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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Um sonho chamado Tunísia

Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

Recep Erdogan, o Presidente turco e o seu colega tunisino Kaïs Saïed falaram sobre a questão da Líbia na quarta-feira, dia 25 de dezembro, durante uma visita surpresa do líder turco a Tunis.

A Turquia

Recep Erdogan, o Presidente turco e o seu colega tunisino Kaïs Saïed falaram sobre a questão da Líbia na quarta-feira, dia 25 de dezembro, durante uma visita surpresa do líder turco a Tunis.

Visita de Natal.

Sem renas.

A Tunísia, onde o estado de emergência está em vigor desde 2015, e é regularmente renovado, nunca colocou de lado a ameaça terrorista vinda de leste, oeste ou do sul. Atos terroristas perpetrados desde 2012 visam principalmente a polícia, considerada pelos extremistas como taghouts, um termo do Alcorão que designa qualquer outro poder que não seja o de Allah e portanto abarca os tiranos.

O novo presidente da Tunísia, Kaïs Saïed, licenciado em Direito, professor reformado da Universidade de Tunis, eleito em 23 de outubro de 2019, lançou uma iniciativa de diálogo entre as tribos da Líbia para trabalhar pela reconciliação com seu vizinho, que ainda é propenso a confrontos violentos. Kaïs Saïed promete ser neutro na relação com os seus interlocutores e confiar na legitimidade popular e começou a mostrar seu envolvimento na crise da Líbia, e talvez seja um bom diplomata. Declara-se conservador mas sabe-se pouco sobre o seu programa de ação neste momento tão delicado para o país.

Recep Erdogan com Kaïs Saïed

 A Líbia, vizinha e parceira essencial para a Tunísia mantém-se em guerra civil desde 2011, desde o ataque da coligação internacional que transformou o país num caos.

A vida na Líbia tornou-se um inferno onde a população passou a ser joguete dos interesses dos senhores da guerra e das potências que os apoiam.

O povo líbio deixou de ter voz.

A violência aumentou com a ofensiva contra Trípoli do marechal Haftar e suas tropas do Exército Nacional da Líbia (ANL), em abril de 2019, que teve uma atividade renovada nas últimas semanas.

Entretanto na Líbia forças militares leais ao governo de unidade nacional da Líbia (GNA), com sede em Trípoli, invadiram a 27 de Julho uma base aérea no centro do país, controlada pelas forças do marechal Khalifa Haftar.

“A força aérea atacou uma reunião de mercenários na base de al-Joufra, destruindo um hangar de drones pertencente a um país hostil”, declarou um militar no terreno sem divulgar qual o país hostil.

Ambos os campos rivais na Líbia se acusam mutuamente de usar mercenários estrangeiros e se beneficiar do apoio militar de potências estrangeiras.

A Tunísia, quer queira quer não está impossibilitada de ignorar o conflito, é vitalmente obrigada a reforçar a segurança da sua fronteira leste, que é também um refúgio para os civis líbios.

Ou ainda, e sobretudo uma base para os atores internacionais envolvidos.

A ajuda internacional é justificada pelas sucessivas ações terroristas que tiveram lugar na Tunísia nos últimos anos.

Ataques terroristas

Em Março de 2015 dois homens armados atacaram turistas estrangeiros junto ao museu Bardo no centro de Tunis, perto da Assembleia Nacional. Mais de 20 mortos, dezenas de feridos.

Em Novembro de 2015 houve uma explosão num autocarro da guarda presidencial em Tunis com mais de 12 mortos.

Em 22 de Março de 2016 grande ataque a Ben Guerdane, a cidade mais longe do centro do país, a apenas 32 km da fronteira com a Líbia. 60.000 habitantes . A cidade é a capital do contrabando e do tráfico de moeda. Em Março de 2016 ouvem-se explosões de armas automáticas.O quartel militar, os postos de polícia e da Guarda Nacional foram invadidos por cinquenta a cem jihadistas. As ruelas labirínticas da pequena cidade são ocupadas por grupos de apoiantes do “Emirado Islâmico” – é assim que eles se apresentavamm a quem encontravam. Com megafones, convidavam a população à insurreição contra a polícia e guardas da fronteira. Instalam barricadas para controlar a população. Esta ação terrorista trás consigo a noção de que a Tunísia está sob ataque.

Em Julho de 2018 a passagem da fronteira de Ghardimaou, no noroeste da província de Jendouba, zona de fronteira com a Argélia houve um ataque terrorista com seis mortos da Guarda Nacional da Tunísia.

