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Domingo, Outubro 17, 2021

“Transnistra”, da sueca Anna Eborn, foi o filme vencedor da 6ª edição do porto/post/doc

José M. Bastos
Crítico de cinema

Terminou ontem no Porto a 6ª edição do ‘porto/post/doc’. Com um pé no documentário e outro na ficção, a programação deste ano teve como foco central ‘as identidades’.

Identidades que, tendo estado amplamente reflectidas nos filmes exibidos, foram também tema de debates. No ‘Fórum do Real’, um conjunto de três painéis que contou com a participação de personalidades como Álvaro Domingues (geógrafo), António Guerreiro (crítico), Ben Rivers (realizador), Christiana Perschon (realizadora), Daniel Ribas (investigador), Pedro Mexia (crítico), Susana de Matos Viegas (antropóloga) e  Valérie Massadian (realizadora) foram discutidas, entre outras, as relações das questões identitárias com o território, a imagem  e o pensamento.

O cinema falado em português, a evocação do 20º aniversário da Agência da Curta Metragem, oficinas dedicadas ao público escolar, sessões no Planetário, e abordagens profundas das obras da alemã Ute Aurand e do lituano Audrius Stonys foram outros pontos marcantes do festival que, este ano, teve também uma extensão em Braga.

 

“Transnistra”

O grande vencedor do certame foi o documentário “Transnistra”, da realizadora sueca Anna Eborn, retrato de uma república pró-russa que, tendo existência real, mais parece ter sido inventada. A vida monótona e a falta de perspectivas daquele território são reveladas através do quotidiano de um grupo de jovens que passam os seus dias reunindo-se nos campos ou em prédios abandonados ou inacabados onde vão descobrindo o amor e a sexualidade e fazendo projectos de futuro.  O júri do ‘porto / post / doc’ sublinhou  a “extrema sensibilidade”  da realizadora ao “abordar um universo tão frágil, compreendendo o processo de ‘coming of age’ (amadurecimento) através de uma linguagem cinematográfica muito essencial e intensa”.

 

“The Science of Fictions”

“The Science of Fictions”, filme do indonésio Yosep Anggi Noen, já tinha recebido uma menção no Festival de Locarno.  Recebeu agora no Porto o prémio Companhia das Culturas / Fundação Pereira Monteiro para melhor realizador emergente.  Segundo o júri, “com uma alegria comunicativa, o filme joga com elementos clássicos do cinema, usando luz e ritmo para criar magia, enquanto traça um retrato humano e político de uma alma solitária”. O filme conta  a história de um homem que, em 1960, assiste por acaso às filmagens de uma ‘aterragem’ na Lua, realizadas por uma equipa de cinema estrangeira, numa zona despovoada da Indonésia e que fica perturbado pela rodagem da obra de ficção científica.

 

“De Quelques évènements sans signification”

O júri da competição internacional, formado pelos programadores Luciano Rigolini, Ewa Szablowska e Garbiñe Ortega, pela fotógrafa e cineasta Valérie Massadian e pelo realizador Gurcan Keltek atribuiu um prémio especial (não previsto no palmarés oficial) a “De Quelques évènements sans signification”, filme desaparecido desde a data da rodagem, em 1974.  45 anos depois, a obra de marcado carácter político, do marroquino Mostafa Derkaoui, censurada e proibida na altura em que foi filmada começa a gora a ser vista um pouco por todo o mundo.

 

“Terril”

A temática ambiental, assunto central dos dias que correm, é abordada em “Terril”, do norte-americano Bronte Sthal, jovem realizador que estudou em Florença, Roma, Lisboa, Budapeste e Bruxelas. O filme, que recebeu o prémio Cinema Novo, atribuído pelo Canal 180,  é uma curta-metragem de produção portuguesa realizada na cidade belga de Charleroi cuja paisagem está marcada pelos montes de resíduos das minas de carvão. A  “originalidade do tratamento cinematográfico da questão ambiental” foi o aspecto relevado pelo júri.

 

“Shooting the Mafia”

“Shooting the Mafia”, da britânica Kim Longinotto, conquistou o Prémio Teenage, uma escolha “óbvia e unânime” para o júri (constituído por quinze estudantes do ensino secundário). A personagem central do filme é a fotógrafa e fotojornalista italiana Letizia Battaglia que, durante décadas, desenvolveu a sua actividade retratando o povo da Sicília e as actividades da máfia.

Entretanto o prémio Arché, da área do festival dedicada aos profissionais da indústria cinematográfica, recaiu em “O Arrais do Mar”, da espanhola Elisa Celda.

E assim chegou ao fim mais um ‘porto/post/doc’, festival que durante uma semana animou a baixa portuense e que já prometeu regressar no próximo ano.


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