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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

A surpresa que não surpreende

Pedro Pereira Neto
Académico. Ensina comunicação e jornalismo.

Há alguns meses atrás, debatendo a evolução dos resultados eleitorais em Almada, era já possível chamar-se a atenção para a tendência que se desenhava desde há anos neste concelho: a da redução substantiva e contínua da votação no PCP, através da sua coligação. As respostas a essa constatação provenientes de algumas das pessoas afectas ou mesmo militantes desta força partidária variavam entre a ironia, o sarcasmo, chegando à crítica de natureza pessoal e ao mais baixo insulto. Aparentemente, constatar um facto indesmentível – o afastamento progressivo do eleitorado face ao PCP numa das suas regiões tradicionalmente mais leais – não era aceitável, pelo que não podia ser sequer afirmado, como se as evidências desaparecessem por não pensarmos nelas (espécie de efeito Beetlejuice invertido).

Os resultados das últimas eleições confirmam essa tendência, e só quem não acompanha a realidade pode realmente estar surpreso/a: depois de um percurso de tendencial subida entre 1976 e 1993, os últimos 20 anos são de sustentada queda da votação da coligação liderada pelo PCP, quer em termos percentuais (45.9% para 30.9%, ou seja, de aproximadamente um terço), quer em termos nominais (de pouco mais de 36000 votos para pouco mais de 20000, ou seja, mais de um terço). São vinte anos de erosão de uma base eleitoral, com raízes demasiado complexas para poderem ser abordadas sem profundidade, mas a existência dessa erosão constitui um facto que não vale a pena negar, mas antes – sugiro – reconhecer para depois abordar e compreender.

A autarquia de Almada passa agora para o PS, e ao PCP tem de restar outra conduta que não a afirmada por Jerónimo de Sousa, para quem ora o eleitorado irá, na prática, arrepender-se da escolha, ora as populações serão prejudicadas pelo resultado da eleição como se houvessem sido apenas figurantes-vítima do processo e não os agentes do exercício de um direito que o PCP valoriza quando lhe é favorável mas vilipendia quando lhe é desfavorável. Não pode ser esta última, a solução. Julgar o eleitorado soberano e racional quando escolhe o PCP mas irresponsável quando rejeita renovar o seu mandato é uma forma de arrogância que se paga cara, e para a qual as/os almadenses parecem ter perdido em definitivo a paciência.

Ano Vencedor Nº de votos % de votos
1976 PCP 32 593 38,5
1980 APU 37 034 39,0
1985 APU 37 004 49,5
1989 PCP 27 282 39,1
1993 CDU 36 326 45,3
1997 CDU 35 161 45,9
2001 CDU 27 540 41,4
2005 CDU 28 789 42,3
2009 CDU 27 521 38,7
2013 CDU 23 466 38,7
2017 CDU 20 497 30,9

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