Diário
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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

Nós somos os amigos que temos!

Rogério V. Pereira
Estudou Engenharia Química no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. Começou a trabalhar como Técnico de Organização Industrial e terminou no topo da carreira, como sénior manager, nas áreas da consultoria em organização e gestão.

Fernando Cid

Dele, apenas lhe conhecia o amor à poesia e a militância colocada na sua divulgação. Não conhecia até onde humildade lhe ia, a ponto de ele esconder que se tratava do seu aniversário. Os que sabiam foram coniventes naquela omissão ou não fosse a cumplicidade a regra sagrada da amizade.

À minha chegada, a apresentação dos que estavam ia-se fazendo com troca de sorrisos depois do anfitrião dizer, com um gesto alargado: “é tudo gente boa”. E passado pouco tempo íamos trocando palavras falando sobre tudo: sobre poesia (sem meter no mesmo saco Alegre, Ary e Sophia); sobre a net e o facebook, considerando este o eucalipto que vai secando tudo à volta, tal e qual as grandes superfícies secando o pequeno comércio, onde as pessoas conversavam com tempo e com afecto; sobre o comportamento dos pássaros que fogem dos espelhos, da luz brilhante e reflectida como se lhes corresse risco a própria vida; e da excepção do melro.

Falando de melros, Fernando Cid lembrou Guerra Junqueiro e perguntou-me se conhecia “O Melro”, quase envergonhado por me ter perguntado. Disse-lhe que sim e que já o tinha citado lá no “Conversa”.

Depois, depois foi um desbobinar de memórias da juventude daqueles homens (e também da minha). Do papel que cada tinha tido na cultura e na resistência, do trabalho extraordinário das colectividades da margem sul, sem exaltar outra coisa que não fosse a gratificante adesão do povo de então.

“Sem o trabalho de homens assim, não teria acontecido Abril. Sem este legado, não seria possível construir a Festa”, pensei.

Quando me despedi com um abraço, Fernando Cid, se despedia e dizia: “Espero que tenha gostado, eu sou isto: eu e os meus amigos!”

“Somos os amigos que temos!” – respondi.

Fernando Cid Simões ofereceu-me um DVD editado pela Câmara Municipal de Almada (CMA) com depoimentos, alguns deles lembrados no encontro a que se refere este texto. A leitura do texto e a audição dos depoimentos foram determinantes para que ficasse aqui esta crónica.

A capacidade de recordar e o prazer de ouvir: a resistência como elemento identitário da memória colectiva….

Lê-se na página da CMA:

A capacidade de recordar e o prazer de ouvir: a resistência como elemento identitário da memória colectiva

Produzido no âmbito do projecto de Arquivo Oral do Museu da Cidade/Divisão de Museus e Património Cultural, pretende constituir um documento de divulgação das memórias centradas nas formas de resistência em Almada ao regime do Estado Novo que, durante os 48 anos de Ditadura, influenciaram o ambiente político, cultural e social de várias freguesias do Concelho.

Optou-se por construir uma peça única em que, ao documentário em dvd estivesse associada uma pequena brochura que explicita a organização temática do guião de recolha, com a transcrição de excertos das vozes que ouvimos, onde são apresentados os interlocutores e onde se disponibiliza, em complemento uma cronologia dos principais acontecimentos desse período, tornando mais fácil a contextualização das memórias e das histórias contadas.

No seu todo, pretende-se oferecer ao público em geral e às gerações mais novas, em particular, um esboço do que foi Almada em meados do século passado; quais as expectativas e aspirações de vida dos jovens dessa época, porquê e como surgiram, foram alimentadas e reproduzidas as estratégias de oposição política e quais os seus protagonistas, as figuras que hoje, embora tendo perecido, continuam presentes através da toponímia das nossas ruas e na memória destas vozes e das histórias que agora convidamos a ouvir.

O que resulta deste trabalho é apenas uma parte da história da resistência ao Estado Novo em Almada, reflexo directo da experiência de vida dos 20 entrevistados. Estas “Vozes da resistência” terminam a sua história no dia em que a liberdade foi alcançada, a 25 de Abril de 1974.

Estas vozes fazem-se eco de muitas outras, cuja importância e urgência de registo se mantém e prossegue no âmbito do trabalho do Arquivo Oral em curso.

Índice da brochura:

  1. Eu deixava um baile por um livro: o despontar de uma consciência social
  2. Revoltados e revolucionários: a oposição como raiz de uma identidade colectiva
  3. Foram presos muitos amigos, muitos, muitos, muitos…: da “ilegalidade” à prisão
  4. No dia 25 de Abril entrou uma onda de luz e as pessoas saíram para a rua
  5. Biografias dos entrevistados

Cronologia

Este DVD encontra-se disponível nas bibliotecas e centros de documentação das escolas do Concelho e também está disponível nas bibliotecas municipais, através da Pesquisa nos Catálogos.

Artigo publicado originalmente no blog Conversa Avinagrada

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores.

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