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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

Trumps em marcha…

António Garcia Pereira
Advogado, especialista em Direito do Trabalho e Professor Universitário

Muro entre Estados Unidos e o México

Estados Unidos e o México

Exactamente 27 anos depois, os americanos escolheram um Presidente que supostamente para combater a imigração ilegal prometeu erguer um muro entre os Estados Unidos e o México…

As eleições presidenciais americanas sempre foram uma farsa pois que, como se tem visto e revisto, “democratas” e “republicanos” da mesma massa são feitos, o voto dito popular é num colégio eleitoral onde até o candidato com menos votos (como já sucedera com Bush e voltou agora a verificar-se com Trump) pode afinal ganhar a eleição e em cuja campanha apenas os representantes dos grandes interesses económicos e financeiros são admitidos a participar.

Ilusões nos “democratas”

É assim um erro alimentar qualquer tipo de ilusões nos “democratas” americanos que, aliás, já se apressaram a proclamar, pela boca quer de Obama quer de Hillary Clinton, que agora é hora de se unirem em torno de Trump, tendo-lhe mesmo prometido todo o apoio.

Por isso, qualquer que fosse o resultado destas eleições, a política imperialista e militarista, a nível externo, e a política anti-popular de exclusão social, de racismo e de sacrifício, de doença e de fome para quem é pobre e de defesa de quem é rico e poderoso, sempre se iriam manter e até intensificar.

Mas tão ou mais errado do que alimentar quaisquer ilusões a tal respeito, é pretender ignorar as circunstâncias que permitiram a um multimilionário racista, xenófobo, arrogante, defensor do terrorismo de Estado e da perseguição pidesca e militar a todos quantos coloca o labéu de inimigo, ganhar estas eleições no auge de uma campanha propositadamente feita de insultos, de manipulações, de aleivosias, de mentiras e de apelos directos aos mais baixos e primários dos sentimentos.

Mais de 59 milhões de votos

Trump foi eleito com mais de 59 milhões de votos, seguramente não apenas da alta e da média burguesia, mas também de trabalhadores e de uma larga fatia dos 45 milhões de americanos que estão abaixo do limiar mínimo de pobreza (fixado nos EUA em 1.000 dólares por mês) e dos desempregados, profundamente desiludidos, desconfiados e revoltados com os dirigentes políticos tradicionais, as suas elites, as suas dinastias, e a sua corrupção e a sua podridão.

Precisamente nestes períodos de maior crise social e política e quando as forças que se dizem progressistas traem e abandonam, em nome do “pragmatismo” e da “modernidade” (como tem sucedido com os partidos ditos socialistas de toda a Europa), aqueles que foram sempre os ideais da Esquerda, transformando-se em forças, partidos e dirigentes em tudo idênticos aos da Direita, é que se abre campo à demagogia e ao populismo mais reaccionários, agressivos e perigosos.

É, com efeito, nestes períodos de incerteza, de insegurança com o futuro, de revolta pela fome, pela miséria e pelo desemprego, de profundo desagrado pelo sistemático incumprimento das promessas, eleitorais e outras, pela desonestidade e pela mentira em que esses dirigentes políticos (a começar pelos tais que se dizem de esquerda como Françoise Hollande) se tornaram exímios, que, prometendo muito e manipulando e mentindo ainda mais, vociferando “contra o sistema” e prometendo uma “nova ordem”, surgem e frequentemente são levados ao colo até ao poder, os “salvadores da Pátria”.

“Grandeza da Nação”

E desvalorizar o que a experiência da História já nos ensinou e pretender ignorar que foi sempre assim, e com o abandono dos princípios e da luta por eles e o tornar-se natural a sua substituição pela mentira, pela infâmia e pelo insulto, que os nacionalismos mais serôdios surgiram, que os apelos à “grandeza da Nação” se multiplicaram e que os ditadores mais violentos ascenderam ao poder, é afinal, e queira-se ou não reconhecê-lo, estar a abrir-lhes as portas.

Não é, pois, a derrota de Hilary Clinton que importa pois que ela representa precisamente o establishment e a continuação da mesma política interna e externa americana de Bush a Obama. Mas sim aquilo que a vitória de Trump e a forma como lá chegou verdadeiramente significam.

E para quem ainda tenha dúvidas, atente-se, aqui em plena Europa, no que já sucedeu, por exemplo, na Áustria e na Hungria. E também nas eleições presidenciais francesas que se aproximam e naquilo a que nelas vamos decerto assistir com a vergonhosa traição de Hollande a todos quantos nele votaram acreditando ser uma alternativa à política de Direita e terrorista de Sarkozy, a inexistência de uma verdadeira esquerda capaz de fazer essa denúncia, de sacudir o jugo germânico e de exigir a saída do euro, e o aproveitamento, hábil e manipulador, de toda a crise política, social e económica que se vive presentemente em França pelo (ou melhor, pela) Trump Gaulesa…

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