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João de Sousa

Sábado, Agosto 13, 2022

A voz rouca da guerra louca

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões
American Freedom, cartoon, Marian Kamensky
American Freedom, cartoon, Marian Kamensky

O Minotauro podia perder-se na velha História e conferir ao mito uma aura de mistério, mas os caminhos que os tempos escolhem para si são sempre devastadores, decisores, definitivos.

Medíocres face às melhores utopias que, simultaneamente, geram.

Quero antes de mais assegurar que todas as minhas fontes apontam para poder dizer, antes de saber o resultado das eleições norte-americanas que Donald Trump é um grande ignorante – e que a sua mais direta competidora, a rival Hillary Clinton, é, à escala, uma ignorante mais pequena.

Falo, portanto, hoje, de corredores da História.

Alguns, são corredores da morte onde se decide o destino dos homens cometendo mais um ato criminoso, isto é, tirando-lhes a vida em nome da “justiça“. Outros são corredores da morte diplomáticos, onde os senhores da guerra nunca vão à guerra. Outros, são corredores de fuga, onde os refugiados têm como última esperança o chão que pisam. Outros, são corredores de impunidade, onde ficam aqueles que num tempo certo decidiram mal e condenaram o mundo ao tempo cada vez mais incerto.

Há um certo desespero na aparente lentidão das forças da ordem portuguesas para encontrarem um alegado assassino em fuga por um território minúsculo como é Portugal, mas é indesculpável ver como os grandes exércitos que combatem, por exemplo em Moussul, não previram o que fazer com os sobreviventes do massacre: os que são vítimas e os que, misturados com eles, fugirem, sendo terroristas em fuga e clandestinos, inocentes à primeira vista ( fogem para a Europa, claro).

Que corredores preparam para nós?

Na hipótese degradante para o mundo desse tal Trump ser eleito, muitos conselheiros terão de rodeá-lo, para apontar-lhe no mapa onde ficam cenários fumegantes ou ruinosos, como a Síria, o Iraque ou o recém bombardeado Iémen, de que tão pouco se falou.

Sim, o Iémen foi bombardeado há dias. As palavras que nos chegaram foram as do coordenador humanitário das Nações Unidas no Iémen, Jamie McGoldrick, que sublinhou como as equipas de ajuda humanitária estão “chocadas e revoltadas” com o ataque, que atingiu um espaço público na capital, Sanaa, controlada pelos rebeldes ‘huthis’ e aliados, e onde se tinham juntado centenas de pessoas… para um funeral.

Trump é daqueles que, sozinho, nem o caminho para a casa de banho encontra (já nem falo da braguilha, que seria de mau tom em prosa séria).

Outros tantos conselheiros terão de mostrar-lhe, a esse Trump, o que a diferença sexual, étnica, religiosa, ideológica produziu no melhor dos Estados Unidos.

Os norteamericanos são pluralidade, poliétnicos, miscelânea, são hetero, homo, lésbicas, bi, trans e pansexuais, refugiados, imigrantes, transumantes, multiculturais e interculturais – enfim, o oposto de Donald Trump.

Trump é um mundo que passou, morreu, está gasto. Como o de todos os fundamentalistas, conservadores, autocentrados. Paradoxalmente, é também um mundo de fénixes: pode renascer num assomo de idiotice coletiva que o adule.

Trump não presta, em nenhuma das dimensões humanas, o que o catapulta para o lado não humano dos que governam o mundo – e isso pode significar alarmantemente que tem hipóteses de triunfo (escolhido pelos tristes órfãos da ideologia, desnorteados temerosos que agora andam a acabar com o mundo).

Hillary, que por muitas razões devia ter enjeitado o apelido Cinton, não é tão ignorante quanto Trump, por ter vivido na Casa Branca e, paredes meias, com os principais centros de decisão das grandes ditaduras que governam os americanos.

Hillary seria hipócrita se viesse dizer ao povo americano (e sobretudo ao mundo) que combate a indústria de armas do seu país, ou que quer que os americanos entreguem as armas que têm em casa e abdiquem da loucura antiga que os move, ou que prefere que, sei lá, por exemplo os curdos não usem armas made in USA ou que sabe onde fica a Síria, o Iraque ou mesmo Guantanamo (que Obama não conseguiu fechar, ou fechava as suas hipóteses de sobrevivência política).

Ou ainda que não lhe agrade a ideia de que os USA são os polícias do mundo, único resquício do “american way of life” que os americanos brandem e legam aos filhos, com os belos resultados que todos conhecemos.

Por muito obtusa que seja, Hillary desconfia que a indústria bélica norte-americana é fundamental para o estatuto económico do país. Uma indústria caseira – os norte-emericanos estão armados até aos dentes -, uma indútria para os grandes conflitos que os Estados Unidos promovem, uma indústria para a exportação.

De acordo com o último relatório produzido e divulgado pelo Stockholm International Peace Research, organização sueca fundada em 1966, que realiza pesquisas científicas em questões sobre conflitos, segurança e paz mundial, os dez países que mais exportaram armas entre o período de 2009 a 2013 foram: Estados Unidos, Rússia, Alemanha, China, França, Reino Unido, Espanha, Ucrânia, Itália e Israel.

Cada um de nós que tire as suas conclusões, mas repare-se que nada surpreende nesta lista.

Somos pequenos ladrilhos num corredor escorregadio.

Este artigo respeita o AO90

Nota do Director

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