Parte 2 | Abrantes

Roteiro para uma ponte

Depois da visita a Tomar, Abrantes é a segunda estação de um roteiro para aproveitar a ponte proporcionada pela reposição do Feriado de 1 de Novembro

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Fica na região centro do país. E, embora já se sintam os ares das Beiras e do mais Alto Alentejo, a cidade ainda pertence ao distrito de Santarém. Vila Nova da Barquinha, Tancos, Constância e, já depois, Vila de Rei, são paragens do itinerário.

Chegar

A A23, tomada por quem use a A1, a auto-estrada do Norte, é a via mais rápida para lá chegar. Mas se vier do Sul e optar por esse caminho, perde a possibilidade de acompanhar um dos mais surpreendentes troços do rio Tejo. Noutro dia, experimente ir de comboio do Entroncamento a Vila Velha de Ródão – uma paisagem estranhamente esquecida dos roteiros turísticos. Para já, cruze sem se deter a cidade do Entroncamento. A A23 e o IC3 passam por lá. Cruze a Ponte da Pedra e entre no concelho vizinho de Vila Nova da Barquinha.

Atalaia, Barquinha e Tejo

Ao sair do Entroncamento pela Ponte da Pedra, dará com a rotunda. E tem duas opções. Ou segue para a esquerda, na direcção de Tomar, pela velha nacional nº 110, histórica estrada de Lisboa-Porto, ou segue em frente, para a Barquinha, sede do concelho, pela EN 3. Aqui na rotunda, fica a Quinta da Ponte da Pedra. Em 1811, no tempo das invasões francesas foi local de lutas e de fuzilamentos, mas hoje a construção solarenga, as suas adegas e os seus celeiros tornaram-se espaço de congressos, festas e casamentos.

igreja-matriz-da-atalaiaO melhor é tomar a estrada para Tomar. Não terá de andar muito, que o desvio não é grande. A Atalaia fica pouco depois de passar o viaduto sobre a linha férrea. Atravesse o povoado de casario baixo e algo incaracterístico. Garante-se que não está a perder tempo. Já no final do aglomerado, fica a imponente Igreja Matriz da Atalaia.

Quase ao lado, a Casa do Patriarca, de origem seiscentistas, hoje dedicada ao turismo. O cenário fica completo com o casario mais recente, ali defronte, do outro lado da estrada. A igreja foi mandada edificar em 1528 e tem mão de João de Castilho e do normando João de Ruão – os mesmos de que já se falou na primeira parte deste roteiro em visita a Tomar. Volte costas ao templo de estilo manuelino e regresse à rotunda da Ponte da Pedra para tomar a estrada de Vila Nova da Barquinha.

A Barquinha foi porto fluvial. No século XIX discutiu-se se seria neste lugar ou em Torres Novas que faria entroncar a linha férrea do Norte, que liga Porto e Lisboa, com a linha do Leste, que seguiria para Castelo Branco e Guarda. A Barquinha optou por continuar a usar o rio e o povoado do Entroncamento nasceu mesmo ali ao lado, na década de 1860, para se tornar sede de concelho já em 1926. Não deixe ainda a EN3.

Do seu lado esquerdo vai ficar a alta trincheira da linha do caminho-de-ferro. Siga até à bomba de gasolina do Sol-Tejo, do lado direito. É café, restaurante, hotel. Pare nem que seja para beber um café. As janelas são panorâmicas e a vista é das mais imponentes que pode ter do rio Tejo.

O curso de água estende-se imponente entre as margens baixas. Para ocidente, entre salgueiros e outras árvores, vêem-se os terrenos da Quinta da Cardiga, que pertenceram à Ordem de Cristo. Um espelho calmo que com as primeiras chuvas já terá começado a encher. Por muito que o surpreenda, estas curvas só aqui estarão desde o século XVI. A paisagem é construída.

Foi o infante D. Luís, filho do rei Manuel I, que mandou desviar o rio, para melhor lhe aproveitar as águas. Uma enorme obra hidráulica com uma extensão de dez quilómetros. Lá em baixo, fica a povoação a que deve descer. O jardim na borda de água é recente e vale a pena passear por lá durante um bocado e descer mesmo até à beira-rio.

