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João de Sousa

Domingo, Agosto 14, 2022

Um faia do Bairro Alto na política suíça

Desde Junho presidente do Conselho Municipal de Genebra, Carlos Medeiros é o primeiro português que chegou a um cargo político tão elevado na Suíça.

Este lisboeta, nado e criado no Bairro Alto, é hoje um empresário de sucesso e uma das figuras de primeiro plano do segundo maior partido do cantão de Genebra. Passados 28 anos desde que emigrou para a Suíça, chegou a Lisboa esta sexta-feira dia 6 de Maio para uma visita oficial.

Irreverente e controverso, os seus adversários políticos não lhe poupam críticas.

Nesta entrevista responde às principais acusações. Sempre com o gosto pela polémica que levou das ruas alfacinhas para Genebra.

Jornal Tornado/Nelson Pereira – Ao assumir em Julho a presidência do Conselho Municipal de Genebra, tornou-se o primeiro português a ocupar uma posição política desta importância na Suíça. Esta visita oficial a Lisboa tem para si algum peso simbólico?

Carlos_MedeirosCarlos Medeiros – Tem piada que o lisboeta que chegou há 28 anos à Suíça com uns trocos no bolso tenha conseguido construir uma estrutura empresarial, tenha chegado a um cargo político elevado no país de emigração e seja agora recebido nos Paços do Concelho de Lisboa como presidente do Conselho Municipal de Genebra. Sim, este momento tem para mim um valor simbólico.

Qual foi o seu percurso político?

O facto de ter chegado a este posto político, o mais alto a que um português chegou na Suíça, resulta de um percurso lógico, depois de dez anos de combate político.

Cheguei à Suíça em 1987, na grande onda de emigração que trouxe muitos outros portugueses nos anos 80. O interesse pela política nasceu em Portugal, fui muito activo na associação de estudantes do Liceu Passos Manuel.

Atraiu-me sempre o debate de ideias e em 2008 acabei por me inscrever num partido com o qual me identificava e que tinha sido fundado três anos antes, o Movimento de Cidadãos Genebrinos. O MCG é um partido de raiz local que dá prioridade aos residentes. Aos residentes, não aos cidadãos suíços, como defende o UDC (União Democrática do Centro), que é um partido de direita.

O MCG é apontado por vezes como uma formação de direita radical.

Aparecemos na mesma altura do Jörg Haider na Áustria e houve quem pensasse que éramos de extrema direita. Não é verdade. É certo que um partido que aparece fora do establishment atrai sempre alguns loucos e tenho tido sempre muito cuidado em afastar esse tipo de pessoas.

Quando entrei na política activa em 2008, virei-me para a direcção do partido e disse-lhes que nunca pactuarei com extremistas e neo-nazis.

Conseguiu a presidência do Conselho Municipal sob fogo cerrado dos socialistas, que se esforçaram para tentar impedir a nomeação. Porquê toda aquela emoção?

Tem muito a ver com a minha personalidade. Sou um tipo simpático, mas tenho uma postura política agressiva, gosto de provocar. Aqueles que me conhecem sabem que não passa disso. A minha forma de estar choca uma certa sociedade suíça um pouco quadrada, muito formal.

Sou também um dos poucos políticos que sai à noite, gosto de fazer a festa, sempre fui assim, sou um lisboeta do Bairro Alto, cresci nas Mercês, à Praça das Flores.

A sua ascensão política significa que a comunidade portuguesa, que se tem mantido afastada dos destinos da cidade, começa a envolver-se na política?

Continua a ser um grande problema. Temos na população residente portuguesa cerca de 40 mil pessoas, mais de trinta mil delas habilitadas a participar nos actos eleitorais, mas somos a comunidade estrangeira com a maior taxa de abstenção.

Em termos associativos há muita divisão, o português continua muito marcado pelo “cada um por si”. O português chegou aqui com planos de regressar a Portugal pouco tempo depois, mas acabou por ficar e permaneceu à margem.

E a geração que nasceu e cresceu aqui?

Há três ou quatro jovens nascidos na Suíça que estão na actividade política, mas continua a ser um número muito pequeno. A comunidade portuguesa permanece isolada, dispersa por várias associações que se fecham sobre elas próprias. Digo sempre que sou um português integrado na Suíça e não um assimilado, não perdi as minhas origens, mas não me isolo dos suíços. Quero que os meus filhos mantenham a ligação às origens, mas não que se fechem num cantinho.

