti-castrista.

Penélope Cruz, em “Wasp Network”

Nascida em Madrid em 1974, Penélope Cruz, que recebeu um ‘Oscar’ pelo seu trabalho em “Vicky, Cristina, Barcelona” de Woody Allen e, antes disso, participou na co-produção luso-espanhola “Belle Époque” de Fernando Trueba e em “Todo sobre mi Madre” de Pedro Almodóvar (ambos vencedores de ‘Oscares’ para o melhor filme estrangeiro), tem uma já longa carreira construída entre Espanha e os Estados Unidos, recheada de sucessos e prémios de interpretação. Assídua presença em San Sebastián desde a sua estreia no mundo do cinema, tem trabalhado com nomes como Almodóvar, Trueba, Bigas Luna, Amenábar, Julio Medem, Agustín Diaz Yanes, Isabel Coixet, Cameron Crowe, Rob Marshall, Woody Allen e Asghar Farhadi, entre outros.

Penélope Cruz foi a segunda actriz (depois de Carmen Maura) e a quinta personalidade espanhola a receber o Prémio Donostia.

Costa-Gavras

Nascido na Grécia em 1933, aos 22 anos partiu para Paris para estudar na Sorbonne e mais tarde no famoso IDHEC – Instituto de Altos Estudos Cinematográficos.

Assistente de realização de cineastas como  René Clair, René Clement, Henri Verneuil, Jacques Demy, Marcel Ophüls, Jean Giono e Jean Becker.

Em 1965 iniciou com “Compartiment tueurs”  uma carreira de realizador de filmes de forte conteúdo político.

“Z – A Orgia do Poder” (1969)

“Adults in the room” (2019)

Com “Z- A Orgia do Poder”, filme de 1969 que passou com grande sucesso em Portugal (obviamente só depois de Abril de 1974), ganhou dois “Oscares”, dois prémios em Cannes e vários galardões um pouco por todo o mundo. Em “Z” a música de Mikis Theodorákis sublinha a história real de um assassinato político interpretada por nomes como Yves Montand, Jean-Louis Trintignant e Irene Pappas.

Em 1972 realizou no Chile “Estado de Sítio”, novamente com a música de Theodorákis e ainterpretação de Yves Montand, que conta o sequestro no Uruguai do agente americano Dan Mitrione e do cônsul brasileiro Aloysio Gomide pelos Tupamaros, em 1970.

Entre os seus mais de 20 filmes realizados ora em França ora nos Estados Unidos, encontrámos por exemplo “Missing- O Desaparecido” de 1982, a história de um jovem escritor e jornalista norte-americano que vivendo no Chile durante o governo de Allende foi detido pelos golpistas de Pinochet pra não aparecer nunca mais.  “Oscar” para o melhor argumento adaptado. “Missing” conquistou ainda, em Cannes, a ‘Palma de Ouro’ e o prémio para o melhor actor, Jack Lemmon.

Nos anos mais recentes, e apesar da sua provecta idade, Costa-Gavras  para além de ser desde 2007 presidente da Cinemateca Francesa, tem vindo a somar títulos de um cinema de grande comprometimento político. O silêncio dos altos dignitários da igreja perante o extermínio  dos judeus nos campos nazis, a vida dos imigrantes ilegais nos Estados Unidos,  ou a corrupção nos altos comandos do sistema capitalista são tema de filmes como “Amen.” (2002),  “Paraíso a Oeste “ (2009) ou “O Capital” (2012).

Em 2018 publicou a sua autobiografia, “Va où il est impossible d’aller” (Vai onde é impossível ir).

O Prémio Donostia foi entregue a Costa-Gavras no passado sábado, 21 de Setembro, numa sessão em que foi exibido o seu filme mais recente: “Adults in the room”, adaptação ao cinema de um texto do ex-ministro grego Yanis Varoufakis, abordagem das reuniões do Eurogrupo e outras instâncias financeiras que levaram à imposição aos gregos da ditadura da austeridade. Um assunto que, afinal, não nos é muito estranho.

