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Sexta-feira, Junho 14, 2024

“Uma Carta Rumo a Gales”, de Juan Manuel Roca

Nascido em Medelín, Colômbia, em 1946, Juan Manuel Roca foi agraciado com inúmeros prêmios e reconhecido pela crítica. É considerado um dos poetas mais importantes da América Latina. Sua poesia tem uma forte marca de empenho social, embora seja sempre atravessada de um lirismo que gera imagens insólitas e alcança expressividade universal para além da retórica política.O poema Uma Carta Rumo a Gales integra o livro País Secreto, de 1987. Nele, o poeta utiliza o gênero carta e aproveita-se do seu caráter intimista para dar a ver as contradições constitutivas da experiência nacional colombiana, através da construção de imagens que fogem tanto do nacionalismo pitoresco quanto da crítica inconsequente. A marca do trabalho explorado, sutilmente distingue a relação do local com o universal e exprime a radicalidade política do belíssimo texto, ainda inédito no Brasil.

A tradução é do poeta Alexandre Pilati, professor de Literatura da Universidade Brasília (UNB). Confira.

Uma Carta Rumo a Gales

por Juan Manuel Roca

Me perguntas, doce senhora,
O que vejo hoje deste lado do mar.
Habitam-me as ruas deste país
Desconhecido por ti,
Estas ruas onde passear é fazer
Uma viagem pela chaga,
Onde vagar na claridade
É encher os olhos de vendas e murmúrios.

Me perguntas
O que sinto hoje deste lado do mar.
Um formigar no corpo,
A luz de um manicômio
Que chega serena para tratar
As mais profundas feridas
Nascidas de um povoado de dias incolores.

E o sol?
O sol, um velho drogado que lambeu essas feridas.
Porque sabes, doce senhora,
Este país é uma confusão de ruas e de feridas.

Declaro-te:
Aqui há palmeiras cantoras
Mas também há homens torturados.

Aqui há céus completamente nus
E mulheres curvadas ao pedal da Singer
Que poderiam chegar em seu louco pedalar
Até Java e Bordeaux,
Até o Nepal e o teu povoado em Gales,
Onde suponho que bebia sombras
Teu querido Dylan Thomas.

As mulheres deste país são capazes
De pregar um botão no vento,
De vesti-lo de organista.

Aqui crescem juntas a raiva e as orquídeas,
Não entendes o que seja um país
Como um velho animal conservado
Nos mais variados álcoois,
Não entendes o que é viver
Entre luas de ontem, mortos e despojos.


A tradução de português do Brasil é do poeta Alexandre Pilati, professor de Literatura da Universidade Brasília (UNB)

Exclusivo Editorial PV / Tornado


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