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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Samba da Figueira ‘loves’ Alheira da Bahia

João Vasco AlmeidaJá provaram a alheira da Bahia com samba de vegetais? O queijo da serra de São Paulo? E o turricado do Rio de Janeiro? Uma maravilha para o paladar, é o que vos digo. Igual, igual, só o carnaval da Figueira ou o desfile do Funchal.

Por exemplo: em Ovar as meninas de sutiã e os meninos de calça branca e tronco nu vão sair à rua com mínima de oito graus, máxima de 15, contra os 24 de mínima e os 31 de máxima do Rio de Janeiro.

Os milhares de euros que se gastam em apoio público a esta verdadeira sambada são mais do que muitos. Para vestir e esculpir, motorizar e organizar estes desfiles vão-se milhões. Em Loulé, por exemplo, só para confetis e serpentinas, foram-se 11.189,20 €, em ajuste directo. Não são os únicos. Em Ovar, para contratação de serviços de animação de rua/escolas de samba para o Carnaval de Loulé 2016 foram-se 55 mil euros.

A pesquisa sobre carnaval no site “Base”, onde estão as contratações públicas, mostram números assustadores.

(suspiro)

É nestas coisas que se vê a bravura do povo português. Sambar no Inverno é um exclusivo de um povo que não percebeu. Ou então, é burro. Tirando a tolerância de ponto, o Carnaval sambal é de um mau gosto absoluto, mas há muito que a discussão está perdida. Nos anos ’80 do século XX, com uma vaga de escolas de samba no país e a invenção de Carlos Cruz, ao trazer novelas para a televisão, uma geração de Fábios e Brunas consideraram útil desfilar sem saber dançar.

Há escolas de samba em todo o mundo, como há de kizomba ou de tarrachinha. Isso não tem grande mal. Em Helsinquia, por exemplo, desfila-se a 12 de Junho com a agradável temperatura de 19 graus, quase tão idiota como em Loures no pico do Inverno.

O que não há, e ainda bem, é a velha tradição de fado na Bahia, com trios eléctricos em cima de carrinhas de caixa aberta a berrar Carlos do Carmo, ou pior.

Dança do "batuqe", origem do samba
Dança do “batuqe”, origem do samba

O samba é uma música linda e, curiosamente, uma dança de libertação. Vinda da batida e dos movimentos africanos e com a forte influência de uma cultura de trabalho, intensificou-se no séc. XIX desde a Bahia até ao sul, onde a maioria dos antigos escravos libertos mostrava a sua vitória. Misturada com a polca, o maxixe, o lundu e o xote, o samba tornou-se uma marca forte de identidade local.

O organizador do carnaval de Loulé, Palhó (?), dizia esta sexta-feira à TSF: “Os políticos andam sempre a brincar connosco, agora pelo menos tempos uma oportunidade de brincar com eles”. Este homem considera que a democracia é não-participativa e se auto-limita aos seus carros alegóricos e ao pimba-sambal, mais 700 “figurantes” no “sambódromo de Loulé”.

Para Palhó Madeira, artista plástico com tatuagem à mostra no decote em vê e corrente ao pescoço, bigode e barbicha à Descartes, tudo não passa de uma enorme e manifesta brincadeira, como nos filmes dos anos ’30 e ’40. Folia…

(suspiro segundo)

Em suma, virámos o Entrudo ao contrário. Em vez de tirar as mocinhas ao solheiro, expusemo-las. No ano do chocalho fazemos de conta que é a pandeireta que desejamos em património.

No fundo no fundo, quero ir para o monte com Palhó, a ver se ele explica a coisa.

Lá vai musiquinha:

“Ó entrudo Ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
as mocinhas ao solheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é qu’eu estou bem
Que no monte é qu’eu estou bem”

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