Diário
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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

Uma Vida na memória

Luanda
Luanda – anos 70

Vim, pela 1ª vez, em 1970. Aqui estudei, vivi, ” cresci”. Passei por momentos muito bons e muito maus, a vários níveis, mas, sobretudo, aquando da guerra em Luanda, antes da independência, com 5 exércitos “em presença”, das vésperas do 27/05 e do período imediatamente pós independência.

O racionamento da comida, os tiroteios constantes, o recolher obrigatório, as ” perseguições” entre rivais e até entre “pares” e a fuga, tanto de portugueses, como de nacionais, muitos por razões políticas – entre eles, alguém muito, muito próximo…

Da beleza natural e organização e funcionamento das instituições do tempo colonial (a par do sofrimento e opressão dos nacionais de que me fui apercebendo) – onde tudo era simples, fácil, organizado e próspero (para alguns) – o que deslumbra uma rapariga europeia de 16 anos com uma educação até então espartana, assisti a momentos históricos, mas também à degradação das condições de vida, a nível da alimentação, saúde, educação, etc.

Parti em finais de 1974, com muita pena, por razões de segurança. Já tinha mandado o meu filho pequeno e o meu então marido, um nacional com a cor errada, “teve” também que ir. Fiquei sozinha com o meu sogro, numa tentativa de trazer os pertences da família pois tinha conseguido, através do comandante do Infante D. Henrique, pai de uma amiga, passagem a bordo para trazer a carga.

Não deu. Tive que abandonar a minha casa e ir morar com amigos que viviam no “nobre” bairro do Miramar, mais protegido, até à partida que fui adiando, até que surgiu uma ameaça muito grave que punha em risco os meus anfitriões.

Degradação total que continua num crescendo assustador. No entanto, este povo tão exposto ao sofrimento, às carências, à guerra tudo suporta com uma resignação que me toca e que merece todo o respeito.

Nas vésperas da independência,    formaram-se os “mal amados” CPBs (comités populares de bairro) que desenvolveram um trabalho de proximidade junto das populações, nos musseques e assisti a situações de grande sofrimento mas também de grande dignidade. Depois falaremos.

A partir daí, fui voltando e partindo, a partir de 1978 quando havia “condições” para o meu marido regressar, apesar de ter que vir com “coletes de salvação”.

A tudo assisti enquanto portuguesa, mas nunca como expatriada – recusei. Tão pouco aceitei trabalhar nos ministérios da defesa e relações externas quando me convidaram, áreas muito sensíveis e fui para uma petrolífera. O meu estatuto foi sempre de estrangeira residente.

A minha situação matrimonial degradou-se e parti em 1980 rumo a outras paragens. Mas um bocado de mim aqui ficou e fui voltando.

Luanda -musseques
Luanda -musseques

Em cada regresso, senti uma enorme angústia pela situação excruciante que se vivia e a que assistia.

Maio de 2015 foi um choque. Ao descer sobre o aeroporto, mal queria acreditar no que via. Os antigos musseques, agora ” bairros” tinham crescido, alastrado, numa mancha enorme, triste e barrenta. Albergam milhões onde Tudo falta, segurança inclusive.

Contudo, as zonas nobres, os arranha-céus e condomínios onde vivem expatriados e os nacionais “sortudos” fazem-nos sentir noutro mundo. A diferença é assustadora.

luanda-arranha-ceus
Luanda foi pensada para cerca de 250 mil pessoas. Hoje, na cidade vivem perto de 5 milhões

Agora, um ano depois, tudo piorou ainda mais.

Vivo nessa redoma e desloco-me apenas o necessário, se possível com segurança (os mais fiáveis são polícias no activo), sobretudo devido ao crescente nível de criminalidade que tanto atinge expatriados (sobretudo mulheres sozinhas) quanto nacionais. Todos são perigosos, mas há casos mais dramáticos quando envolvem violações e mortes (algumas, por ajuste de contas e de dívidas).

luanda-candongueiro

Os nacionais deslocam-se em candongueiros – as combi azuis e brancas, a maioria em mau estado, onde se grudam quais sardinhas enlatadas e são assaltados à entrada dos bairros, bem como quando se deslocam em “táxis” onde também podem ser violadas, como tem acontecido.

Uma das funcionárias do meu filho foi, há 4 dias. As lojas dele são em shoppings que fecham muito tarde, 22:00 (para os padrões locais). Já foi pedido que fechassem mais cedo para segurança de quem lá trabalha, mas ninguém quer saber. E se os lojistas o fizerem, são penalizados.

Vive-se de facto o presidencialismo pleno, num estado forte, muito militarizado. A maioria não fala, nada comenta, não quer saber, tenta sobreviver. Patamar acima, os mais informados adaptam-se mas criticam.

Dos quinze, ninguém quer saber e o cantor é tido como bófia. Neste momento, os grandes problemas sentidos são saúde, segurança, alimentação e dinheiro, local ou divisas.

Os grandes “negócios” que estão a render fortunas são a alimentação e o mercado paralelo de divisas. Na rua, o câmbio está a 660 kwanzas por cada dólar, prevêem que, mais uns meses, chegará perto dos mil.

Com o fim do ano lectivo português, a normal ida das crianças para férias e a eventual e alegada partida de muitos expatriados, a procura e o negócio de divisas está uma loucura. Uns precisam de €€ aí, muitos vendem os que aí têm e ganham fortunas em Kwanza para viver aqui.

Leitora identificada mas que, por razões de segurança, pediu anonimato.

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