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João de Sousa

Quarta-feira, Janeiro 26, 2022

Round 6: uma exposição poderosa de como os capitalistas usam as dívidas para manter o poder

O que você pode pensar que são spoilers nesta resenha não são realmente spoilers, não para uma série como essa. Se você assistir essa série de nove episódios, que eu altamente recomendo, você vai ver o que eu digo.

Seoung Gi-hun, interpretado por Lee Jung-jae é viciado em jogo. A esposa de quem ele é divorciado tem a custódia de sua pequena filha e é casada agora com um cara mais rico, então a filha é bem cuidada. No entanto, a filha o ama e ele a ama e ele precisa de dinheiro para comprar a ela um presente de aniversário. Ele também precisa de dinheiro para pagar a cirurgia de sua mãe doente, com quem ele vive. Ele desperdiçou a maior parte do dinheiro deles em seu vício de jogo, ganhos dos quais ele tinha esperança em vão de que os tirariam das dívidas.

Desesperadamente em dívidas, como milhões de outros trabalhadores vivendo em uma sociedade que fornece crédito, empréstimos e esquemas para enriquecimento rápido ao invés de empregos e renda, ele concorda com uma oferta de um grupo misterioso para ser um jogador em jogos que oferecem um prêmio de muitos milhões de dólares, que vai resolver todos os problemas dele. Mas percebe que está preso em uma série de testes mortais, que vão terminar com um vencedor e todos os outros mortos.

No momento que ele vem a perceber isso (já no primeiro episódio), percebo que estou assistindo uma poderosa paródia de um dos piores aspectos da guerra de classes – o uso das dívidas para colocar em uma armadilha a maioria da classe trabalhadora mundial. É difícil para o espectador não concluir que a maioria de nós, como Gi-hun, é prisioneiro de manipuladores da classe dominante, que oferecem crédito, empréstimos e esquemas para enriquecimento rápido – qualquer coisa menos bons empregos e renda – para manter seu controle sobre nós. O mundo de profundas dívidas e opressão em que nós vivemos é a prisão real da qual nós precisamos encontrar uma saída.

É a clareza dessa mensagem vinda dos produtores dessa série, uma mensagem que eles passam com o gênio artístico em tantos níveis, que me faz particularmente feliz sobre o sucesso blockbuster da série.

É verdade, como muitos críticos alegam, que a série é incrivelmente brutal e violenta. É raro ver uma obra com tal brutalidade e violência, mas ela não é mais brutal e violenta do que a sociedade capitalista que ela contesta. A violência e a morte são as ferramentas dos capitalistas ricos, que nós finalmente vemos estão assistindo por detrás das cenas e desfrutando os jogos mortais na ilha misteriosa.

Em Round 6 os trabalhadores são representados por 456 homens e mulheres desesperados, tentando passar por seis versões mortais de jogos de crianças que todos nós jogamos. Todos eles querem ganhar os 30 milhões de dólares (convertidos da moeda coreana), na esperança de serem capazes de viver uma nova vida livre de dívidas.

O escritor-diretor Hwang Dong-hyuk é um gênio absoluto! Eu estremeço até agora pensando naquela enorme boneca mecânica de cabelo amarelo e cauda de porco que nós vemos no primeiro jogo, com todos pegos durante “luz vermelha, luz verde” sendo baleados até a morte se moverem um fio de cabelo depois do chamado “luz vermelha, luz verde, um, dois, três”.

Também há um olhar nas coisas que acontecem entre as pessoas presas em uma luta comum. Nós vemos caras realmente maus que, antes de chegarem aos jogos, serviram durante muito tempo como agentes da classe dominante entre os trabalhadores. Há o Jang Deok-su, interpretado por Heo Sung-tae. Ele é um gangster horrível que vendeu as pessoas antes de chegar aos jogos e continua fazendo isso durante eles.

Há a Kang Sae-byok, interpretada por Jung Ho-yeon. Ela é uma desertora da Coréia do Norte, que percebeu que a Coreia do Sul de seus sonhos é um pesadelo de exploração e opressão. Ela precisa do dinheiro do prêmio para sobreviver ao inferno que é a Coréia do Sul “livre”. Ela está sustentando a si e a sua mãe.

Há o Oh Il-nam, interpretado por Oh Yeong-su. Ele é um idoso gentil com um tumor no cérebro, que na verdade acaba por ser um membro de nível alto da classe dominante sul-coreana, que estava ajudando a dirigir os jogos.

E há um tira sul-coreano, que se infiltrou nos jogos para procurar por algumas das pessoas que estavam “desaparecidas” e tiveram o desaparecimento reportado por amigos e parentes. Ele descobre que seu próprio irmão está sendo pago pela cabala para manter o show de terror e que as pessoas encarregadas “da lei e da ordem” estão perpetrando ilegalidades inimagináveis com homens da lei como seu irmão subornado com muito mais dinheiro do que ele ganha como um tira.

Cada jogo termina com um momento de angústia, depois de expor mais horrores que no jogo anterior na extensão da crueldade, pobreza e privilégio de riqueza desenfreado na Coréia do Sul em particular, mas sob o capitalismo em geral. Você acha difícil parar de assistir e é tentado a maratonar todos os nove episódios. Eu fiz em turnos de quatro e cinco.

O diretor tece detalhes realistas e críveis sobre Gi-hun e seus camaradas na história, enquanto ele se move freneticamente entre os jogos. O espectador se torna emocionalmente conectado às pessoas na história.

A mensagem de quão mal o capitalismo é não pode ser perdida por ninguém assistindo essa série. Mas nós também vemos que algumas vitórias sobre ele são possíveis. Nós vemos que os jogadores às vezes saem na frente quando eles cooperam, ao invés de se engajar na competição pretendida pela classe dominante. Mesmo nesses casos, alguns terminam mortos. Uma equipe que coopera, embora a equipe mais fraca fisicamente, vence um jogo de cabo de guerra e todos os membros sobrevivem, pelo menos naquele momento. Todos na outra equipe, contudo, são arrastados para suas mortes, quando eles caem de um precipício em um poço profundo.

No final, Gi-hun sobrevive. Eu não vou dizer a você como, mas ele não tem certeza se o jogo vai acabar. A resposta a isso está sendo deixada aos espectadores da série.


por John Wojcik é editor-chefe da People’s World | Texto em português do Brasil com tradução de Luciana Cristina Ruy

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

Fonte: People’s World

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