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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

É Natal

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

É Natal.

Para mais de um quinto da população mundial, a festa tem um significado profundo que contagia muitos outros que, sem religião, ou de religiões diferentes do Cristianismo, acabam por aceitar o que a época tem de festivo e assim sendo, o que nela há de atraente.

É um dos rituais mais agradáveis das religiões, capazes de, em contrapartida, se manifestarem de modo cruel e extremo. Recordo as autoflagelações nas Filipinas, em cerimónias bárbaras onde os crentes se permitem crucificar ou se auto chicoteiam, com o objetivo de “agradecer a deus pelas misericórdias alcançadas” – é a Semana Santa, local.  Ou, recordar que, para assinalar a morte de Husayn ibn Ali (um neto do profeta Maomé), alguns grupos de muçulmanos xiitas ocupam as ruas e chicoteiam-se, ferindo-se especialmente com navalhas ou facas. Os tibetanos, enquanto recitam o Livro dos Mortos, praticam o Jha-tor, isto é, dão “esmolas às aves”, oferecendo cadáveres humanos aos abutres. O objetivo é desligar o espírito do corpo, que deve estar preparado para passar da morte ao renascimento. (Tal como, aliás, se passa com a terra, em cada inverno de geração e preparação para o futuro).

Para agradar ao seu deus, os membros da tribo Yanomani praticam o endocanibalismo, porque não há morte natural (morre-se pela ação dos inimigos ou pela trama de um feiticeiro, portanto outra morte diferente destas duas requer vingança. Assim, queima-se – vinga-se – o morto e esmagam-se as suas cinzas, que são comidas com puré de banana)…

E… E os exemplos sucedem-se… É Natal. Adiante.

Numa recente conversa sobre este mesmo tema, muitos confessos ateus mostravam-se radiantes com a época: enfeitar a casa, comprar prendas para os entes queridos, fazer o bem ao semelhante de um modo especialmente reforçado, ou constituindo exceção à regra (o que levou ao tema da sinceridade e da hipocrisia), ver a felicidade no rosto das crianças com sorte, isto é, as que recebem prendas e têm afeto à sua volta. E sobretudo , o resgatar da esperança e a renovação de utopias, como a do bem comum para o homem, a paz para todos, a prosperidade dos povos.

Esses mesmos ateus, diziam-me como eram os seus presépios, a sua consoada, a sua tradição – herdada de outra com convicções nascidas em estruturas de crença bem diferentes das do ateísmo; em suma, a depuração não confessional da vida, assente na grandiosidade do Homem e na sua autossuficiência intelectual.

O ritual que está ao centro desta festividade, indiscutivelmente, assenta numa base pagã (o que significa, religiosa): é a celebração do solstício de inverno, a passagem da morte à ressurreição da Terra – o que nos leva a decorar árvores com maçãs vermelhas (que com o tempo se foram sofisticando e tornando adornos por vezes de grande luxo,  com serpentinas de cor, os festões, estrelas e luzes, porque não estamos sós no imenso Cosmos, mas somos uma ínfima peça do Universo).

Se fizéssemos aqui um parêntesis no que respeita à maçã como peça simbólica da tradição, havia que sublinhar que, antes da tradição cristã lhe atribuir todas as cargas negativas com o pecado e a tentação, outras narratologias já a consagraram.

É verdade que Adão e Eva, são ludibriados pelo diabo, disfarçado de serpente, e induzidos a comerem o fruto proibido do Jardim do Éden, a maçã, aquela que os expulsou. Mas se a maçã simboliza o mal, ou pelo menos a escolha errada, é também o símbolo da liberdade e da busca da sabedoria, uma vez que expulso do paraíso, o casal terá de recorrer aos conhecimentos para sobreviver.

Para os celtas, a maçã é um símbolo da fertilidade, da magia, da ciência, da revelação e do além. A lenda da “mulher do outro mundo”, envolve a maçã, que nesse caso, desempenha um papel de ‘alimento-prodígio’, símbolo da imortalidade e da espiritualidade, visto que ela envia uma maçã a Condle, filho do Rei Conn, suficiente para alimentar-se durante um mês. A macieira (Abellio) representa a árvore do outro mundo e simboliza a sorte e o conhecimento.

Na mitologia grega, Héracles (Hércules na romana), colhe três maçãs de ouro (pomo de ouro) da “Árvore da Vida” no Jardim das Hespérides.

Para os gregos, a maçã representa o símbolo do amor (associada à Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sexualidade), contudo, nesse caso, simboliza a imortalidade uma vez que quem as comer nunca mais terá sede, fome ou enfermidades.

No Natal, a maçã está pendurada na árvore – nas bolas coloridas – e representa a imortalidade, também (Cristo morreu e ressuscitou, imortalizou-se).

A festa, leva ainda a confiar as recompensas a um senhor de barbas que vestia de verde no passado– e hoje de encarnado por opções comerciais -, mas ainda a associar a neve, até em climas onde esta nunca caiu, consagrando raízes geográficas de uma narratologia tradicional a uma extensão universal. É a época de falar da Lapónia, de renas e de trenós, até nas cidades mais quentes e desconhecedoras de realidades culturais mais intensas do que as suas, ou simplesmente a altura, quase ecuménica, de misturar religiões numa era cada vez menos religiosa e cada vez mais sedenta de muita espiritualidade perdida, como é a nossa.

É Natal

Segunda parte
Dir-se-ia que, para um hindu, o Natal deve estar no centro das suas comemorações. Isto pela natureza das suas crenças mais profundas

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Terceira e última parte
Quando vemos uma cruz, a presença da morte sobrepõe-se a qualquer outra memória mas, com ela, logo se estabelece a ideia ainda mais concreta do instrumento de suplício que recebeu as últimas horas da vida de Jesus…

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Este artigo respeita o AO90

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