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Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

Viriato Soromenho-Marques: “Estamos a promover o radicalismo terrorista”

Viriato Soromenho-Marques: “Estamos a promover o radicalismo terrorista”

O professor catedrático ajuda a perceber as raízes da ascensão do Estado islâmico e diz que a Europa está hoje a pagar por uma “sucessão de erros” da política externa ao promover “a destruição de Estados

Pode apontar-se culpados na ascensão do auto-denominado Estado Islâmico? Que responsabilidades têm a Europa e o Ocidente na intensificação do terrorismo do Daesh? Que erros estão a ser cometidos na luta contra o radicalismo islâmico?

Estas foram as perguntas que o TORNADO colocou ao Catedrático Viriato Soromenho-Marques. O professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa começa por sublinhar que é fundamental tentar compreender a causalidade que levou ao aparecimento do Estado Islâmico.

“Vivemos uma situação complexa mas não incompreensível”

Recorda que o Estado Islâmico surge justamente após a invasão do Iraque pelos EUA e pela coligação que o apoiava, em 2003. O Estado islâmico é um fenómeno com características muito próprias e que seria impossível de ocorrer sem perceber três episódios fundamentais em que o Ocidente “teve uma responsabilidade estratégica indeclinável e que os eleitores dos países europeus e dos EUA não podem esquecer na altura em que tomam decisões políticas”.

  • Episódio número 1. Por um lado, a Invasão do Iraque e o derrube do Governo de Saddam Hussein. “A desastrosa administração americana no período do presidente Bush, com a liquidação do exército iraquiano que se tornou numa das principais fontes do terrorismo”.
  • Episódio número 2. Em 2011, a destruição na Líbia, com o apoio da França, Grã-Bretanha e com os aviões da Nato que “derrubam não só um ditador mas um Estado”. “A Líbia, é hoje, um Oeste selvagem sem lei nem ordem, uma espécie de federalismo do deserto com grupos terroristas rivais”.
  • Episódio número 3. “E a cereja no topo no bolo” foi a guerra civil na Síria.” Neste momento, o ISIS só não controla completamente a Síria porque existe ainda o regime do Assad, e este só existe porque em Setembro de 2013 o parlamento britânico votou contra uma proposta de um político irresponsável chamado David Cameron que queria fazer com o regime de Bashar al-Assad aquilo que tinha sido feito com o regime de Kadhafi na Líbia, ou seja, a NATO a bombardear durante meses a fio as estruturas militares e de comando do regime de Assad, abrindo caminho ao único grupo que tinha condições para prevalecer – o Estado Islâmico.

“Desastrosa gestão da administração Bush”

“Os nossos governantes, em sentido genérico, têm fortes responsabilidades em todo o processo de movimentar a acção e a expansão do terrorismo”, acusa Soromenho-Marques, ao acrescentar que ao intervir no Médio Oriente e no Norte de África, o Ocidente está a entrar num conflito mais antigo, intra-islâmico, entre as duas grandes escolas rivais: xiitas e sunitas.

“Uma diplomacia e uma força armada que intervêm num contexto muito complexo, sem perceber o que está em causa, só pode gerar fenómenos de refluxo como é o caso do terrorismo”, adianta.

Para o professor de Filosofia Social e Política, “os erros acumulados” da política externa europeia em relação à sua vizinhança estão a promover a destruição de Estados. “Ao mesmo tempo estamos a promover, por um lado, o radicalismo terrorista e, por outro, as ondas de refugiados que não temos capacidade ou vontade de absorver completamente”.

Frisa ainda que as raízes do terrorismo islâmico não se esgotam na actuação do Ocidente. “Uma raiz muito importante é endógena, o islamismo é percorrido por guerras santas internas, de facção, sectárias, desde a sua fundação. Agora nós, ocidentais, aumentámos imenso a força desse conflito e tornamo-nos num alvo também”.

“O Estado islâmico não é apenas um grupo terrorista, que actua a nível global como a Al-Qaeda, é de facto um proto Estado. Existe um controlo territorial sobre mais de 8 milhões de pessoas”, lembra.

A área de território que o Daesh controla é três vezes maior que Portugal com 8 a 10 milhões de pessoas. “ E isto é novo!”, sublinha. Como é que isto foi possível? “Porque na altura em que se destruiu o Iraque e se desmantelou o exército iraquiano, muitos dos generais sunitas de Saddam, que eram laicos, foram lançados na angústia do desemprego e acabaram por radicalizar-se. E acabaram por ser estes generais a chave das vitórias militares do Daesh em 2013-14, quando conquistou grande parte do Iraque e da Síria e até territórios na Líbia”, responde.

Viriato Soromenho-Marques
Foto: Créditos Veríssimo Dias

“Tudo isto só foi possível pela absoluta desastrosa gestão da administração do Iraque feita no período do presidente Bush”, frisa Viriato Soromenho-Marques.

