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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

É Natal

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

O Natal, tal como o conhecemos nas culturas ocidentais de matriz judaico-cristã

… e, obviamente, todo o Cristianismo aflora também na evocação, já que adoptou a cruz como seu símbolo por excelência.  É claro que esta visão é (mais) notável na nossa cultura, de traços judaico-cristãos muito enraizados (a par com outros referenciais, que deviam ser igualmente evocados mas que aqui pesam um pouco menos).

Muito mais do que isso, no entanto, a cruz tem raízes anteriores ao Cristianismo, pois é a representação simbólica do “eixo do mundo”, o ponto do centro do cor – do coração, no entrosamento dos dois ramos – e as suas hastes significam os quatro pontos cardeais.

Apesar de algumas religiões não usarem símbolos (ou pelo menos, os reduzem a quase nada) o que sabemos é que a imagem teve (e terá sempre) na cultura humana tanto impacto como a linguagem articulada ou escrita e que, portanto, ela é tão antiga como as nossas raízes culturais. O Natal, tal como o conhecemos nas culturas ocidentais de matriz judaico-cristã, é prova disso mesmo.

Porque o Natal é cristão (sobretudo com forte ascendente católico) e celebra o nascimento de Cristo, a cruz, mesmo como exemplo de reflexão, não está presente e a natividade ocorre a céu aberto, encimada por uma estrela que terá assinalado o local do nascimento do filho de Deus.  Aliás, é curioso notar que, na tradição, a estrela nem sempre aparece. Em lugar de destaque está um galo – o anunciador que reconhece a estrela da manhã, o sol, é anunciador. Ainda hoje se celebra a Missa do Galo, um galo anunciador do bom e do mau, o mesmo que denuncia a negação de Cristo e canta quando Ele é traído (de acordo com os diversos textos onde está referido e que a tradição promove). Não esquecemos que o galo é o símbolo solar por excelência. Anunciador da luz do dia.

No cimo da reprodução iconográfica do Presépio está, isso sim, o que lhe dá o nome. Presépio é a palavra que vem do latim Praesaepe, que significa estrebaria ou curral e que terá, na história, determinado outros nascimentos, como o de Francisco de Assis, cuja mãe à hora do parto pediu para ser transferida para o curral da casa rica onde vivia, de modo a imitar Maria e o nascimento do Salvador. Desse nascimento, o de Francisco de Assis terá resultado mais tarde o Presépio como hoje o conhecemos. É que Francisco de Assis recriou o nascimento de Cristo – e o seu próprio, em 1223, ao montar o primeiro presépio numa gruta, em Itália. Na época, a Igreja não permitia a realização de representações litúrgicas nas paróquias, mas São Francisco pediu a dispensa da proibição, para relembrar ao povo a natividade de Jesus Cristo.

Mesmo assim, só depois do século XVII é que os presépios começaram a fazer-se nas casas das pessoas, normalmente com figuras de barro onde se traduzia a devoção, sendo, em suma, uma manifestação popular religiosa em que transparece uma ligação entre o homem e a terra… entre o oleiro (o barrista) e o barro. Do mesmo barro em que certas tradições, criacionistas, se acredita que o homem terá sido moldado adquirindo assim e desde logo o seu principal significado simbólico.

O objetivo de São Francisco era facilitar a compreensão do nascimento de Jesus.

No Brasil, a cena do presépio foi apresentada pela primeira vez aos índios e colonos portugueses em 1552, por iniciativa do padre jesuíta espanhol José de Anchieta.

Na tradição incluíram-se os reis magos – que em certos textos eram dois e noutros nenhum e que acabaram por ser três, os três reis magos, Gaspar, Melchior e Baltazar, que levariam presentes, e que seguiam a estrela que os guiava até chegarem à cidade de Jerusalém. Foram referidos nos Evangelhos – apenas em São Mateus, que não diz quantos eram nem se levavam realmente presentes, apenas que eram vários e teriam vindo de Leste. Os mesmos Evangelhos falam de três prendas dadas ao menino – não dizem quem as deu -, o ouro, o insenso e a mirra (nos dias de hoje, se fizermos um pequeno inquérito, as pessoas só saberão dizer o que é o ouro e de forma muito sumária).  Estes três presentes – muito mais ligados à tradição cultural egípcia – sempre nos fizeram pensar: o ouro é o símbolo de poder e da realeza,  por excelência; desde o mais antigo chefe tribal que se encantou pela cor amarela de uma pedra excecional atá ao mendigo Salazar que governou Portugal e que escondia o ouro e falia a Nação, passando pelos combatentes do DAESH, a quem é prometido como fartura e abundância. O ouro é também símbolo da proveniência divina – ouro, sol, deus, deuses, com uma longa história simbólica universal.

O incenso, é a antiga forma pagã de garantir que a oração dos fiéis se espalhe pelos ares e chegue ao céu – a Deus, aos deuses. Reencontramo-lo nos Salmos (141:2) com a mesma função.

E a mirra, que é uma resina antisséptica, usada (no Egito) para os embalsamamentos. Em João (19:39-40) encontramo-la associada à preparação do Cristo morto: mirra e aloés, produtos fundamentais, adequados ao embalsamamento.

A representação iconográfica dos reis, transportando cibórios (caixas em forma de antigo vaso grego que, com o tempo, serão usadas na liturgia para guardar hóstias eucarísticas, cujo nome vem do grego, pyxis, caixa de madeira de buxo) com as prendas e apresentando, cada um deles, tons de pele diferentes – pertencem a uma história relativamente recente.

