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João de Sousa

Terça-feira, Janeiro 31, 2023

PS O que fazer da vitória?

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

O resultado acabou por ultrapassar a previsão das sondagens e  confirmar o que me parecia mais indicado: condenar os autores do despropositado bota-abaixo e assinalar que nada de essencial justificava interromper a legislatura para passarmos muitos meses em procedimentos pré e pós eleitorais.

Eleições antecipadas e crises políticas têm de se explicar de forma clara, não se podem tornar situações banais e recorrentes. Para além disso, fica por perceber como é possível que os dirigentes do BE e do PCP não tivessem entendido o que era óbvio para qualquer observador: eleições antecipadas no momento e na circunstância só poderiam resultar na substituição dos velhos partidos da esquerda pelos novos da direita, sendo que a única questão em aberto era saber se Costa ganharia ou não a Rio.

A argumentação pública dos dirigentes do BE de que se trataria de uma conspiração socialista é absolutamente surrealista e só se pode entender como confissão de hara-kiri, por que só com o voto deles é que se deram as eleições antecipadas e que a tal conspiração foi possível. Que o PCP tenha embarcado nesta desastrosa trajectória é talvez um pouco mais surpreendente, por que se esperava outro tino dos seus dirigentes.

Não poderemos tão pouco esquecer o papel negativo desempenhado pelo senhor Presidente da República, personagem central na queda do Governo, que parece obcecado pelo protagonismo sem que pareça muito incomodado com os estragos causados por ele.

Foi patético vê-lo no dia de reflexão fazer mal dissimulada campanha contra o Governo clamando que os milhões prometidos eram como chover nas areias do deserto, quando quem quer que conheça o deserto sabe os milagres que a chuva é capaz de neles fazer. Se me pareceu não só legítimo mas natural que Rui Moreira apoiasse a Iniciativa Liberal em período de campanha, pareceu-me muito menos natural e legítimo que o senhor Presidente da República sugerisse ser essa também a sua opção no dia de reflexão.

Rui Rio foi claramente derrotado, dando assim o único prémio de consolação à tralha cavaquista e ao Presidente da República, que conseguiram assim o que antes não tinham alcançado.

Os últimos dias de campanha poderão ter sido fatais para as suas aspirações ao deixar-se envolver em cálculos triunfalistas sobre pastas governativas e ao usar linguagem mais próxima do que se esperaria de um candidato do Chega do que de um candidato credível a Primeiro-Ministro.

Os novos partidos da direita, a Iniciativa Liberal e o Chega, são os vencedores e eles irão ser determinantes na recomposição política da direita.

Posto isto, a vitória de Costa não lhe dá margem para ver a sua maioria absoluta como segura. Recorde-se que o Governo de António Guterres saído das eleições de 1999 – com metade dos deputados na Assembleia – acabou num desastroso pântano, e que a maioria absoluta de Sócrates deu azo a todas as derrapagens.

A presença prolongada do PS no poder favorece todos os vícios típicos dessas situações: nepotismos, carreirismos e conflitos de interesse. Os últimos tempos mostraram que quem se apresenta na rampa de sucessão não oferece confiança, sendo que há que conseguir conter quem quer destruir o PS por dentro, como a Dra. Ana Gomes.

Mesmo com maioria absoluta, António Costa vai ter de fazer mais e melhor para chegar ao fim da legislatura. Para que o PS possa enfrentar os próximos desafios eleitorais em condições vai ter de evitar os escolhos e preparar-se para desafios mais profundos.

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