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Quarta-feira, Outubro 5, 2022

Vantagens da globalização da cobiça

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

As exportações de equipamento médico feitas pelos EUA antes de 17 de março de 2020.

Os EUA, ou seja a administração Trump, não fez o planeamento da crise que a epidemia por corona vírus iria provocar. Sendo um país sem serviço nacional da saúde, onde quem adoece paga, o país estava mais do que exposto à falta de material básico para tratar o Covid 19 que, como todos sabemos agora, pode causar sintomas leves ou quase inaparentes, mas também pode causar febre elevada, dores musculares difusas, infeção pulmonar grave, insuficiência respiratória que requer o uso de ventiladores e por ultimo colapso das defesas imunitárias com morte. Já a pandemia grassava no outro lado do mundo e começava a espalhar-se pela Europa e ainda se mantinha a ausência de acordos entre companhias privadas e os serviços de Saúde americanos que deviam planear meios como camas de isolamento, quartos com pressão negativa, planos de contingência, e materiais necessários para fazer face à pandemia, material médico foi vendido e transportado de fabricantes americanos para o mercado externo.

A prova disso vem dos manifestos dos navios registados pelas Alfândegas e Proteção de Fronteiras dos EUA e analisados pela plataforma de informação The Intercept que mostram um fluxo constante do equipamento médico necessário para tratar o coronavírus, enviado para o exterior já em 17 de março.

Uma empresa de produtos de saúde da Pensilvânia que produz máquinas de oxigénio suplementares, chamada Drive DeVilbiss Healthcare, enviou pelo menos três remessas diferentes de equipamentos respiratórios para a Bélgica em meados de fevereiro e início de março. Uma carga cujo total incluiu 14 contentores pesando mais de 55 toneladas.

O governador da Pensilvânia, Tom Wolf, pediu à DeVilbiss no final de março para apoiar o aumento da produção de dispositivos médicos respiratórios da empresa. “A quantidade de material que nos pedem não tem precedentes”, disse Tim Walsh, vice-presidente da empresa, a uma estação de notícias local.

A Vapotherm, uma empresa de New Hampshire que produz equipamentos respiratórios, tem enfrentado uma demanda crescente de clientes internacionais. A empresa adicionou 50 funcionários e um segundo turno para atender à crescente demanda dos seus produtos. A WMUR, uma estação de notícias local, descreveu o papel da Vapotherm na produção de equipamentos respiratórios que salvam vidas, usados para tratar o coronavírus.

Durante o segmento, Joseph Army, executivo-chefe da Vapotherm, disse à emissora que ouviu pela primeira vez clientes da Europa e Ásia em resposta ao coronavírus. Os pedidos de material mudaram dos clientes internos habituais de Seattle, Nova York, Geórgia e Flórida para os clientes asiáticos.

Os registos das faturas confirmam as remessas internacionais. Em 8 de março, duas toneladas das unidades descartáveis alto fluxo de clientes da Vapotherm, usadas para a insuficiência respiratória, foram carregadas em contentores no porto de Los Angeles. Estes produtos foram enviados para Kobe, no Japão, para a Japan Medicalnext Co., um distribuidor de serviços de saúde.

Os registos mostram dezenas de outras remessas de equipamentos de respiração, roupas médicas, máscaras médicas, concentradores de oxigénio e ventiladores vendidos a países estrangeiros nos últimos dois meses.

Em 28 de fevereiro, um navio partiu de Nova York para Hamburgo, na Alemanha, com cerca de 1,5 toneladas de máscaras de ventilador fabricadas pela Allied Healthcare Products, uma empresa de produtos de saúde com sede em St. Louis. As máscaras são usadas para a unidade de ventilador portátil fabricado pela empresa.

Até termómetros e oxímetros de pulso, foram pedidos no início de janeiro, quando a pandemia ficou clara na China.

Muitos países agiram rapidamente para obter suprimentos para uma possível pandemia.

O Global Trade Alert informou que de 1 de janeiro a 11 de março, 24 países, incluindo Coreia do Sul e Alemanha, adotaram a proibição de exportar produtos vitais para a saúde, numa tentativa de aumentar a oferta doméstica.

Taiwan, que também proibiu a exportação de equipamentos médicos, conseguiu manter baixas taxas de infecção e morte em grande parte devido à sua detecção precoce do surto e à rápida implantação de suprimentos médicos e sanitários.

