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Sábado, Dezembro 4, 2021

Zhanna Nemtsova: “Ser oposicionista na Rússia actualmente é arriscar a vida”

Zhanna NemtsovaPassou um ano após o assassínio do antigo vice-primeiro-ministro russo Boris Nemtsov, um dos mais destacados líderes da oposição a Vladimir Putin, morto à bala a poucos metros do Kremlin, no dia 27 de Fevereiro de 2015.

Por ocasião da apresentação, no Festival do Filme e Forum dos Direitos Humanos (FIFDH) em Genebra, do documentário “Um visionário assassinado”, realizado por Michail Fishman, Ljubow Kamyrina, Milana Minajewa e Stephan Kühnrich, falámos com a filha, a jornalista Zhanna Nemtsova, sobre a situação actual da oposição e da sociedade russa.

Acusa os média pró-governamentais russos de terem contribuído, “com uma intensa propaganda de ódio e mentira”, para o homicídio do pai, e diz que “os oposicionistas russos não são numerosos, mas são muito corajosos”.

 

Depois do assassínio do seu pai, houve quem alimentasse expectativas de mudança na política russa, de um despertar da sociedade russa contra o regime. Passado um ano, aquelas expectativas não parecem ter-se confirmado.
Eu nunca tive tais esperanças nem entendo como alguém pode ter contado com isso. Houve mudanças, mas não são visíveis. Tratou-se de um assassínio político sem precedentes na Rússia. A maior parte das pessoas não reagiu, mas muita gente reagiu e continua a reagir. Muita gente saiu à rua em memória do meu pai, chocada com o assassínio. Isto não permitia porém esperar que acontecesse uma mudança de fundo. Antes de o meu pai ser morto, tinha sido retratado pelos média ligados ao poder como um traidor da nação e infelizmente muitos cidadãos russos acreditam no que lhes diz a televisão estatal.
A minha vida, sim, foi muito afectada. A vida da oposição mudou também, pois as pessoas perceberam o risco que correm. Eu não esperava grandes mudanças na sociedade russa, porque as mudanças numa sociedade são processos lentos.

O seu pai chegou a decidir sair do país. Ele temia que as suas posições políticas pudessem custar-lhe a vida?
Ele não tinha medo de ser morto, receava sim ser preso. Por isso pensou deixar o país, em 2014, mas acabou por decidir ficar.

Depois da morte de Anna Politkovskaya, ele não pensou que podia ser o próximo?
Politkovskaya era uma jornalista, fez reportagens sobre a Tchetchénia. Pelo que sei, ele nunca pensou que pudessem decidir matá-lo. Conversámos sobre a possibilidade de o meterem na prisão, ele estava consciente disso e estava disposto a enfrentar esse risco. Claro que a Rússia é um país onde os cidadãos não se sentem seguros, até se fazem piadas sobre isso, as pessoas dizem “Putin ainda não me matou, quando é que vai matar-me?”, mas nunca me apercebi que o meu pai considerasse seriamente essa possibilidade.

Nem quando se soube do assassinato de Alexander Litvinenko?
Se o meu pai tivesse receado ser morto, teria saído do país. O caso de Litvinenko não é igual ao do meu pai. Litvinenko era próximo de Putin, conhecia muitas coisas dele. O meu pai nunca trabalhou com Putin. O meu pai foi morto por causa das suas convicções, das suas ideias e porque criticava o regime. Não posso dizer que Putin ordenou a morte de Litvinenko, porque não há provas suficientes. Se lermos atentamente, essa versão é apontado como um dos cenários possíveis mas não são apontadas provas concludentes. Se quiser encontrar semelhanças, terá que comparar com Politkovskaya. A morte do meu pai foi o assassinato de alguém que ocupou um alto cargo no país, foi um assassinato profissional, um caso sem igual na Rússia moderna.

