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Quinta-feira, Setembro 23, 2021

A Rússia é uma história por contar – I

Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

DO AVESSO

A cem anos de distância, começa no entanto a surgir a coragem das interrogações: o que é que se passou realmente em 1917? O que reter de um dos principais acontecimentos da História Universal, louvado e temido, prova de força das ideologias – e fraqueza sem igual?
No âmbito da redação de uma tese académica, com a única incidência sobre o ano de 1917, a Rússia e os temas que identificam as revoluções sentidas nesse ano naquele território – revoluções no plural, a primeira no início do ano, a 23 de fevereiro, que derrubou o czar Nicolau II , e a segunda de 25 de outubro, que deu início a uma sangrenta guerra civil e ao triunfo dos bolcheviques, em 1918, quando tomaram o poder em Petrogrado, na Assembleia Constituinte – e por extensão em todo o país – acabei por reunir material capaz de constituir interesse de estudo e com isso a convicção de que um tema viciante de aquisição cultural está longe do esgotamento. Em boa medida, o tema só agora pode servir os investigadores com a distância e os materiais necessários.

Também só agora os historiadores das novas gerações podem olhar com paixão menor para os acontecimentos políticos, antes manietados por contextos e subjugados pelo uso ideológico, dando-lhes a certeza dos factos com peso historiográfico. Repare-se nos livros que saíram este ano para as livrarias, assumidamente para assinalar o que se passou há cem anos na Rússia: a maior parte ainda é depreciativa, e outra, menor agora pois há uns anos dominava, é ainda apologética. Poucos desses títulos serão de História, pois cedem à reclamação da emotividade. Outros valem pela iconografia – e servem textos para esquecer de imediato.

A cem anos de distância, começa no entanto a surgir a coragem das interrogações: o que é que se passou realmente em 1917? O que reter de um dos principais acontecimentos da História Universal, louvado e temido, prova de força das ideologias – e fraqueza sem igual?

Ler A História da Revolução Russa, de Trotsky, e os trabalhos de Alexander Soljenitsin, Andrey Zubov, Dmitri Volkogonov, Ivan Maisky,Mikhail Ivanovich Meltyukhov, Pavel Milyukov, Vladimir Dmitriyevich Bonch-Bruyevich, V.G. Revunenkov, mas também os de Richard Pipes, Norman Naimark, Robert Conquest, Orlando Figes, e os fundamentais Eric Hobsbawm, Isaiah Berlin, Marc Ferro e Jean-Jacques Marie, este último dos mais atualizados, é um ponto de partida para a apreensão do mosaico histórico disponível.  Ninguém deve atrever-se a escrever sobre a Rússia, com honestidade histórica sem começar pelo menos pela leitura destes autores, até porque de panfletos anda o mundo cheio.

Hoje, percebemos algumas coisas notáveis: que as Revoluções russas de 1917 estiveram longe de ser marchas triunfais e imediatas nos seus propósitos e concretizações. A primeira é insuficiente; a segunda conduz a um banho de sangue que duraria até 1922 – e, mais tarde, a vários banhos de sangue que irão destruir as utopias, as ideologias, e, por contágio, atirar o mundo para alternativas igualmente extremistas e repugnantes.

Percebemos por exemplo que na Guerra Civil, que se seguiu aos levantamentos de 1917, se digladiam três forças distinguíveis, cuja história ainda não está suficientemente apurada: o exército vermelho (que Trotsky apadrinhou e organizou e que vem mostrar a necessidade da força armada para resultados triunfantes, coisa em que provavelmente os catalães andam a meditar por estes dias); o exército branco, chefiado pelos generais Denikine, Koltchak, Wrangel, entre outros, afetos ao czar; e um exército verde, também porque a sua cherkesska ou túnica era verde, de camponeses organizados sobretudo sob a liderança de Cossacos (“atualmente, na Rússia moderna, os Cossacos são vistos quer como um grupo étnico, quer como uma parte das forças armadas da Rússia. Nos últimos censos realizados neste país, a “categoria” cossaca foi separada do resto da população, tendo sido contabilizados para cima de 150 000 cossacos ao serviço das forças armadas russas, enquanto que o grupo étnico é constituído por vários milhões de descendentes dos guerreiros cossacos. A sua cultura foi proibida nos tempos da União Soviética, e houve mesmo uma tentativa falhada de erradicação desta cultura. Atualmente, esta etnia está a viver um período de forte revivalismo e reaparecimento da cultura cossaca, sendo que este movimento é mais forte no sul da Rússia.”).

Hoje, quando vamos à Rússia, surpreendemo-nos: Lénine continua embalsamado na Praça Vermelha. O exército vermelho criado por Trotsky tinha a mesma configuração e a mesma disciplina do exército da Federação. O homem soviético resiste. Encontramo-lo em toda a parte, de Moscovo às aldeias remotas. A ideia de Saline, ditador e protagonista da morte de milhões de cidadãos, coabita com a do herói e vencedor da Grande Guerra,  um patriota que muitos evocam com respeito e admiração. No poder, Vladimir Putin é a imagem de marca das ambiguidades, o responsável por uma estranha continuidade que, em certa medida é hoje para alguns inominável e para outros inevitável e indefinível.

Creio que direi mais no artigo seguinte, até da quase inexistente reação portuguesa, no ano de 1917, ao que se passava na Rússia, que apenas alguns – como os que começavam a organizar politicamente os sectores operários, num país como o nosso de quase nenhuma indústria, ou os redatores do órgão de comunicação A Sementeira – que embora anarquista exaltou o que se passava na Rússia – entenderam o alcance de um acontecimento histórico tão importante, capaz de contagiar grande parte do mundo com uma extraordinária mensagem de esperança de justiça e de liberdade, que fez mais pelas nossas conquistas do que por vezes reconhecemos.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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