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Segunda-feira, Julho 4, 2022

“Gado”

Maria do Céu PiresNos últimos dias de Janeiro (27) assinalou-se, uma vez mais, o Dia das Vítimas do Holocausto.

Lembrar o que foi o Holocausto tornou-se, hoje, um dever de cidadania para todos nós e, de modo muito especial, para quem tem funções educativas. Na verdade, passaram apenas algumas décadas sobre o maior horror da história contemporânea do velho continente e parece que tudo foi esquecido. A besta anda, de novo, à solta e espalha em seu redor o medo, a arrogância, a brutalidade. Voltamos (o que parecia impossível) ao tempo em que uns seres humanos tratam os seus semelhantes como se fossem sub-humanos, como se pertencessem a uma categoria inferior da humanidade. A tragédia está já a acontecer!

A sua face mais visível encontra-se no modo como “recebem” os refugiados: fechando portas, erguendo muros, desviando o olhar cada vez que há mortos no mar Mediterrâneo (é rara a semana que não morrem crianças nesse cemitério de mar).

Também é conhecido neste momento o risco de menores caírem nas redes de tráfico de prostituição e de escravatura (desapareceram 10.000 crianças refugiadas).

A xenofobia e a violência crescem aproveitando os impactos negativos da crise económica global.

Só para termos uma pequena ideia do que está a acontecer: enquanto num país pobre como o Líbano mais de 20% da população residente tem o estatuto de refugiado, na União Europeia e no conjunto dos seus 28 países o milhão de refugiados que entrou no último ano equivale a 0,2% da população.

Perguntamos-nos: o que levou a que Europa que se construiu com base na ideia da solidariedade se tornasse fortaleza de insensibilidade face à maior tragédia humanitária desde a II Guerra? Como explicar tamanha indiferença? É assim tão frágil a linha que separa civilização e barbárie?

Primeiro a Áustria e a Hungria e, agora, a civilizada Dinamarca aprovam legislação que põe em causa o Direito Internacional, por exemplo, a Convenção de Genebra (1949) e tudo o que respeita ao direito de asilo e à protecção das pessoas em situação de guerra.

A 26 de Janeiro o parlamento dinamarquês aprovou legislação que dificulta o processo de reagrupamento das famílias, que encurta o período de residência temporária e que permite que as autoridades confisquem os bens dos refugiados. A extrema-direita que governa o país é tão benemérita que deixa uma salvaguarda: poderão ficar com as alianças e outros objectos de valor sentimental…

A Suécia (onde o xenofobismo também tem poder) juntou-se ao grupo e expulsou 80 mil refugiados, quer dizer, reencaminhou para o mar, para a morte.

Passaram apenas 70 anos e parece que tudo foi esquecido. E esquece-se também uma verdade fundamental: quando se reduz o outro a um estatuto de não humanidade, quem assim procede também é afectado.

Porque é a capacidade de nos condoermos, de nos emocionarmos com o que se passa à nossa volta que nos torna humanos. Quando o sofrimento dos nossos semelhantes deixa de nos tocar devemos perguntar-nos se ainda somos humanos.

O céu voltou a ficar negro, negro da selvajaria que trata seres humanos como gado.

 

Leia, também de Maria do Céu Pires:

Emma Goldman – a insubmissa

Teresa Forcades, a freira radical

Uma vida

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