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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Reestruturação da dívida da Argentina

Ana Prestes, São Paulo
Socióloga. Cientista política. Mestre e doutora em Ciência Política (UFMG). Atualmente está em fase de pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos Brasileiros (USP) e de doutorado no programa de pós-graduação em História na UnB. É analista internacional. Professora voluntária do Decanato de Extensão da UnB. Trabalha na Câmara dos Deputados e é pesquisadora da história da participação política das mulheres no Brasil.

A renegociação da dívida pública argentina, as tensões entre China e EUA, o decreto de prisão do ex-presidente da Colômbia e os efeitos ainda muito intensos da explosão no porto de Beirute estão entre os temas abordados por Ana Prestes em sua análise da conjuntura internacional.

Uma notícia importante dessa semana é a do anúncio pela Argentina da reestruturação de sua dívida. Segundo o governo argentino, depois de vários meses de negociação e três fracassos iniciais, foi alcançado um acordo com os três principais grupos de credores privados do país. Trata-se de um montante devedor de 66 bilhões de dólares. A Argentina está em recessão econômica desde 2018 e em default (suspensão dos pagamentos da dívida) desde 22 de maio. Essa é apenas uma parte da dívida argentina. Há ainda um montante de 44 bilhões (tomados emprestados em 2018) a serem negociados com o FMI. No total, a dívida pública argentina passa dos 320 bilhões de dólares, quase 90% de seu PIB.

Segundo os críticos do acordo, como o economista Julio Gambina, o acordo assegura previsibilidade ao sistema financeiro e aos setores econômicos hegemônicos. Além disso, desarticula a possibilidade de uma auditoria da dívida e por isso o acordo é comemorado pela oposição e pelos organismos externos como o FMI. Outro fator que está na mesa tem a ver com as reformas que terão que ser feitas para garantir o pagamento da dívida, pois mesmo que os pagamentos tenham sido postergados, eles não foram anulados. Há preocupação de que os setores sociais e populares sejam as maiores vítimas das reformas, embora o presidente Fernández tenha conduzido à presidência com um forte tom antineoliberal. Segundo Fernández, com o acordo, a Argentina “recuperou autonomia de decisão e definição do país que queremos”.

 

Brasil membro fundador do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura

O Senado brasileiro aprovou (6) o texto do acordo que torna o Brasil membro fundador do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII). Agora vai para a promulgação pela Presidência da República. O acordo foi assinado em 2015. O Banco tem sede em Pequim, na China, e iniciou suas atividades em 2016. Além do Brasil, outros 56 países se encontram na mesma condição de membros fundadores, muitos em fase de ratificação ainda. O Banco já financia 63 grandes projetos de infraestrutura ao redor do mundo. O primeiro aporte brasileiro ao banco deveria ser de 3,18 bilhões de dólares, mas o governo brasileiro anunciou que só vai participar inicialmente com 5 milhões de dólares. O país que até agora havia anunciado o menor aporte era Malta, com 172 milhões. Segundo o senador Jean Paul Prates (PT-RN), que fez o relatório favorável à aprovação do acordo, a drástica redução da participação brasileira “pode, no longo prazo, causar mais prejuízos ao Brasil do que a economia feita no curto prazo”.

 

EUA: ataques à China

Em sua crescente escalada de ataques à China, os EUA promoverão o encontro diplomático de mais alto nível com a província chinesa de Taiwan em 40 anos e a primeira visita de um ministro de Estado americano desde 2014. Tsai Ing-wen – que se apresenta como presidente de Taiwan – receberá o ministro de saúde dos EUA, Alex Azar. A visita já seria provocadora em qualquer circunstância e ficou ainda mais pela escolha do tema. EUA e Taiwan, com o encontro, engrossam a narrativa de que o mundo é vítima de um vírus chinês. Segundo o ministro da saúde americano, ele espera com a visita “transmitir o apoio do presidente Trump à liderança global em saúde de Taiwan e enfatizar nossa crença compartilhada de que sociedades livres e democráticas são o melhor modelo para proteger e promover a saúde”.

 

Navios pesqueiros chineses das ilhas Galápagos

Uma situação que não havia comentado ainda aqui no De Olho no Mundo, foi a do alarme soado pelo Equador quanto à proximidade de navios pesqueiros chineses das ilhas Galápagos. O presidente Lenin Moreno tentou fazer disso uma grande questão e chegou a dizer que se tratava de uma invasão chinesa, com 260 embarcações, à região das ilhas que fazem parte do território de soberania equatoriana e de sua zona econômica exclusiva. O Equador formalizou a reclamação com autoridades chinesas e o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, não demorou muito para declarar apoio a Moreno na questão. A chancelaria chinesa respondeu as declarações de Pompeo dizendo que “gostaria de lembrar às autoridades americanas que seu país não ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e, portanto, não está credenciado para fazer críticas injustificadas”. O incidente se deu no final de julho.  No dia de ontem (5), a China anunciou uma proibição de pesca para suas embarcações na região de Galápagos e que as diferenças com o Equador foram sanadas. As ilhas Galápagos são um santuário ambiental de cerca de 40 mil km2 de extensão.

