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Quarta-feira, Fevereiro 8, 2023

A demagogia anda à solta

Estrela Serrano
Estrela Serranohttps://vaievem.wordpress.com/
Professora de Jornalismo e Comunicação

rocha-andradeÉ certo que é preciso alimentar os debates e comentários que enchem as televisões e os jornais mas, que diabo, há tantos assuntos sobre que falar e escrever bem mais importantes para a vida dos portugueses sobre os quais não há notícias!

As declarações de Rocha Andrade são absolutamente normais, sobretudo num país tão pequeno como Portugal em que as elites políticas e económicas partilham o poder revezando-se no governo e na oposição, estabelecendo relações de interdependência, como se viu no grupo Espírito Santo que empregava pessoal político de vários quadrantes políticos.

Tem pois razão Rocha Andrade quando refere que “todos os membros do governo têm uma lista de entidades sobre as quais não devem tomar decisões”.

Os comentários escandalizados do CDS e do PSD parecem mostrar que estes partidos nunca pensaram no assunto e que acham natural que políticos com ligações a instituições e empresas vão depois, quando chegam ao governo, decidir sobre essas instituições e empresas.

Bem sabemos que no Parlamento as incompatibilidades não são levadas a sério, sobretudo no que se refere aos deputados que exercem advocacia em grandes escritórios de advogados.

É pena que os jornalistas não se dediquem a fazer esse levantamento e que não sejam eles a elaborarem a “lista” a que eufemisticamente se referiu Rocha Andrade e que alguns entenderam em sentido literal.

cgdQuanto ao salário do presidente e da administração da CGD, a perplexidade maior vem das declarações do Presidente Marcelo que apesar de ter promulgado o novo estatuto dos gestores públicos, veio agora cavalgar a onda da demagogia, afirmando que “se há fundos públicos, não é possível nem desejável pagar o que se pagaria se fosse um banco privado sem fundos públicos”.

É evidente que se trata de valores elevados, porém, no momento em que a CGD é o banco público e necessita de uma profunda reestruturação, condição essencial ao financiamento da economia portuguesa, estar a questionar o vencimento de um administrador profissional cuja competência técnica e independência política ninguém põe em causa, é pura demagogia e populismo fácil para agradar aos demagogos de serviço.

Que políticos e comentadores o façam, não se estranha. Já não se compreende que o Presidente alinhe com eles. Ao contrário, o primeiro-ministro, António Costa, foi coerente e não teve receio de ser impopular.

Criticável é sim que tantos gestores da CGD e de bancos privados que no passado auferiram salários elevados tenham deixado os bancos que geriram no estado em que se encontram e que sejam os contribuintes a pagar pela incompetência desses senhores.

À nova gestão da Caixa deve ser exigida, sem concessões, a recuperação do banco público e a sua colocação ao serviço da economia e do desenvolvimento do País.
Artigo publicado inicialmente no blog VAI E VEM

Nota do Director

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