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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

Vaias ao Papa Vivas ao Papa

NINM
Colaboração do Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos do Humanismo e de Reflexão para a Paz (integrado na área de Ciência das Religiões da U.L.H.T.)

Talvez tenha sido sempre esta a ideia do papa Francisco ao optar por um pontificado pedagógico e assertivo: que se clarificassem os campos. Que se percebesse quais são os dois campos em que a Humanidade de divide – para que um deles, subjugado, pudesse criar novas defesas perante aquele que o oprime.        Se foi esta a ideia, Francisco está a chegar a um ponto climático onde os seus opositores perdem a vergonha e o apontam a dedo; e os seus apoiantes se reforçam nas suas palavras e atitudes.

Quando olhamos para cada um dos passos dados por Francisco, temos fecunda matéria de análise e reflexão.

Não será este, ainda, o Papa das grandes transformações da pesada instituição que é a Igreja Católica, mas é um líder intenso, mais apostada em reformar pouco a hierarquia e mais determinado em sugerir reformas às mentalidades dos fiéis – sabendo que sem os fiéis não há hierarquia que resista.

Apenas há algumas horas, Francisco desafiava os jovens católicos a superar «tentações da ideologia e do fatalismo» na mensagem para o Dia Mundial das Vocações 2018, ano em que a Igreja vai dedicar uma assembleia do Sínodo dos Bispos às novas gerações. Isto porque sendo homem culto e avisado, sabe que são as utopias as formas mais intensas de vencer as ideologias – e, ao criarem esperança, são elas ainda as mais eficazes opções para combater o fatalismo.

Neste pontificado, a viagem recente a Myanmar veio indignar os seus opositores – e os nacionalistas locais. Veio mostrar o lado diplomático de Francisco, também. É que o Papa falou dos refugiados da minoria étnica ‘Rohingya’ , mas apenas depois de sair do país! E incendiou os mais críticos.

Francisco reuniu-se com um grupo de 16 membros da minoria Rohingya, que vivem nos campos de refugiados da província de Cox’s Bazar no Bangladesh, país onde estão após terem fugido da perseguição que sofrem na Birmânia (atualmente Myanmar). Referiu-se então aos refugiados como ‘Rohingya’ — um termo inaceitável para muitos em Myanmar, onde são vistos como imigrantes ilegais bengali (um grupo étnico de Bengala, um território dividido entre a Índia e Bangladesh) e não como um grupo étnico distinto.

Foi um ato político, corajoso. E necessário perante o que se tem passado em Myanmar cuja história devia ter ensinado mais em matéria de humanismo e de solidariedade, já que o País passou por perseguições políticas insuportáveis (antes e depois da ocupação japonesa do território, antes e depois da independência do Reino Unido, em 1948).  Que o diga Aung San Suu Kyi, ela é a primeiro-ministro desde março de 2016, Prémio Nobel da Paz em 1991 e secretária-geral da Liga Nacional pela Democracia (LND) – e que sofreu todo o tipo de descriminações durante a sua vida (viveu por exemplo 15 anos em prisão domiciliária).

Mais de 620 mil Rohingya fugiram do estado de Rakhine nos últimos três meses para escaparem a perseguições – perseguições que as Nações Unidas consideram “limpeza étnica”.

Por entre as vaias a Francisco, ouvem-se por isso, os vivas a Francisco! São os dois lados de um mundo de diferenças.

Por opção do autor, este artigo respeita o AO90

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