Donald Sutherland

Este actor de teatro e cinema nasceu no Canadá em 1935.  Dotado de uma extraordinária versatilidade tem uma filmografia de mais de 150 filmes.

Citemos apenas alguns:

“Doze Indomáveis Patifes”, de Robert Aldrich; “M.A.S.H.”, de Robert Altman; “E deram-lhe uma espingarda”, de Dalton Trumbo, “Gente Vulgar”, de Robert Redford; “1900”, de Bernardo Bertolucci, “Aquele Inverno em Veneza”, de Nicolas Roeg com Julie Christie; “Klute” , de Alan J. Pakula com Jane Fonda; “Il Casanova di Federico Fellini”, “JFK” de Oliver Stone,   “Cold Mountain” de Anthony Minghella ou “Orgulho e Preconceito” de Joe Wright.

“1900” de Bernardo Bertolucci

“Ella e John” de Paolo Virzi

Recentemente  Donald Sutherland interpretou a figura de J. Paul Getty na série “Trust”, realizada por  Danny Boyle, e trabalhou com Helen Mirren em “Ella e John” de Paolo Virzi depois de em 2015 ter actuado ao lado do filho, Kiefer Sutherland,  no ‘western’ canadiano “Forsaken”.

A  Academia de Hollywwod entregou-lhe um ‘Oscar Honorífico’ em 2017 em reconhecimento pelo conjunto da sua obra.

Na passada quinta-feira, 26 de Setembro, Donald Sutherland recebeu o ‘Prémio Donostia’. À cerimónia de entrega do galardão seguiu-se a projecção de  “The Burnt Orange Heresy” produção norte-americana dirigida pelo italiano Giuseppe Capotondi, exibida no recente Festival de Veneza.

 

Retrospectiva clássica: Roberto Gavaldón

A retrospectiva clássica da edição deste ano é constituída por duas dezenas de filmes de um realizador mexicano muito pouco conhecido em Portugal.

Roberto Gavaldón (1909-1986) é considerado um dos cineastas mais importantes do cinema mexicano das décadas de 50 e 60. Tendo começado a sua actividade no cinema como figurante, actor, assistente de realização e guionista estreou-se como realizador em 1945 com “La Barraca”, adaptação de um romance de Vicente Blasco Ibáñez. Na equipa de realização deste filme trabalharam vários  técnicos espanhóis que se tinham exilado no México depois da Guerra Civil de Espanha.

Autor de um cinema sóbrio, clássico e realista Gavaldón enveredou pela criação de inúmeros melodramas (apesar de algumas incursões no policial, no musical e no western)  tendo contado com a colaboração de directores de fotografia como Gabriel Figueroa, Alex Phillips e Jack Draper.

O estilo e a temática dos seus trabalhos, considerado pela crítica mais jovem como demasiado ligados a um cinema de carácter nacional, fizeram com que a sua obra só tardiamente fosse reconhecida de forma mais generalizada.

Entre os seus títulos mais importantes conta-se “Macario” (1960), que participou no  Festival de Cannes e foi o primeiro filme mexicano nomeado para o  Oscar de melhor filme estrangeiro. O seu protagonista, Ignacio López Tarso (um dos actores de “Nazarín” de Buñuel), era uma das estrelas do cinema mexicano daquela época. Gavaldón trabalhou também com outros grandes intérpretes mexicanois , como María Félix, Dolores del Río, Arturo de Córdova e Pedro Armendáriz, e com a estrela argentina do melodrama Libertad Lamarque.

Durante anos Gavaldón foi o maior do cinema mexicano nos grandes festivais internacionais: Cannes, Veneza e Berlim. Competiu na primeira edição do Festival de San Sebastián, em 1953, com “Acuérdate de vivir”.

Após ter tido colaboração com Gabriel Garcia Marquez e Carlos Fuentes realizou treze filmes em Espanha.

Como habitualmente, este ciclo monográfico foi acompanhado pela disponibilização de um catálogo editado pela Filmoteca Espanhola e pelo Festival de San Sebastián

 


 

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