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João de Sousa

Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Presidenciais Colombianas: Análise à Segunda Volta

João do Vale de Sousa
Doutorando em História, Estudos de Segurança e Defesa num programa conjunto ISCTE-IUL/Academia Militar

Os colombianos foram este domingo às urnas para elegerem o próximo Presidente. O novo Chefe de Estado e de Governo substituirá o actual incumbente, Juan Manuel Santos, a partir do início de Agosto e até 2022. Este é o primeiro Presidente eleito após a assinatura do marcante Acordo de Paz (AP) com a guerrilha das FARC-EP.Os candidatos pelo Centro Democrático (direita) Iván Duque e Marta Lucía Ramírez foram eleitos para ocuparem a presidência e a vice-presidência, respectivamente, tendo vencido o par Gustavo Petro e Ángela María Robledo, pela Colombia Humana (esquerda). Este desfecho confirmou as sondagens e já vinha sendo previsto desde a primeira volta, realizada a 27 de Maio.

O agora eleito Presidente não pode concorrer à reeleição em 2022, isto é, irá cumprir um único mandato. O par derrotado irá para o Congresso. O candidato presidencial, para o Senado, a candidata à vice-presidência, para a Câmara dos Representantes, ambos por um período único de quatro anos.

Votaram 53% dos quase 37 milhões de colombianos que estavam habilitados a fazê-lo, um pouco menos do que na primeira volta. Os votos brancos foram 4,2%. O par de aspirantes da direita obteve mais de 10 milhões e 250 mil votos, correspondentes a 54%. Os candidatos da esquerda amealharam 8 milhões de votos (42%). Apesar de derrotado, Petro venceu em algumas grandes cidades como Bogotá, Cali e Barranquilla, arrebatando a região do Pacifico, perfazendo um total de oito departamentos, como Sucre, Chocó, Cauca e Nariño. Duque conquistou a importante cidade de Medellín e o rico departamento de Antioquia, entre outros. As regiões mais afectadas pela guerra dividiram-se pelos dois aspirantes.

Comparando com a primeira volta, Duque amealhou quase mais 2,75 milhões de votos e passou de 39% para 54%. Por seu lado, Petro teve mais 3,2 milhões de votos e aumentou de 25% para 42%. Ambos cresceram, mas enquanto o Presidente eleito terá conseguido manter o seu eleitorado, somou, muito provavelmente, os votos de Germán Vargas Lleras e ainda foi, certamente, buscar votos ao centro, o candidato da esquerda não foi capaz de ganhar a totalidade dos votos do centro (cerca de cinco milhões), como queria e teria de fazer para vencer.

A título de curiosidade refira-se que em Portugal foi Petro o vencedor com 145 votos e 51,41%, e Duque teve 117 votos e 41,48%. Mas a taxa de participação foi muito pequena, não tendo chegado a 7%, visto só 282 colombianos dos mais de quatro mil e duzentos que vivem entre nós terem exercido o seu direito.

Quanto a vencedores há que começar por destacar a própria Democracia, pela participação no acto eleitoral, fruto certamente da maior segurança proporcionada pelo fim do conflito armado com as FARC-EP, ao qual deve juntar-se o cessar-fogo temporário anunciado pelo Exército de Libertação Nacional (ELN), e a ausência de denúncias em número significativo de possível fraude no processo.

O grande vencedor individual destas eleições é, em primeiro lugar, Iván Duque. Alguém que até ter tido início a corrida presidencial era praticamente desconhecido para a grande maioria dos seus conterrâneos, ter vencido a eleição é um feito digno de nota. De referir que o ex-senador, com 41 anos, será o mais novo presidente de sempre. Isto num país onde mais de 40% da população tem menos de 24 anos. Essa juventude, mas igualmente inexperiência, permitiu-lhe apresentar-se ao eleitorado como alguém imaculado, sem ter estado envolvido em escândalos. Ora, sendo a corrupção uma das maiores preocupações dos nacionais daquele país andino esse aspecto poderá ter sido uma vantagem.

Novidade é a chegada à vice-presidência de uma mulher, Marta Lucía Ramírez, a grande vencedora, que a partir desse cargo coloca-se como a sucessora natural, em 2022, do agora eleito Presidente.

