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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

As mentiras do bilionário

Mendo Henriques
Professor na Universidade Católica Portuguesa

As mentiras de Trump

O que era improvável, vai acontecendo. Devido ao populismo.

Donald Trump é um exemplo do populismo ocidental. As suas falhas decorrem da sua falta de princípios. O problema não é ser agressivo, mas escolher amigos e inimigos de modo infantil sem qualquer sentido de interesse nacional. Se diz bem de mim, afirmou Trump sobre Putin direi bem dele.

Trump tem quatro bandeiras

  1. No comércio internacional seguirá o americanismo e não o globalismo;
  2. Quanto a Estrangeiros, Imigrantes e Muçulmanos diz que no primeiro dia, expulsará os imigrantes criminosos;
  3. Quer legalizar a posse de armas para diminuir o risco de ataques terroristas;
  4. Quer a redução de impostos para aumentar o investimento.

No seu discurso saudosista, Trump culpa a globalização como origem dos males americanas. Por estranho que pareça, um discurso coincidente com o do perfeito idiota latino-americano; julgar que a esfera nacional é controlada por decisões estatais.

1. Americanismo e não o globalismo

A primeira mentira do bilionário resulta de não entender que o capitalismo tem uma escala global de operações. Isolar-se é ignorar as cadeias globais de valor que alimentam os fluxos de comércio e capitais e o desenvolvimento. A maior parte do valor criado por produtos não reside na produção mas nos serviços e aplicativos.

As políticas protecionistas produziriam efeitos perversos. Trump mente quando diz que a Ford e a Apple trarão as fábricas de regresso à América. Nada disso sucederá. O chamado “gráfico da curva sorriso” mostra como o valor agregado das transações não reside na produção dos bens mas no processo de pesquisa, desenvolvimento, publicidade, gestão de marca, serviços.

2. Expulsará os imigrantes criminosos

Numa nação que sempre se orgulhou dos imigrantes, é obra dizer como Trump, expulsarei os imigrantes ilegais, manipulando o clima actual de medo e insegurança, provocado pelos ataques do EI na Europa e pelas ameaças aos EUA

A mentira do bilionário é que quem entra ilegalmente nos EUA não é terrorista nem bandido, mas busca uma vida melhor. Gente que fica com trabalhos não qualificados e subempregos pois sabe que americano médio tem melhor formação.

Segundo a Business Insider, os estrangeiros nos EUA são empregadas domésticas, trabalhadores rurais, caixeiros de lojas; nada disto ameaça a empregabilidade dos americanos. Expulsá-los, além de gerar caos social e escassez de mão de obra, retiraria 7 milhões de contribuintes e consumidores. Além disso os imigrantes cometem menos crimes do que os locais.

3. Legalizar a posse de armas

Ao comentar atentados terroristas, Trump refere que, caso houvesse civis armados a história seria diferente. É mentira. Em média morrem mais de 10 mil pessoas nos EUA por ano, devido a armas de fogo. Uns concluem que o porte de armas permitira a autodefesa.

Mas os estudos mostram não haver relação directa entre armas em circulação e a incidência de homicídios cometidos com armas. É a conclusão da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NAS), de 2002, após rever centenas de estudos. E atenção: a taxa de homicídios nos EUA é 4x superior à média dos países com elevado índice de IDH.

4. Redução de impostos

Trump defende a baixa de impostos, a fim de libertar capitais e recursos para a poupança e investimento mas nunca se refere a como diminuir os gastos federais.

O seu plano é reduzir impostos sobre a classe mais rica e os mais pobres. Abaixo de 25.000 dólares anuais, haverá isenções. As grandes empresas baixarão para 15% e as multinacionais poderão repatriar os lucros a uma taxa de apenas 10%.

Mas e o orçamento? A diminuição dos tributos aumentará o déficit fiscal e o endividamento do país e reduzirá recursos para cumprir promessas. Com uma dívida de US$14 triliões, equivalente a 100% do PIB americano, a estratégia não parece boa.

Trump mente ao afirmar que a redução de impostos aumentará investimentos e o crescimento. Políticas de redução de taxas sem redução de gastos do governo aumentam o déficit federal, reduzem a poupança interna, aumentam a taxa de juros, e acabam por reduzir o investimento potencial. Perde-se o efeito positivo do corte: o aumento de incentivos para empreender, produzir e poupar. Em resumo: não há evidências de que a redução de impostos traga benefícios ao crescimento económico.

Mas que dizer do crescente apoio a Donald Trump por parte do eleitorado americano? Será que Trump representa os ideais do americano médio? Os americanos acreditam nas suas entradas à cowboy? A história responderá se será eleito mas desde já é preocupante.

Trump explora a seu bel-prazer a ignorância da grande massa americana. Os dados são implacáveis e os estudos contrariam-no. Mas ele soma e segue. Que tragédia no país com tantos Prémios Nóbeis e universidades de excelência.

Os americanos já tiveram presidentes tão mal qualificados como Trump, e sobreviveram. Mas Donald Trump é uma ameaça e a falta de qualidade de Hillary Clinton está a tornar possível o impensável.

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores e não reflectem necessariamente os pontos de vista da Redacção ou do Jornal.

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