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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Que mudanças no tabuleiro iraniano?

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Como nos lembra Struan Stevenson (que partilhou comigo a liderança do intergrupo ‘Amigos de um Irão Livre’ no Parlamento Europeu), quando o padrinho da mafia Sam Giancana foi eliminado em 1975, o sindicato do crime de Chicago fê-lo rapidamente substituir por Tony Accardo, cujo currículo criminal não lhe ficava atrás.

O ataque norte-americano do princípio do ano liquidou os dois principais líderes terroristas do Irão e do Iraque juntamente com vários outros altos responsáveis do Corpo de Guardas Revolucionários Islâmicos (IRGC no acrónimo em inglês).

De acordo com uma das principais agências de informação do Médio Oriente, al-Muhandis, líder iraquiano, foi rapidamente substituído por Hadi al-Amiri, o mais antigo e a meu ver, mais sinistro líder iraquiano do IRGC.

Entretanto, o sucessor formal de Soleimani, Esmail Ghaani, de acordo com a mesma fonte, não fala árabe pelo que tem estado limitado às operações no Afeganistão (onde o Dari, pequena variação do Farsi, língua oficial iraniana, é a principal língua franca) bem como à gestão das operações no Paquistão.

Assim sendo, Nasrallah, o líder da facção libanesa, e o mais sénior da rede do IRGC, terá sido incumbido da tarefa de conseguir a aceitação de al-Amiri pelas outras facções armadas iraquianas próximas de Teerão, assumindo agora maiores responsabilidades no controlo do regime de Al-Assad na Síria.

A imprensa internacional sugere que a eliminação de Soleimani deu o ensejo a Putin para avançar as posições relativas da Rússia perante o Irão na Síria, e que assim se deveria interpretar a viagem inesperada de Putin à Síria. Creio que a presença de Putin serviu mais para assegurar Assad que ele continuaria a ser apoiado pela Rússia, mesmo se a presença iraniana entrasse em crise, o que, ao que tudo indica, está a acontecer.

Não creio que isso possa ser visto como um trunfo para Putin, que sabe que a guerra que leva a cabo na Síria é impopular junto da população russa. Alguns dias depois do encontro, fontes de informação síria davam conta da morte de quatro soldados russos – entre muitas vítimas, nas quais, curiosamente, não se contavam guardas revolucionários.

Creio que esta é uma análise típica da imprensa ‘mainstream’, ou seja, desprovida de sentido analítico e com mero sentido de propaganda anti-Trump, e que por isso, só por acaso acerta.

Por esclarecer fica a cadeia de comando noutro cenário importante de guerra, o do ‘Ansar Allah’ iemenita que procura restabelecer o ‘Imanato Zaidi’ que até 1962 – e com interrupções, há quase um milénio – dirigiu uma zona importante do Noroeste do Iémen (compreendendo pequenas partes que ficam em território saudita).

Trata-se de uma seita ultra-fanática que procura recuperar o poder que perdeu com a revolução progressista de 1962 e que está agora inteiramente integrada na máquina de guerra iraniana sendo responsável por uma guerra civil na qual tem utilizado a arma da fome para matar e subjugar os iemenitas.

A escalada armada do IRGC em 2019 foi bem-sucedida. Manteve a pressão sobre Israel através das milícias clientes que controlam Gaza que recorreram a vários bombardeamentos com mísseis. Realizou operações de sabotagem de petroleiros, abateu aviões norte-americanos não tripulados, aprisionou um petroleiro britânico e bombardeou uma refinaria saudita, a maior do mundo, de forma bem doseada de forma a não obrigar a retaliação e a convidar a recuos dos seus adversários. E com efeito a Arábia Saudita, os Emiratos, o Reino Unido e os EUA cederam e recuaram nas posições que tinham tomado perante o regime.

No final do ano, o IRGC iraquiano realizou um pequeno ataque com mísseis sobre uma base americana no Iraque, que causou uma vítima civil de nacionalidade norte-americana.

Foi o primeiro grande erro de cálculo de Soleimani. Desta vez, Trump respondeu e procedeu ao bombardeamento de cinco bases do IRGC no Iraque e na Síria. Soleimani achou que poderia subir a parada e, tentando desfazer a imagem dos iraquianos que apenas assaltavam embaixadas e consulados iranianos, resolveu assaltar a Embaixada dos EUA em Bagdade no último dia do ano. Como sabemos, foi o seu último grande erro de avaliação.

A Rússia e a China acham excelente que o Irão torne impossível a projecção externa dos EUA, mas não querem arriscar uma guerra para salvar a teocracia. Os grupos jihadistas clientes externos ao IRGC – como a Al-Qaeda, o Hamas ou a Jihad Islâmica – manifestaram a sua fidelidade ao regime iraniano. A irmandade muçulmana mostrou-se mais comedida, na medida em que receia por uma lado que se o mundo derrubar o Jihadismo iraniano se sinta mais à vontade para a enfrentar, mas por outro, tem com o Irão uma rivalidade óbvia.

Mas difícil de interpretar é a dissidência da Al-Qaeda conhecida como Estado Islâmico que se tem mostrado capaz de seguir o caminho que ela mesmo pretende, actuando por vezes de acordo com o Irão ou a Turquia mas parecendo ser animada por uma estratégia própria, sendo que está por saber como vai evoluir nesta era post-Baghdadi.

Aqui, o que poderemos ter a certeza é que grupos terroristas deste tipo só se tornam geopoliticamente significativos quando são impulsionados por Estados, de outra forma, são naturalmente significativos mas não determinantes.

No xadrez iraniano as maiores incógnitas são agora as internas. Soleimani era apontado como o sucessor natural de Rouhani, como número dois do regime. A sua substituição parece difícil sendo que pela primeira vez há quem na imprensa internacional julgue provável a queda do regime em 2020 após as repetidas manifestações maciças contra o regime clerical.

A contestação popular ao regime e a sua incompetência – que teve o seu ponto alto no abate do avião ucraniano – tornam-se cada vez mais óbvios à medida que o tempo passa.

Os principais actores do regime são anacrónicos religiosos da geração de Khameini que no meio do ódio que vociferam são fundamentalmente burlescos.

Seria um erro no entanto partir do princípio que esta velha raposa que tantas vezes sobreviveu a situações semelhantes a esta não se vai conseguir recompor.

Tudo está ainda por decidir no tabuleiro deste jogo iraniano que convém seguir com a maior atenção.


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