A capital Tunis foi abalada em 27 de junho de 2019 por um duplo ataque terrorista que matou um membro da polícia. O duplo ataque foi reivindicado pela organização terrorista do Daeshe o estado de emergência foi mais uma vez prolongado.

Estados Unidos

Entre a Tunísia e os Estados Unidos, as relações económicas e de segurança continuam a fortalecer-se. O orçamento americano dedicado às forças policiais e militares da Tunísia, em particular, vem crescendo desde 2014.

Recebido no final de janeiro de 2017 pelo ministro das Relações Exteriores da Tunísia, Khemaies Jhinaoui, embaixador americano na Tunísia Daniel Rubinstein, tranquilizou o país na continuação da cooperação bilateral. E isso alguns dias após a posse do novo presidente Donald Trump.

De 2014 a 2017 a ajuda americana tinha triplicado para “apoiar a estabilidade e a segurança na Tunísia e proteger as fronteiras da Tunísia de acordo com as normas direito internacional dos direitos humanos.”

Os USA ajudam a Tunísia financeiramente e fornecem material ao exército tunisino,por ex jeeps, aviões ligeiros Maule, sistemas de comunicação, dois navios para gestão e controle da emigração ilegal pelo Mar Mediterrâneo, treino e ajuda no combate ao terrorismo, remoção de minas e outras operações relacionadas.

Ajuda no controle de drogas e assistência policial.

A França

 

O Presidente Macron visitou a Tunísia em Fevereiro de 2018.

A cooperação em matéria de defesa entre as forças armadas francesa e tunisina, aumentou após os ataques de 2015 e foi assinada uma carta de intenções para a luta a longo prazo contra o terrorismo. Em 2019, dentro desta cooperação, que tem mais de 200 ações anuais, são prioridade: a das Forças Especiais e os Serviços de Informação.. Treino de especialistas nessas áreas. A próxima comissão militar conjunta ocorrerá no final de 2019 na Tunísia. Os fuzileiros franceses e tunisinos realizam um exercício bilateral anual. A cooperação franco-tunisina na defesa também implica o envolvimento em mecanismos multilaterais, como no G7 + 7, dos quais a França assumiu a presidência em 2019. É um mecanismo de cooperação que visa coordenar esforços da comunidade internacional para ajudar a Tunísia a enfrentar seus desafios de segurança.

Todos ao burro e o burro no chão.

Um regime autoritário presidido por Ben Ali reinou e eternizou-se na Tunísia. Reinou de 1987 a 2011.

Quando Ben Ali se viu forçado a partir para a Arábia Saudita, muitos pensaram que a Tunísia seguiria evoluindo para um regime político democrático com crescimento económico impulsionado pelo liberalismo.

Mas a Tunísia não estava tão democraticamente madura como muitos quiseram acreditar e a democracia não foi estabelecida. Não houve guerra civil, nem ajustes de contas sangrentos, tudo isso apesar da guerra na Líbia, país vizinho com uma fronteira esburacada como peneira velha. Já não foi mau, mas os >Tunisinos devem ter ficado com água na boca!

A ideia de que a democracia seria estabelecida com o fim dos Ben Ali, dos Kadafi, dos Mubarak, dos Bashar, mudou_tal é a análise de Michaël Ayari, um dos mais cotados analistas da situação movediça da Tunísia. A ideia esboroou-se.

O país já não tem um regime autoritário, mas a nível económico e social, há tanto de resistência passiva como de inércia. A dúvida paira sobre o futuro.

Na ausência de programas bem definidos e de ideias que agreguem a vontade coletiva fica apenas o desejo, a aspiração de alguma justiça social, algumas medidas que corrijam o desemprego maciço das camadas jovens da população, algumas reformas que ultrapassem a fraqueza do estado central e que permitam ao cidadão ter a ilusão e mantenham o sonho de uma Tunísia a caminho do futuro.

Os governos e governantes amigos estrangeiros que visitam a Tunísia para aconselhar e vender o seu melhor material de vigilância e defesa nunca serão capazes de lhe trazerem um futuro melhor. A corrupção e os corruptos vão regalar-se.

Como disse o diretor do Magazine de l’Afrique, Hichem Ben Aiche, numa entrevista ao France 24, a 10 de Setembro, antes das eleições presidenciais: Eleição presidencial na Tunísia: 26 candidatos? “O país está em uma descida ao inferno”.

NOTA: No total, segundo a Comissão Europeia, entre 2011 e 2016, o “apoio à Tunísia”, incluindo as intervenções do Banco Europeu de Investimento (BEI), atingiu “cerca de 3,5 biliões de euros”.

Onde estarão?


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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