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Sábado, Outubro 23, 2021

Trump, África e o vazio

Luís Fernando, em Luanda
Jornalista, correspondente do Tornado em Angola

Há, de facto, um vazio exasperante no eixo Washington-África e o pouco eco que ainda ecoa é o de promessas-ameaças de Donald Trump candidato, ao tempo em que ainda decorria a já mais do que elucidativa campanha eleitoral na América

Há, de facto, um vazio exasperante no eixo Washington-África e o pouco eco que ainda ecoa é o de promessas-ameaças de Donald Trump candidato, ao tempo em que ainda decorria a já mais do que elucidativa campanha eleitoral na América. Mesmo estas promessas em tom de ameaça eram, afinal, narrativa inventada por aí, sem autores identificados mas com um propósito evidente de enterrar o adversário de Hillary naquela corrida tão atípica. E o que é que se dizia? Que Donald Trump, se viesse a ganhar as eleições, deporia sem perdas de tempo os presidentes do Zimbabwe, Robert Mugabe, e do Uganda, Youeri Mousseveni, por não serem os líderes que fazem falta a África.

Donald Trump ganhou as eleições, tomou posse como o 45º presidente dos EUA no dia 20 de Janeiro último, esfalfa-se a assinar decretos que o parecem enterrar a prazo incerto mas, do corrupio administrativo, não sai nada que venha a explicitar – ou a insinuar, sequer – o modo como a nova América pensa relacionar-se com África.

Nas diversas capitais africanas, estranha-se o «esquecimento» de Trump. Em Adis-Abeba, Etiópia, onde os chefes de Estado do continente se reuniram em cimeira para pensar uma vez mais os rumos do continente, estes tiveram sim tempo para se lembrar de Donald John Trump. Seria, de resto, improvável o «esquecimento» recíproco, porque bloqueou o movimento de cidadãos de três nações membros de pleno direito da União Africana, sustentado numa razão que parece ser um mero ódio de estimação contra uma religião.

Os observadores atentos em África tentam tudo, no grande vazio que existe de indícios gerados em Washington, para encontrarem uma explicação sobre o que levou Donald Trump a não proibir os vistos de entrada nos Estados Unidos de cidadãos de países ligados aos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, onde dois deles, pelo menos, são africanos: Marrocos e Egipto.

Há em África, por conseguinte, uma espécie de calma tensa que pode ser traduzida, também, por uma espera enervante. É como se o perigo estivesse para lá da porta fechada e, por isso mesmo, ninguém a tenta abrir para já.

Mas foi em Angola onde se viveu o mais patético dos momentos desta espécie de versão 2017 do conhecido jogo popular «enquanto o lobo não vem». Na quarta-feira, 31 de Janeiro, o diário O PAÍS (circulam no país dois títulos com tal periodicidade, o outro é o estatal Jornal de Angola) publicou na sua secção “Carta do Leitor” uma missiva de um estudante do décimo primeiro ano, presumivelmente um adolescente, que se mostrava inquieto quanto à possibilidade de Donald Trump bombardear… Angola! «Quero perguntar uma coisa: o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai nos bombardear ou não?», escrevia, despoletando a diferentes níveis comentários jocosos que os analistas aproveitaram logo para associar à tal ausência de ideias e programa da Casa Branca relativamente a África.

Convirá referir que a pergunta do leitor, que se tornou famoso por cá (de seu nome Yuri Chivambo), resulta também de um ambiente que não se dissocia do clima pré-eleitoral que envolve Angola, marcado por tentativas de aproximação de vários líderes da Oposição aos novos mandões na América. Houve de tudo: desde o presidente de um partido político de expressão minúscula chamado PREA, Partido Republicano de Angola, Carlos Contreiras, inventar uma audiência que nunca aconteceu com Trump na Casa Branca logo no dia da tomada de posse deste, a uma espalhafatosa viagem de dois outros líderes partidários, UNITA e CASA-CE, a Washington como convidados ao acto de investidura de Trump. Como ninguém os viu por lá nem em fotos nem em imagens de TV, caíram o carmo e a trindade nos dias imediatos ao «Inauguration Day».

Na interpretação inocente do leitor que escreveu para o diário O PAÍS, a Oposição angolana terá ido conspirar a Washington e, de acordo com «conversas escutadas da boca de um vizinho», quer o líder da Unita (Isaías Samakuva), quer o líder da CASA-CE (Abel Chivukuvuku), terão feito um pedido expresso a Donald Trump para bombardear Angola e apear o MPLA do poder.

Está visto, se Trump não se apressa a dizer o que quer fazer com África, a narrativa fantasiosa ficará sem limite à vista.

Nota do Director

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