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João de Sousa

Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Sionismo, a ideologia racista que está destruindo a Palestina

Joseph Stalin definiu o sionismo como uma corrente política reacionária nacionalista objetivo de organizar na Palestina o seu próprio Estado burguês.


Os recentes embates ocorridos entre as forças da resistência palestina e Israel trouxeram um sem-número de análises sobre as origens e as consequências das transformações geopolíticas ocorridas na Palestina após o Plano de Partilha adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1947, que tem suas origens na ideologia sionista. Falamos o tempo todo em “regime sionista” ou “ocupação sionista” de Israel, que é misto de Estado, enclave e “entidade sionista” encravado no território milenar da Palestina histórica.

Afinal, o que é o sionismo? Onde ele surgiu? O que ele defende? Quais as variantes desse movimento político, que podemos comparar a um vírus, que vem se propagando na Palestina desde o início do século XX e ainda não foi derrotado?

Sionismo é um termo que tem o intuito de fazer referência a Sion ou Sião, um dos sinônimos bíblicos de Jerusalém, e foi criado em 1892 pelo jornalista austríaco e judeu nacionalista Natan Birnbaum, fundador da revista Selbstemanzipation! (Autodeterminação!). O jornalista foi um dos fundadores do Movimento Sionista, em 1897, mas, em 1916, voltou-se para o judaísmo ortodoxo e se tornou um ativista antissionista.

O Movimento Sionista foi criado com base no pensamento do seu fundador, Theodor Herzl, um jornalista judeu austro-húngaro, vindo de família de banqueiros e defensor de uma série de teses fantasiosas, entre elas: “uma terra sem povo para um povo sem terra”. O sionismo se baseia na teoria defendida por Herzl no seu livro O estado judeu, de 1896, da existência de um Estado nacional judaico independente e soberano no território onde supostamente teria existido o “Reino de Israel”.

O sionismo é uma ideologia que se apropriou do judaísmo como forma de dar sustentação às suas teses racistas e supremacistas, quando sabemos que nem todos os judeus são sionistas ou apoiam as atrocidades de Israel. Joseph Stalin, em “O marxismo e o problema nacional e colonial”, traduz o sionismo como “uma corrente política reacionária nacionalista”, que recruta seus seguidores entre a pequena e média burguesia judaica com “objetivo de organizar na Palestina o seu próprio Estado burguês integrado por judeus” (1).

A ONU aprovou, inclusive com o voto do Brasil, em 1975, a Resolução nº 3.379, que considerou o sionismo uma forma de racismo, mas, em 1991, ela foi revogada por pressão do lobby judeu. Então, se o sionismo é uma ideologia racista e de direita, pode haver um pensamento de esquerda no seu seio?

A variante “sionismo de esquerda”

O chamado “sionismo de esquerda” apareceu na década de 1920, durante o processo de aquisição de terras pelos sionistas e a transferência de judeus para a Palestina. A maioria desses imigrantes vinha do leste europeu e foi responsável pela criação dos Kibutz, comunidades agrícolas saudadas pelos movimentos socialistas e comunistas de todo o mundo. Apesar do caráter coletivista e igualitário na propriedade e produção, esses Kibutz não admitiam os trabalhadores palestinos entre seus membros.

Segundo o historiador israelense Slomo Sand, a esquerda sionista não surgiu no mesmo processo que a esquerda europeia, ou seja, do conflito entre capital e trabalho, mas sim da “necessidade da ‘conquista da terra’ e da construção de colônias nacionais puras .(2)” A professora Berenice Bento chamou de Redwashing o discurso supostamente de “esquerda” usado por essa corrente sionista contra a necropolítica (3) implementada por Israel, mas que no fundo ajuda a mascarar os crimes da ocupação, utilizando um “sofisticado trabalho de justificar estas mesmas políticas acionando o ideário socialista” (4).

Essa variante sionista se declara oposição aos governos da ocupação, porém não discute ou admite mudanças no status do regime sionista de supremacia judaica na Palestina. Embora esses sionistas adotem um discurso “esquerdista” e “pacifista”, sua prática favorece e legitima as ações de Israel em relação ao povo palestino, ao mesmo tempo que procura deslegitimar as forças da resistência palestina.

Essas forças da “esquerda sionista” são responsáveis pela criação do estado de Israel em 1948 e pelos desdobramentos da Nakba (tragédia), pois foram eles que pressionaram a antiga União Soviética a fornecer armas às milícias paramilitares sionistas, como Haganah, Irgun e Stern, por intermédio da Checoslováquia. É mais hipocrisia do que ingenuidade da esquerda sionista advogar pelo “diálogo”, pela “busca da paz” e pela “coexistência” com Israel usando a mofada tese da solução de dois estados, impossível de ser implementada depois dos Acordos de Oslo (1993).

