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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Reflexão sobre o crescimento

Arnaldo Xarim
Economista

Foi com esta imagem que há uns dias O ECONÓMICO deu conta que a desacelaração europeia põe Portugal na cauda do crescimento económico.

É comum dizer-se que uma imagem vale mil palavras e a daquela notícia é forte, mas alguém no jornal parou um pouco para pensar o que estava a dizer, ou simplesmente fez coro com a ideia que o crescimento está ao alcance de todos e é o que de melhor nos pode acontecer?

A que se refere o crescimento por que todos passámos a ansiar? A uma mera medida estatística da evolução do PIB – somatório da produção de bens e serviços numa determinada região e durante um período de tempo fixo – ou a algo mais como o bem-estar das populações (geralmente medido através de indicadores de educação, saúde, segurança, justiça, rendimento e pobreza) a que se convencionou chamar de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)?

Nas economias moldadas pela Revolução Industrial e pela Globalização, que aprenderam a tudo resumir ao valor monetário, a resposta será obviamente que o PIB avalia adequadamente a evolução e o crescimento das economias. Mas será a resposta correcta?

Atente-se a razoável coincidência entre as regiões com baixas taxas de crescimento do PIB (0% a 3%) e as que apresentam melhores indicadores no IHD, para se concluir que a grande preocupação não passará afinal de mais um logro para justificar políticas que assegurem a contínua transferência de rendimento em benefício do capital.

Habitantes dum planeta fisicamente limitado na sua área, na sua superfície arável e com recursos hídricos e minerais igualmente limitados alguém alguma vez se interrogou como poderemos crescer perpetuamente face às limitações referidas?

Claro que desde tempos imemoriais temos ultrapassado algumas das limitações naturais graças à proverbial capacidade inventiva da espécie humana, mas conseguiremos manter um ritmo exponencialmente crescente para esses avanços? Iremos continuar a “inventar” novos meios de produção e novas relações de poder (sempre crescentemente mais eficazes e menos consumidoras de recursos naturais) que sustentem taxas de crescimento como as que nos habituámos a ter?

A resposta pode ser já parcialmente detectada na origem da crise despoletada em 2007/2008. Há várias décadas que as economias ocidentais (as mais desenvolvidas e mais abrangidas pelo processo globalizante) começaram a conviver com as necessidades de crescimento em modo criativo; por outras palavras, esgotadas as vias de crescimento baseadas nos modelos imperial e colonial (recordemos as guerras napoleónicas, no século XIX e a I Guerra Mundial, no século XX) passou-se a um processo neocolonial que culminou com a divisão do Mundo entre dois grandes blocos político-económicos (após mais uma guerra mundial onde o factor dominante foi o acesso às fontes de hidrocarbonetos) para chegarmos à fase em que até já a era digital e a robotização parecem incapazes de sustentar o crescimento, o que levou a uma financiarização desmesurada (um processo semelhante ao duma inflação globalizada) e à crise que atravessamos, cuja paternidade ninguém assume e cuja solução continua obviamente distante.

Por muito que isso custe – e daí o facto de quase nunca se lhe referirem – os principais teóricos e divulgadores da moderna economia neoliberal parecem apostados em manter imagens idílicas ou, no mínimo, tranquilizadoras para o comum dos cidadãos. Não ignorarão a futilidade das suas teorias e das suas afirmações, mas anseiam que as tomem como válidas e adequadas para enfrentarmos os problemas de que nos querem alheados.

Enquanto gastarmos tempo e energias e debater como iremos fazer crescer o PIB de cada economia – quando vivemos num mundo onde os ganhos de uma economia serão os gastos (prejuízos) doutra (lembrem-se a falaciosa ideia salvífica do crescimento das exportações nacionais que afinal não passava de tentar vender mais barato por via da redução dos custos salariais) e as matérias-primas são cada vez mais escassas para as necessidades – em lugar de procurarmos formas de produção social e ambientalmente mais sustentáveis, estaremos apenas a gravar o retrocesso que inexoravelmente se aproxima.

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