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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Terminam os Jogos Olímpicos, começam as críticas

Nelson Oliveira
Psicólogo clínico, Mestre em Gestão Autárquica e membro de várias instituições desportivas e humanitárias

olimpicos-2016

Terminaram os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Provavelmente vimos em acção pela última vez Michael Phelps e Usain Bolt, ícones desportivos de quatro em quatro anos em Portugal, pois raros são os momentos em que a generalidade dos Portugueses acompanha o percurso destes magníficos atletas, sendo os Jogos Olímpicos um evento marcante onde podemos ver um pouco mais do que aquilo que nos dão repetidamente na TV – futebol, futebol, futebol!

No entanto, não pretendo de todo criticar o futebol. Há que reconhecer a importância e viabilidade financeira para todos os agentes económicos, televisivos e desportivos que vivem e trabalham de e para o futebol. Já estamos todos um bocadinho cansados de ouvir a mesma lengalenga em que se acusa o futebol de todos os males que padecem as restantes modalidades, discurso que se intensifica quando analisamos a prestação Portuguesa nos Jogos Olímpicos depois de um excepcional título Europeu de Futebol.

Somos bons no futebol? Apostemos nisso então! E não critiquemos a aposta no futebol para justificar o desinvestimento nas outras modalidades, até porque uma grande parte das actuais receitas do futebol não advém de dinheiro público, mas sim de patrocínios, receitas televisivas, transferências, etc. Devemos sim tentar pugnar para que as outras modalidades, através da acção pública, se centre também nas outras modalidades e nos seus praticantes.

João Miguel Tavares (JMT), cronista do Público, escreve esta semana que se o “Choradinho Olímpico” fosse modalidade, vínhamos carregados de medalhas do Brasil, dizendo, entre outras alarvidades próprias de quem tem que ter sempre opinião e razão em tudo, que o Desporto de Alto Rendimento existente em Portugal está repleto de privilégios como a “dispensa de prestação de trabalho”, “regime especial de acesso ao ensino superior”, “bolsas isentas de IRS” e “subvenções temporárias de integração”.

O que JMT se esqueceu de dizer é a quantidade diminuta de atletas Portugueses que usufruem destas condições que, mesmo assim, não são assim tão boas nem fazem nenhum atleta viver financeiramente desafogado e apenas centrado na sua performance desportiva.

JMT podia ter lido e explicado que o que consta no Decreto-Lei nº 272/2009, de 1 de Outubro é estabelecido em vários patamares e poucos atletas conseguem atingi-lo, ao contrário do que é atribuído em outros países com uma realidade desportiva muito mais avançada (basta ver o exemplo da nossa vizinha Espanha em que as Comunidades Autónomas investem milhões de euros no Desporto regional).

Para explicar um pouco esta debilidade de resultados olímpicos, nada melhor que dar um exemplo pessoal.

Há cerca de uma semana assistia à final de Hóquei em Campo dos Jogos Olímpicos (masculino) entre a Bélgica e Argentina. No meio de todo o espectáculo inerente ao jogo que atribui a Medalha de Ouro, não pude deixar de constatar que muitos dos atletas Belgas que naquele preciso momento faziam o jogo mais importante das suas vidas já tinha jogado algumas vezes contra a Ass. Desportiva de Lousada, clube que represento, em campeonatos da Europa disputados recentemente.

Eu, um jogador medianíssimo, tinha jogado contra atletas que naquele preciso momento estavam a disputar uma final olímpica. Aliás, em Fevereiro de 2011, o Pavilhão Municipal de Lousada recebeu o Campeonato da Europa de Hóquei de Sala onde a AD Lousada defrontou a equipa belga do Racing Club de Bruxelles que contava com o inevitável Tom Boon, empatando o jogo 4-4 e subindo os dois clubes de divisão.

Questionava-me como seria possível, meros praticantes de um desporto quase desconhecido em Portugal, que trabalham como qualquer outro cidadão, tenham um dia lutado “taco a taco” e por repetidas vezes contra equipas que contavam com verdadeiros atletas olímpicos.

Contudo, há um denominador comum e que pode ser replicado pelo país inteiro e nas diversas modalidades por parte do Estado.

Em jeito introdutório, o Hóquei em Campo é um dos desportos com mais praticantes em todo o mundo e o único que tem Campeões Olímpicos dos 5 continentes (Argentina, India, Austrália, Alemanha, Zimbabué, entre outros) e ao longo dos últimos anos Portugal tem conseguido actuar em alguns palcos internacionais com excelentes resultados, nomeadamente a prestação da selecção nacional de sub-21 que se encontra entre as principais selecções europeias e as consecutivas prestações de clubes como a AD Lousada, CFU Lamas em provas internacionais.

O Hóquei em Campo, desporto que pratico há vários anos e com grande tradição em Lousada, sofreu uma grande evolução nos últimos anos resultando em vitórias em catadupa para os clubes locais (Lousada e Juventude) em termos de títulos nacionais e em excelentes prestações a nível Europeu.

Quando comecei a jogar hóquei em campo (seniores) jogávamos no relvado de futebol do Estádio Municipal de Lousada e as nossas prestações desportivas quedavam-se por meros 4º e 5º lugares com duas honrosas excepções nos anos 90.

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Desde que houve a aposta no Complexo Desportivo de Lousada com a construção de um piso sintético específico para a modalidade e havendo uma visão desportiva municipal alargada a várias modalidades, não houve um único ano em que o concelho de Lousada não tivesse um campeão nacional de hóquei em qualquer um dos escalões, nomeadamente nos Séniores e com sucessivas representações internacionais. Desde 2004, só a AD Lousada (Hóquei) conseguiu 3 Taças de Portugal, 3 Supertaças, 9 campeonatos nacionais de hóquei de sala e 8 campeonatos nacionais de hóquei em campo.

Por outro lado, construíram-se infraestruturas capazes de possibilitar a prática de Ténis, Rugby, diversos desportos de pavilhão (Basquetebol, Voleibol, Futsal) e diversas variantes de Atletismo.

Tudo isto para demonstrar que os Portugueses em qualquer desporto conseguem disputar medalhas desde que tenham uma acção governamental que os apoie devidamente. Não podemos criticar de quatro em quatro anos os atletas que participam nos Jogos Olímpicos, se durante esse período pouca ou nenhuma atenção lhes é prestada ou se pouco ou nenhum financiamento lhes é garantido.

Bons exemplos não faltam. A vizinha Espanha desde os Jogos Olímpicos de Barcelona que consegue apostar e formar excelentes atletas numa grande variedade de modalidades desportivas – Futebol, Basquetebol, Ténis, Automobilismo, Atletismo, Hóquei em Campo, Hóquei em Patins, Ciclismo, Voleibol, Natação, Taekwondo, Polo Aquático, Ginástica ou Hipismo, através de um “conjunto de contrapartidas às empresas privadas que apoiassem o desporto. Espaço publicitário na TVE, numa primeira fase, e benefícios fiscais, num segundo momento”.

O Reino Unido há muito que toma uma excelente medida para atingir elevados níveis de financiamento desportivo. Parte do dinheiro angariado sob forma de imposto na Lotaria Nacional é utilizado para financiar atletas inseridos nos projectos olímpicos.

Sei que os Jogos Santa Casa apoiam, pontualmente, o desporto nacional e alguns investimentos, mas porventura se parte do imposto originário das apostas desportivas fosse totalmente canalizado para os atletas olímpicos Portugueses e para o projecto Olímpico, talvez conseguíssemos mais e melhores resultados.

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