Negacionismo do “Sionismo de esquerda”

O discurso dos “sionistas de esquerda” israelenses é adotado por certos setores do movimento de solidariedade ao povo palestino, como partidos e ativistas de esquerda em todo o mundo. No entanto, essa postura, que pode até encher os olhos de muitos, não passa de um posicionamento envergonhado sobre os crimes de Israel, enquanto esses setores acusam as forças de resistência de “extremistas” e até de “terroristas”.

Os “sionistas de esquerda” teimam em não reconhecer os partidos armados da resistência palestina, como a Frente Popular para Libertação da Palestina, a Jihad Islâmica e o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), partido que, nas últimas eleições palestinas (2006), elegeu democrática e limpamente a maioria do Conselho Legislativo. Apesar da postura das forças da resistência no sentido do diálogo e da unidade palestina para enfrentar a ocupação, eles continuam utilizando a tese sionista de que esses movimentos são partidos incapazes de dialogar e integrar a representação do povo palestino.

Na condição de maior e mais influente partido palestino, o Hamas tem se empenhado por ações conjuntas das forças nacionais como forma de alcançar a unidade na luta de libertação do povo palestino, como ocorreu no histórico encontro de 5 de setembro de 2020, que reuniu representantes das principais forças palestinas. Merece destaque a declaração do líder do Hamas, Ismail Haniyeh, de que dará prioridade à libertação do líder do Fatah, Marwan Barghouti, em qualquer troca de prisioneiros com Israel. Barghouti tem 62 anos e está preso nas masmorras sionistas há 20 anos.

Objetivo é desconstruir a resistência palestina

Não faltam evidências do empenho do Hamas e de outras forças da resistência palestina pela unidade de ação com os partidos que compõem a Organização para Libertação da Palestina (OLP). Apesar dessa notoriedade, ainda encontramos ativistas e analistas inspirados nos “sionistas de esquerda”, afirmando que o Hamas quer deslegitimar e até destruir a OLP.

Esses sujeitos fazem isso de maneira desonesta, porque sabem qual é a posição do Hamas, que afirma categoricamente em seu programa e nas declarações dos seus líderes que a OLP é uma referência para o povo palestino dentro e fora da Palestina e precisa ser preservada, desenvolvida e reconstruída em bases democráticas, de maneira a assegurar a participação de todas as forças que lutam para resguardar os direitos dos palestinos (5).

Ao adotar discurso semelhante ao do inimigo, essas correntes revelam o seu desprezo pelos esforços de libertação encarnados pelas forças da resistência há mais de 73 anos. Essa retórica pretensamente “de esquerda” favorece o plano sionista de acabar com a Palestina e, em seu lugar, estabelecer essa aberração que é o chamado “Estado judeu”.

Nunca é demais lembrar dos exemplos de resistência contra ocupações imperialistas e coloniais de povos como os soviéticos de Stalingrado, vietnamitas e argelinos, que pagaram um elevado preço para conquistar a sua soberania. Enquanto a mídia e essas variantes sionistas se empenham em demonizar a resistência e “passar o pano” nos crimes de Israel, a resistência não dá trégua e continua a lutar pela unidade das forças palestinas para confrontar e acabar com a ocupação colonial sionista na Palestina.

 

Notas

(1) STALIN, Josef. O Marxismo e o problema nacional e colonial. São Paulo: Lech, 1979. p. 2.

(2) SAND, Shlomo. A invenção da Terra de Israel. São Paulo: Benvirá, 2014. p. 281.

(3) Necropolítica é um conceito desenvolvido filósofo, teórico político, historiador, intelectual e professor universitário camaronês Achille Mbembe, para definir a subjugação da vida ao poder da morte, o poder e a capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer.

(4) BENTO, Berenice. “Redwashing”: discursos de ‘esquerda’ para limpar os crimes do Estado de IsraelOpera Mundi, 2017. Acesso em: 28 jun. 2021.

(5) TENÓRIO, Sayid Marcos. Palestina: do mito da terra prometido à terra da resistência. 1. ed. São Paulo: Anita Garibaldi, Ibraspal, 2019. p. 384.


por Sayid Marcos Tenório, Historiador, Vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019). E-mail: [email protected] – Twitter: @HajjSayid

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