O português não quer ficar a dever nada a ninguém, nem sequer pede ajuda para resolver situações difíceis, enquanto outras comunidades procuram os apoios que o sistema lhes oferece.

É acusado de homofóbico, há quem lhe aponte tendências racistas e xenófobas e até nostalgia salazarista. Que tem a dizer destas acusações?

É falso. Não tenho nada a ver com homofobia, tenho grandes amigos gays, inclusivamente no campo político, até noutros partidos. No MCG havia quem pensasse assim, mas um deles até foi expulso.

E também não sou racista. A acusação de racismo apareceu depois de num “post” no Facebook eu ter criticado os ciganos romenos depois ter sido descoberto que havia alguns que fingiam ser deficientes físicos para mendigar na rua, comentei uma foto que mostrava alguém que atravessava depois a rua com as muletas debaixo do braço. Não tenho nada contra ciganos – quando era escuteiro em Portugal, levávamos crianças ciganas à praia no Verão, não tenho nenhum sentimento negativo contra outras raças.

Não aceito é aquilo que mostrava uma reportagem do canal Arte, uma cidade de palacetes na Roménia onde vai parar o dinheiro conseguido por métodos enganadores em cidades como Genebra.

E Salazar?

Quanto à alegada nostalgia por Salazar, as minhas palavras foram tiradas do contexto. Acusaram-me disso depois de eu ter dito que em todos os sistemas totalitaristas, sejam de direita ou de esquerda, podemos encontrar coisas boas. O que disse é que no tempo da ditadura em Portugal a minha família de operários (o meu pai trabalhava na Câmara de Lisboa a varrer as ruas) tinha acesso a actividades como o hipismo.

Dizer que nos sistemas totalitários, como nalguns países comunistas, podem existir aspectos favoráveis às camadas mais desfavorecidas, não quer dizer que sou um salazarista, porque também já disse que a ditadura deixou Portugal com um atraso de 30 anos em relação ao resto da Europa.

Não defendi as ideias políticas de Salazar, disse apenas que esse aspecto social me permitiu ter acesso a actividades que noutro sistema me seriam inacessíveis.

Fala de políticas de sensibilidade social. Considera-se afinal um político de direita ou não?

Não hesito nunca em votar com a esquerda em certas questões sociais. Já me têm perguntado no partido “Agora és de esquerda?”. Apoiei a ideia de um subsídio de entrada escolar, apesar de saber que era uma proposta eleitoralista, a quatro meses das eleições.

Porquê? Porque o meu filho está numa escola pública e sei bem que há famílias que não conseguem pagar aos filhos uma merenda diária para além de uma fatia de pão com manteiga.

Não me esqueço de onde venho. Tenho uma sensibilidade social e insisto que o Estado tem que assumir um papel de árbitro que é muito importante. Critiquei a ideia do salário mínimo nacional, porque vi as consequências negativas em França, mas disse sempre que sou a favor de acordos sectoriais entre os parceiros sociais.

Inscrevi-me pela primeira vez no sindicato, no SIT (Sindicato Interprofissional dos Trabalhadores) em 1987, quando era delegado de hotelaria. Quando me lancei nos negócios em 1992, comecei a pagar quotas na federação do patronato e continuei a pagar quotas no sindicato.

Fui membro dos dois por mais de vinte anos, até ser expulso do sindicato por pertencer a um partido que era contra a Internacional dos Trabalhadores. Uma decisão absurda que foi até criticada por políticos de esquerda na altura.

Defende o controle do Estado ou o capitalismo?

O capitalismo selvagem? Nunca! Sou por uma sociedade que dê oportunidades à classe média mas onde o Estado tenha um papel fundamental. Eu votei na cidade de Genebra por um subsídio ao cinema independente. Tive algumas dúvidas até que o vice-presidente de uma associação de cineastas independentes me disse que sem esse subsídio o cinema independente suíço não consegue fazer face ao domínio dos Blockbusters americanos.

É claro que a cultura, a saúde e a educação não podem ser vistas como uma actividade de mercado. Sou contra um capitalismo selvagem à americana.

Não podemos é, por outro lado, distribuir subsídios a toda a gente como entendem aqueles que agora querem organizar um referendo para atribuir um salário mínimo a toda a gente.

Sou pela meritocracia, a mim ninguém me deu nada, comecei pela autorização de residência mais limitada, que não autorizava o reagrupamento familiar, estive como os outros numa fila de pé na rua com dez graus negativos para fazer radiografias de rastreio da tuberculose. Conheço tudo isso.