A Rússia actual e a União Soviética são Estados muito diferentes – a Rússia não é um Estado autoritário, no sentido clássico, é um sistema híbrido, com elementos de democracia como a liberdade de movimentos, liberdade de expressão, internet, alguns média ainda independentes. Ou seja, na Rússia de hoje, se alguém quiser conhecer a verdade, é possível encontrar a informação, o que não acontecia na URSS.
Temos eleições, apesar de não obedecerem inteiramente às regras democráticas, temos uma oposição, que não existia na União Soviética. Tudo isto faz que não podemos aplicar à Rússia actual as classificações que definiam a URSS. A Rússia é um país com uma tendência para regimes autoritários, mas a Rússia de hoje é um sistema híbrido complexo e flexível e é por isso que é tão sustentável. Não há repressões massivas na Rússia, só são atacadas algumas pessoas.

O seu pai via no dirigente checheno Ramzan Kadyrov um perigo?
O meu pai criticava Kadyrov e criticava Putin por este apoiar financeiramente Kadyrov. É evidente que Kadyrov está em posse de informações fundamentais sobre o assassinato do meu pai e deveria ser interrogado – os homens que se suspeita terem sido os autores do crime são todos tchetchenos. O suspeito principal, Zaur Dadaiev, fez parte do batalhão Norte (Sever) do Ministério do Interior da Chechénia, inteiramente sob controlo de Kadyrov, e o próprio Kadyrov disse que conhecia Dadaiev. Ruslan Geremeyev parece ser um dos organizadores do crime. Não foi acusado, pertence ao círculo próximo de Kadyrov. Se tivermos em conta o sistema de poder que governa a Tchetchénia, é evidente que Kadyrov conhece informação relevante sobre este crime.

Acho que, se pessoas próximas dele desempenharam um papel tão importante no assassinato do meu pai, tem de ser esclarecida qual a responsabilidade de Kadyrov. De uma coisa estou certa: Kadyrov sabe e com as informações que tem, as investigações avançariam. O Batalhão ao qual pertencia Zaur Dadaiev faz parte do exército russo. Muito simplesmente, não querem investigar.

O seu pai estava a trabalhar no relatório sobre aquilo a que ele chamou a “invasão da Crimeia por Vladimir Putin”. Parece-lhe que esta posição dele possa ter motivado o assassinato?
Não me parece que ele tenha sido morto por causa do relatório, mas sim pelas suas convicções e pela sua actividade política – ele organizava protestos, elaborava relatórios sobre a corrupção, criticava Putin, era considerado desleal…

Lev Shlosberg, deputado do parlamento da província de Pskov, foi o primeiro a falar, em Agosto de 2014. Shlosberg divulgou que paraquedistas de Pskov foram mortos na Ucrânia. Foi agredido, mas não o mataram. A emissora russa de televisão RBC, onde trabalhei, publicou notícias sobre a participação de tropas regulares russas no conflito na Ucrânia. O meu pai não fez nenhuma revelação, reuniu apenas um sumário de todos estes factos, ele tinha também falado com os familiares destes soldados mortos.

Qual é a situação da oposição russa actualmente, depois da morte do seu pai?
A oposição russa não se resume a Navalny e Kasparov, há outros, como por exemplo Mikhail Kasyanov e Ilia Iashin, que publicou recentemente um relatório sobre Kadyrov. É muito arriscado e não há muitos líderes, é preciso ser-se muito corajoso para fazer oposição na Rússia. É compreensível que as pessoas não queiram arriscar a vida. A oposição russa é minoritária, mas forte, deve ser 20% da população. São fortes porque demonstram muita coragem. São poucos, mas são dignos da maior admiração, sinto muito orgulho por existirem na Rússia pessoas assim.

Que pensa da situação da Rússia hoje?
A Rússia atravessa uma crise muito grande, uma crise política, económica e social. Faz-me muita pena ver o meu país perder as oportunidades de avançar, de se desenvolver como um país normal. Estamos a recuar, as autoridades russas não acreditam no progresso e na liberdade e o resultado para o país é desastroso.

Decidiu sair do país. Teve medo?
Claro que sim. Mas eu não estou na política. Não vou ficar na Rússia para demonstrar que sou mais forte, não acredito no recurso à força como meio de encontrar soluções para os problemas. O meu pai foi morto por ser um político, um político de oposição. Eu não sou uma mulher política. Tomei posição em nome da justiça em consequência do assassinato do meu pai, mas não sonho com um lugar no parlamento russo.

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