Hoje, como politicamente correto, temos três reis de três origens e tons de pele diferentes. Todavia, nem reis seriam, mas, muito provavelmente, sacerdotes da religião zoroástrica da Pérsia – que sabendo da boa nova se quiseram juntar como testemunhas da celebração. Também não há relatos biblícos dos seus nomes – foram batizados muito depois, porque a narratologia exige sempre o pormenor.

Melchior (também chamado Melquior ou Belchior), Baltasar e Gaspar, é como hoje os conhecemos. Não há, apesar disso, relatos bíblicos sobre o nome dos magos. Talvez fossem astrólogos ou astrónomos, entusiasmados ao verem uma estrela (ou um cometa?) e que foram, por isso, até a região onde nascera Jesus, dito Cristo, perseguindo-a. Ao saberem que ali se assinalava o nascimento de um rei (Cristo, candidato a rei dos judeus), foram primeiro procurá-lo ao palácio de Herodes, que, esse sim, reinava sobre Jerusalém na Judeia. Herodes alarmou-se e sentiu-se ameaçado, e pediu aos magos que, se o encontrassem, lho dissessem, pois iria adorá-lo também. As suas intenções outras, pois, obviamente, queria matá-Lo.

Até que chegassem ao local onde estava o menino, passou algum tempo, por ser grande a distância percorrida. Assim a tradição atribuiu o dia 6 de janeiro como o da visitação dos Magos.

Por isso, para respeitar a simbologia do presépio, este deve ser começado a montar nas casas cristãs a 5 ou 6 de dezembro, a festa de São Nicolau (o pai Natal) que começará a reunir presentes para entregá-los 20 dias depois. A igreja católica, todavia, estabelece como cronologia que o presépio deve ser montado no 1º domingo do Advento e desmontado no dia 6 de janeiro, data em que a Igreja celebra a Solenidade da Epifania do Senhor.

Não há nenhuma referência nos Evangelhos sobre a data de nascimento de Jesus, e as pistas só indicam que a impossibilidade de ter nascido em 25 de dezembro. A verdade é que as festas dessa data já se faziam muito antes e que os romanos, ao cristianizarem o império, terão dado outra feição a uma festa pagã que apresentava a Natureza ao serviço do homem e de Deus.

A presença de animais no Presépio, vaca, burrinho, junto do Menino, entende-se como a necessidade de fornecer calor ao local e simbolizam a simplicidade do local onde Jesus quis nascer.  A presença dos pastores entende-se na simbologia da humildade (a profissão de pastor já era uma das menos reconhecidas) . Todavia… o mês de dezembro, por ser extremamente frio em alguns lugares, seria impossível que os pastores tenham estado cuidando das suas ovelhas no campo, como aparece no relato dos evangelhos.

O anjo aparece no lugar da estrela em muitos presépios – e noutros coabitam. Representa o céu que celebra o nascimento de Jesus. É o mensageiro de Deus, comunicador da Boa Notícia. O anjo do presépio, normalmente, segura uma faixa com a frase: “Gloria in excelsis Deo”, que significa: Glória a Deus nas alturas. A estrela é reconhecida nos Mistérios Antigos. É símbolo do próprio Homem, feito à imagem e semelhança de Deus Criador (daí o aforismo Hermético: “O que está em cima é igual ao que está em baixo”) A estrela simboliza a luz de Deus que guia ao encontro do Salvador , a indicação do caminho que se deve percorrer para encontrar o Menino Jesus. Sendo Jesus “a luz do mundo” (João 9, 5) e “o sol que nasce do alto para iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte” (Lucas 1), considerou-se oportuno fazer a lembrança do nascimento de Jesus coincidir com a data na qual a presença do sol é mais longa com relação à terra.

A família, que a Igreja irá suprimir colocando em seu lugar a Trindade, é constituída no Presépio pelo pai adotivo de Jesus, São José: o homem que o assumiu como filho, que lhe deu um nome, um lar, que lhe ensinou uma profissão: a de carpinteiro. Maria que é a Mãe do Menino Jesus, a escolhida para ser a mãe do Salvador. É aquela que disse ‘sim’ à vontade de Deus, e por ela a humanidade recebeu Jesus”.

Curiosamente, os cristão não se entendem nestas figuras. Os protestantes, por exemplo, não as tomam como centro dos valores essenciais da sua religião, embora a matriz – o Cristianismo – seja a sua origem de inspiração. José e Maria são-lhes secundários. E as testemunhas de Jeová, afirmam mesmo que é proibido celebrar o Natal, porque nenhum dos quatro evangelhos especifica a data do nascimento de Jesus.

O menino Jesus é o centro desta composição: é o Filho de Deus que Se fez homem, para dar a sua vida pela humanidade. “Sendo ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-Se aos homens” (Filipenses 2, 6-7).

Assinalamos o solstício de inverno, embelezando o imaginário. E a beleza maior do Natal será a de interpretar o imaginário popular e a capacidade que tem de traduzir o melhor do Homem: acreditar na utopia da criança que traz esperança ao mundo, um mundo tão perdido nas suas idades adultas.

É Natal

Primeira parte
Para mais de um quinto da população mundial, a festa tem um significado profundo que contagia muitos outros que, sem religião, ou de religiões diferentes do Cristianismo, acabam por aceitar o que a época tem de festivo e assim sendo, o que nela há de atraente

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Segunda parte
Dir-se-ia que, para um hindu, o Natal deve estar no centro das suas comemorações. Isto pela natureza das suas crenças mais profundas

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Este artigo respeita o AO90

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