Há quem no meio associativo português o critique por não ter apoiado a ideia do ensino do português no currículo escolar.

Houve de facto associações portuguesas que queriam o ensino da língua portuguesa como opção no ciclo. Diziam que os portugueses têm direito porque somos 10% da população, mas esqueciam que vivemos num cantão onde 49% da população é de origem estrangeira e a seguir viriam os da Turquia ou da Albânia pedir o mesmo.

Como é que pagaríamos a professores se temos uma dívida de 13 mil milhões. Esquecem que eu sou deputado suíço, não sou deputado português. Assumo a minha naturalização suíça, fui eleito num sistema de eleição nominal para assumir responsabilidades na Suíça.

E quanto à imigração que hoje procura trabalho na Suíça?

Defendo a imigração escolhida. Quando cheguei aqui em 1987 havia 2,7% de desemprego, o que é um índice normal de desemprego estrutural. Hoje é de 5,8%, temos 20 mil pessoas sem trabalho. Defendo prioritariamente aqueles que já cá estão.

Não posso esquecer aqueles que tiveram sempre o mesmo emprego, por exemplo na construção civil, e que agora não conseguem encontrar trabalho, um problema muito presente na comunidade portuguesa, por exemplo.

Os franceses fronteiriços tornaram-se um problema sério porque assinámos acordos mal negociados que definiram um limite de 185 mil pessoas por ano vindas da comunidade europeia, mas que não incluíam os fronteiriços, que passaram de 20 mil a 85 mil.

Em vez de empregarmos uma secretária fronteiriça com cursos superiores e várias línguas, paguemos o mesmo a uma secretária residente. Há que dar prioridade àqueles que pagam os alugueres e os seguros de saúde aqui.

Anunciou que vai deixar o cargo no conselho municipal em 2016. Prepara-se para abandonar a actividade política?

Carlos Medeiros3Actualmente sou deputado e conselheiro municipal. Cheguei ao topo da carreira no Conselho Municipal e não me vejo a voltar à arena para combater. A minha actividade profissional é muito exigente e não posso esquecer a vida familiar e os dois filhos. Há semanas onde passo mais horas no Conselho Municipal do que em casa.

O meu objectivo é deixar o Conselho Municipal no final de 2016 e ficar como deputado até 2018. Onde vejo o meu futuro é na actividade empresarial.

Quais são as prioridades neste mandato?

Temos uma dívida de 13 mil milhões, a caixa pública das reformas está com um buraco de 500 milhões de francos por ano e uma dívida que atinge os sete mil milhões.

Temos problemas sociais, problemas estruturais, temos um grupo etário entre os 50 e os 55 que não consegue entrar no mercado de trabalho, temos uma dívida elevadíssima em termos de prestações sociais.

Hoje é necessária uma reflexão de fundo sobre uma sociedade que começa a desenvolver-se a várias velocidades. Quando cheguei aqui há 28 anos apostava-se na defesa do bem comum, mas entristece-me que hoje seja mais “cada um por si”.

Eu hoje vivo muito bem, mas conheço gente aqui perto que vive muito mal. Os idosos que não tiveram direito à segunda fase das reformas começam a ser os nossos pobres, viver nesta cidade com 1700 francos não é fácil.

Qual a sua opinião sobre a política portuguesa?

Nós portugueses temos o defeito de vistas curtas, somos demasiado individualistas. Quando os suíços votam contra o salário mínimo e contra uma semana mais de férias, é porque fazem passar a colectividade à frente das vantagens pessoais imediatas.

Não gosto de ver a classe política portuguesa dividir o país ao serviço de interesses privados. Os políticos em Portugal são todos iguais, há uma corrupção escandalosa, ninguém pensa no bem comum e quem paga o preço é o cidadão comum que não tem poderes para se defender.

Quando vejo os políticos a tirarem 50 euros aos reformados enquanto se passeiam em grandes carros, fico revoltado. Quem paga a factura são sempre aqueles que estão em baixo.

Para além disto, perdemos um instrumento de regulação muito importante que era a moeda nacional o que nos fez perder competitividade e fez crescer o desemprego.

Quem ganha com a UE é a Alemanha, os países economicamente mais fortes impingiram aos restantes uma utopia que na realidade é apenas um aparelho burocrático. Caímos na armadilha económica da globalização.

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