 

Álvaro Uribe, prisão domiciliar e infecção pelo novo coronavírus

O ex-presidente colombiano, Álvaro Uribe, teve sua prisão domiciliar decretada pela Suprema Corte da Colômbia na terça-feira (4) e ontem recebeu diagnóstico de infecção pelo novo coronavírus. Uribe é investigado por manipulação de testemunhas quando já era Senador em 2012 e pode ser condenado por prática de suborno e fraude processual com até 8 anos de prisão. Mas na verdade, Uribe carrega um histórico de muitos danos à Colômbia e em especial à paz no país. Hoje Senador, ele governou como presidente entre 2002 e 2010 e sua relação com os paramilitares é notória e sabida. Ele foi também o fundador do partido Centro Democrático e mentor do atual presidente Iván Duque, do mesmo partido. Duque se pronunciou sobre a prisão dizendo que “sempre acreditará na inocência de Álvaro Uribe” e que “sua honorabilidade está em todo o seu comportamento”. Existe hoje na Colômbia um verdadeiro uribismo como corrente política da direita radical e que foi uma das maiores detratoras dos acordos de paz com as FARC alcançados pelo presidente Juan Manuel Santos, que sucedeu a Uribe na Presidência e antecedeu Duque.

 

Twitter e Facebook apagam conteúdo de Trump

Trump já havia tido conteúdo apagado pelo Twitter e agora foi a vez do Facebook que pela primeira vez apagou uma publicação do presidente americano. Segundo a rede social, o presidente violou sua política de fake news sobre a Covid-19. Na postagem, havia um trecho de uma entrevista de Trump à Fox News em que ele dizia que as crianças são quase imunes ao novo coronavírus. O YouTube também retirou o vídeo da conta do presidente. E o Twitter retirou o mesmo vídeo da conta da campanha de Trump na plataforma.

 

Incêndio de grandes proporções em Ajmã

O emirado de Ajmã, nos Emirados Árabes Unidos, registrou ontem (5) um incêndio de grandes proporções e cujas imagens assustaram o mundo. O fogo começou no fim da tarde, por volta das seis horas e se deu em um mercado desativado há seis meses. Nas proximidades fica um hospital que precisou ser evacuado. Não houve vítimas e a causa ainda não foi identificada. O incidente assustou por se dar no Oriente Médio e no mesmo horário, ao final da tarde, dois dias após a grande explosão do porto de Beirute no Líbano.

 

Atualização do número de vítimas da explosão em Beirute

O governo libanês atualizou o número de vítimas da explosão na região portuária de Beirute da última terça (4) para 137. O número de feridos subiu para a casa dos 5 mil. Dezenas ainda estão desaparecidas. Os desabrigados estão em torno de 300 mil. O país carece de leitos hospitalares e equipamentos médicos para dar conta de todos os feridos. O presidente francês, Emmanuel Macron viajou ao país com equipes de resgate e suprimentos e esteve hoje no local da explosão. Já a ajuda oferecida por Israel foi recebida com silêncio e distanciamento. Os dois países são considerados inimigos e não possuem relações diplomáticas.

O embaixador do Líbano no Brasil, Joseph Sayah, disse que seu país precisa de insumos hospitalares, alimentos e materiais de construção. Ainda segundo o embaixador, o Líbano importa cerca de 80% de suas necessidades e o porto destruído era um local de armazenamento desses bens trazidos de fora. Está em negociação o envio pelo governo brasileiro de 20 toneladas de suprimentos. Por conta da crise econômica que já vivia antes da explosão, o Líbano convive agora com o temor do desabastecimento. Grande parte dos grãos que abastecem todo o país estavam ali. A maior parte do trigo, por exemplo, vem da Rússia e da Ucrânia.

 

Cerimônia em Hiroshima

Por conta da pandemia do novo coronavírus, este ano o Japão não realizou a cerimônia das lanternas flutuantes de Hiroshima que ocorre a cada 6 de agosto em memória às vítimas da bomba atômica. Em 2020 completa-se 75 anos do ocorrido.


por Ana Prestes, Cientista social. Mestre e doutora em Ciência Política pela UFMG   |    Texto original em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

 

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