“A Europa está a pagar por todos estes erros. E curioso, é que foi a Grã-Bretanha dos Trabalhistas (com Blair) e dos Conservadores (com Cameron) – país que esteve metido em tudo o que era asneira, desde o ataque ao Iraque, à Líbia, ao comando da tentativa de destruição de Assad na Síria – que nos aparece a pedir contas.”

Ainda sobre a vaga de refugiados, diz, que “se houvesse vontade”, os cerca de 500 milhões de cidadãos da UE teriam capacidade de receber dois ou três milhões de migrantes.

Observamos uma sucessão de erros políticos que se traduzem numa ameaça para a sobrevivência do projecto europeu como está instituído”, alerta ao propor: “não podemos ser tratados como amnésicos e temos de pedir responsabilidades aos nossos governos”.

Aproveita também para recordar que Portugal “não ficou bem na fotografia” com a Cimeira das Lajes. “Não é um acontecimento brilhante da história de Portugal contemporânea”, lamenta.

“Os nossos governantes, em sentido genérico, têm fortes responsabilidades em todo o processo de movimentar a acção e a expansão do terrorismo”, acusa Soromenho-Marques

Sobre o combate ao terrorismo

Existem duas escolas de pensamento no combate ao terrorismo: os extremistas de direita, que querem acabar com tudo e fazer “reset”, destruindo informação preciosa, e os que defendem uma verdadeira integração europeia, com serviços de informações e polícias europeias “a sério”.

Mais especificamente explica: Há uma corrente que quer fechar fronteiras pondo em causa o mercado interno, esquecendo que atrás das pessoas vêm as mercadorias, o que por sua vez, origina o enfraquecimento económico. “Como se desligassem o computador da Europa para ver se tudo se resolve dentro do quadro nacional, a extrema direita vai cortejando o medo das pessoas e vai propondo uma alternativa nacional”.

Depois existem as pessoas que defendem a amplificação da construção europeia – onde Soromenho Marques se inclui – mas que se deparam com o grande obstáculo do “establishment”. “Os actuais governos europeus estão paralisados, não são capazes nem de avançar com reformas corajosas nem querem cair no abismo do ‘reset’” e, como nas bicicletas, se não pedalarmos caímos”.

A propósito do acordo UE-Turquia: “Uma vergonha!”

“Vivemos o falhanço da inteligência política das lideranças europeias, há uma espécie de défice intelectual, aliás o principal défice não é do orçamento mas sim das boas ideias políticas”

Para o professor catedrático, o acordo com a Turquia “é uma vergonha!”. “Depois de tanta exigência sobre os requisitos democráticos, vamos assinar um acordo na altura em que o regime de Erdogan está a endurecer-se, a restringir a liberdade democrática e a acabar com a liberdade de imprensa, sem qualquer pejo”.

“O discurso político está a ficar patológico, não respeita o princípio da não-contradição, vivemos um período de incoerência de discurso”, lamenta.

Recorde-se, que os líderes da União Europeia chegaram recentemente a acordo com a Turquia sobre o mecanismo de apoio a refugiados. Desde 20 de Março, todos os migrantes irregulares oriundos da Turquia que entrem nas ilhas gregas são devolvidos à Turquia. E por cada migrante irregular que a Turquia receba, será concedido asilo a um sírio. Em troca da cooperação de Ancara, os líderes europeus concordaram em acelerar a liberalização dos vistos para os visitantes turcos, de relançar as negociações de adesão e ainda em duplicar para um total de seis mil milhões de euros a ajuda que será concedida à Turquia até 2018.

 “Défice intelectual”

Nada optimista sobre o futuro, sublinha que a forma como se enfrentam os problemas da Europa (desde a crise do Euro aos refugiados e ao combate ao terrorismo) demonstra uma profunda falta de estratégia política. “As respostas dadas pensam no interesse nacional dos países uns contra os outros e a colisão entre estes interesses nacionais acabam por destruir o património comum da construção europeia“.

Neste momento somos como actores que estão a representar uma peça de teatro e que desatam a destruir o palco. Se destruímos o palco que a Europa é, os actores já não vão ter palco para actuar”, equipara.

Vivemos o falhanço da inteligência política das lideranças europeias, há uma espécie de défice intelectual, aliás o principal défice não é do orçamento mas sim das boas ideias políticas”, remata o especialista em filosofia social ao concluir: “O que vai aguentando a Europa é o facto de os europeus criarem muitas cumplicidades, não sei é durante mais quanto tempo”.

Refugiados e Migrantes no Mediterraneo

 “Ao mesmo tempo estamos a promover, por um lado, o radicalismo terrorista e, por outro, as ondas de refugiados que não temos capacidade ou vontade de absorver completamente”

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