Álvaro Uribe, ex-Presidente e figura tutelar da direita colombiana, é um dos grandes triunfadores. Como já referiu-se, Duque era um desconhecido até que Uribe o fez saltar para a ribalta. Iván Duque é aquele que o ex-Presidente escolheu e apoiou, é “el que diga Uribe” como diziam os apoiantes do agora senador. Sem esta selecção nunca o agora Presidente eleito teria sido concorrente, quanto mais vitorioso. O apoio de Uribe foi absolutamente determinante para a eleição de Duque. Como escreve a revista Semana: «Con el triunfo de Duque se reafirma que el fenómeno electoral de los últimos 30 años en Colombia se llama Álvaro Uribe Vélez.». O Uribismo regressa assim ao poder, o que desperta fortes reacções negativas nos restantes grupos políticos.

Os sectores mais conservadores, no plano político, social e religioso, e que pugnam pela manutenção do status quo, também saíram vitoriosos. Na área económica, os grandes empresários ficaram igualmente satisfeitos com a conquista da presidência pelo candidato do Centro Democrático. Eles temiam que a vitória de um esquerdista, o que seria inédito na Colômbia, pudesse levar a uma degradação do ambiente de confiança necessário à prossecução dos negócios, afastando os investidores internacionais. Os grandes proprietários rurais ficaram igualmente satisfeitos, visto o aspirante da Colombia Humana pretender efectuar reformas que os poderiam prejudicar.

Numas eleições marcadas pela polarização, importa referir que o medo, infelizmente, venceu igualmente. Venceu o medo da mudança, de arriscar em algo de diferente do habitual, em termos políticos. O receio que os colombianos tiveram em que o seu país transformasse-se numa outra Venezuela, terá tido uma quota parte importante na eleição do candidato do Centro Democrático. Foi a vitória do medo do ‘Castrochavismo’, como os apoiantes do Presidente eleito chamam à ideologia de Gustavo Petro.

O ex-presidente de Bogotá acaba por ser derrotado, é certo, mas não é totalmente perdedor — veja-se a sua primeira reacção ao anúncio que tinha sido vencido («Cuál derrota»). Já perspectivando as eleições de 2022, Gustavo Petro, com os seus 8 milhões de votos e, principalmente, como senador, está numa posição privilegiada para assumir-se, não só como o líder da oposição, como anunciou no discurso da aceitação da derrota, como, desde já, o principal candidato do centro e da esquerda a suceder ao recém eleito Presidente.

As forças mais progressivas também foram derrotadas. Mas pelas mesmas razões de Petro, acaba por não ser uma derrota total, pois têm que ser levadas em conta. A votação significativa alcançada pelo candidato da Colombia Humana tem que ser avaliada pelo novo Presidente, sob pena de ir contra um número significativo dos seus compatriotas.

Nestas eleições os grandes vencidos são os ex-candidatos mais ao centro, Sergio Fajardo e Humberto de la Calle. Depois de algumas hesitações após a primeira volta, apelaram ao voto em branco, apostando numa fórmula “Ni, ni” (nem Duque, nem Petro), não conseguindo que este tivesse tido expressão. Apesar de irem ter um governo ao qual ser-lhes-á mais fácil fazer oposição, pois as divergências ideológicas são claras, terão que contar com a situação favorável no Senado do agora candidato derrotado.

Perdedor, identicamente, o ainda Presidente Juan Manuel Santos. Não foi capaz de criar um sucessor, não tendo sequer envolvido-se na campanha, viu o partido que ajudou a fundar (Partido de la U) apoiar um candidato derrotado na primeira volta (Germán Vargas Lleras), e vê o seu maior triunfo, o AP, que valeu-lhe o Prémio Nobel da Paz, em 2016, em risco, devido às alterações que Duque prometeu que iria fazer-lhe.

Uma palavra para a FARC, o partido político da ex-guerrilha marxista, que deve ser incluída no lote dos vencidos. Após uma votação residual nas Legislativas de Março, não conseguiu apresentar um candidato presidencial — é certo que por problemas de saúde de Rodrigo Londoño, alias Timochenko, o seu líder. Não apoiou ninguém em nenhum dos escrutínios e acabou por assistir à eleição do pretendente que mais afasta-se de si ideologicamente e, acima de tudo, aquele que quer rever profundamente os termos do AP. Com o intuito de dialogar sobre esse tema já solicitaram-lhe um encontro.

Num país que mostrou-se profundamente dividido — algo a que o Presidente eleito foi muito sensível no seu discurso de vitória, ao ponto de ter começado por esse tema — oxalá Iván Duque esteja à altura da confiança que os seus compatriotas depositaram nele, pois os desafios que aguardam aquela terra da América do Sul são de monta.

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