Mas o governo dos EUA não impôs restrições à exportação de equipamentos médicos, continuando a impor sanções financeiras à importação de equipamentos de proteção individual, óculos de proteção, oxímetros de pulso, desinfetante para as mãos e outros produtos médicos da China. O relatório dos investigadores do The Intercept é impressionante pela frieza e irracionalidade das decisões não tomadas pela administração de um país que imaginou que com biliões de dólares sanava uma crise que para estes políticos, sem visão humana, era apenas uma crise financeira.

Nunca parecem ter percebido que era uma crise causada por um vírus que atacava cidadãos comuns, sem saber quanto lhes valia a carteira de ações ou qual o nível de miséria debaixo da ponte em que vivem. Era um vírus democrático, que não desdenha de nenhum hospedeiro.

A atual crise de fornecimento foi precipitada por uma variedade de falhas de administração, desde cortes a programas internacionais para deteção e prevenção de doenças até uma recusa em mobilizar rapidamente equipamentos. Trump não declarou emergência nacional até 13 de março e o governo federal não começou a emitir grandes contratos federais para a compra de equipamentos de proteção individual, como o The Intercept muito atento, já tinha anteriormente relatado.

Morte, de Philippe Farault

Apesar das recomendações e pedidos múltiplos de autoridades de saúde pública (CDC, Atlanta) e legisladores, Trump agiu lentamente para implantar a Lei de Produção de Defesa, uma lei que permite ao governo federal obrigar empresas privadas a produzir equipamentos vitais.

Influentes grupos de pressão da Câmara de Comércio dos EUA, pressionaram o governo contra o uso da lei. Foi somente em 27 de março que Trump finalmente a utilizou para obrigar a General Motors a construir ventiladores a baixo custo.

O fracasso dos EUA em reconhecer o Covid-19 como um problema sério segue-se tristemente a anos de esforços para desmantelar programas federais projetados para manter a vigilância internacional de doenças. O governo Trump cortou 14 funcionários do escritório de Pequim dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA e fechou os programas da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional na China, que trabalhavam para monitorizar surtos de doenças nos últimos dois anos. Em 2018, Trump dissolveu o gabinete do Conselho de Segurança Nacional dedicado à preparação para uma pandemia.

A resposta desorganizada levou à duvida sobre se o governo dos EUA pode responder ao crescente pedido de material em todo o país. Os governadores relataram ter recebido muito pouco apoio quando pediram equipamentos ao governo federal.

Enquanto isso, a Agência Federal de Gestão de Emergências pediu à USAID que traga reservas de equipamentos médicos de proteção de armazéns em Dubai e Miami para uso em todo o país.

Outras questões de fornecimento refletem a reverência à indústria que chegou a definir muitos elementos do governo Trump.

Uma história recente do ProPublica destacou um esforço promissor para criar um stock de ventiladores para o caso de uma pandemia respiratória – que não conseguiu chegar a tempo da crise atual.

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA forneceu um contrato para desenvolver 10.000 ventiladores de baixo custo da Philips Respironics, uma subsidiária americana da Royal Philips N.V que produz equipamentos médicos para respiração. Mas o dispositivo, o Trilogy Evo Universal, nunca foi entregue ao stock nacional. Os termos do contrato não exigem entrega até novembro de 2022, e fontes do ProPublica sugerem que o governo concedeu uma janela preferencial à Philips que permitiu à empresa vender o produto primeiro a uma variedade de compradores a preços mais altos.

A subsidiária, segundo os registos do CBP, exportou pelo menos seis remessas de equipamento respiratório para o exterior, principalmente para a Europa, nos últimos dois meses. Em novembro passado, a empresa também enviou produtos associados à Trilogy Evo Universal para a Holanda.

Foi perguntado à empresa se esta se concentraria em atender ao pedido urgente nos EUA, mas a empresa-mãe da Philips emitiu o seguinte comunicado assinado por Steve Klink, porta-voz da Philips.

A Philips acredita que equipamentos médicos críticos, como ventiladores hospitalares e monitores de pacientes, devem ser disponibilizados em todo o mundo, priorizando as comunidades e os países que mais precisam, usando uma abordagem justa e ética para colocar o equipamento às demandas agudas dos pacientes com base em dados como a classificação de risco COVID-19 de um país / região”.

 

Os pedidos podem ser divididos em lotes e entregues em fases, para que possamos atender vários países / regiões prioritários em paralelo“,
acrescentou Klink.

A Turquia rouba à França um avião com equipamento médico no aeroporto de Istambul, a Alemanha acusa os EUA de práticas comercias ilegais.

A isto chama-se GLOBALIZAÇÃO.


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



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