Retome a viagem, sempre com o Tejo à direita e a linha férrea à esquerda. Cuidado que a estrada tem muitas curvas e a paisagem distrai. A paragem seguinte é a pequena vila de Tancos. Dá com ela depois de uma das muitas curvas do percurso. Entre na povoação deixando o restaurante Almourol, também com vista panorâmica do Tejo, do seu lado direito e desça até ao cais fluvial. Se pensar em comer, peixes de rio costumam ser opção por estas bandas.

Do outro lado do Tejo, subindo as margens, em escadaria, fica a povoação do Arripiado. Do lado esquerdo, antes de nova curva do rio, vê-se a ilha do castelo de Almourol. Aqui, do cais de Tancos, dá para ir de barco até à outra margem ou até ao castelo. Mas talvez seja melhor deixar esse passeio para outro dia. A viagem ainda está no princípio e há que seguir viagem para Abrantes. Regresse à estrada e cruze a via-férrea na passagem de nível. Está a entrar em terreno militar.

O Polígono de Tancos nasceu quando se tornou necessário preparar e instruir os militares do CEP, o corpo expedicionário português que foi combater na Primeira Grande Guerra. O lugar era estratégico. Ficava próximo da estação ferroviária do Entroncamento e era servido pelas linhas férreas do Norte e do Leste. Próximos, havia ainda dois grandes pontos de abastecimento de água, o Tejo e o Zêzere.

Depois do fim da guerra mundial, os militares não partiram. Neste ermo estiveram instalados, em simultâneo, já durante o resto do século XX, a Base Aérea nº 3, que mudou de mãos e é hoje quartel do grupo de aviação do Exército; a principal unidade nacional das tropas pára-quedistas e a histórica Escola Prática de Engenharia. A estrada passa entre instalações das Forças Armadas e tem vista para as pistas e campos de obstáculos. Mas antes, vire à direita e siga até ao castelo de Almourol.

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Almourol e Constância

Para chegar ao rio, terá de passar sob uma estreita ponte ferroviária. A margem em frente ao castelo sofreu obras recentes e o estacionamento está muito facilitado. No Verão, quase apetece atravessar a pé até à ilha. Mas não se meta nisso que as águas são tentadoras mas traiçoeiras.

O ilhéu é granítico e tem 18 metros de altura, acima da linha de água do estio. São 310 metros de comprimento para 75 de largura. Pela situação de isolamento e pelas perspectivas de aventura é considerado por muitos um dos mais romântico castelos portugueses. Pertenceu aos cavaleiros templários, grandes senhores da região, e foi construído em 1171, ainda no tempo do mestre Gualdim Pais.

Ala agora para Constância. A terra é mimosa e bem cuidada, de becos floridos, escadarias, arcos e mirantes. E avista-se logo da muito alta ponte que cruza o rio Zêzere. Apenas a fábrica de pasta de papel desfeia o cenário. A lenda que terá pouco de verdadeira, fala de um Camões exilado compondo versos nas margens do Zêzere que, aqui, conflui no Tejo.

A história serviu ao menos de origem ao jardim-horto de Camões, desenhado pelo arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles. À entrada tem uma estátua do poeta que já ali está desde 1981 e é da autoria de Lagoa Henrique. Dentro do jardim, inaugurado em 1990, o visitante encontrará as 52 espécies de flora referidas na obra de Camões. Ainda nesta Constância a visitar, há o Parque de Astronomia com observatório e planetários. Este espaço do programa Ciência Viva foi fundado por Máximo Ferreira, que durante anos escreveu acerca do tema em jornais como A Capital, e que pelo caminho ainda se tornou presidente da câmara local.

Abrantes

Abrantes é lugar de transição para a Beira Baixa e para o Alto Alentejo. E isso nota-se na paisagem. O centro histórico tem vários edifícios notáveis, mas os mais gulosos podem perder-se nas suas pastelarias e cafés. As tigeladas, a palha de Abrantes e a lampreia de ovos dominam o doce cardápio da terra. O Jardim da República fica no antigo rossio. Aí erigiram o Monumento aos Mortos da Grande Guerra, de autoria do arquitecto Rui Roque Gameiro (não confundir com o pai, o aguarelista Alfredo Roque Gameiro). É também neste largo, junto ao edifício do Politécnico, que fica o antigo convento de São Domingos.

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O espaço religioso foi hospital, quartel e a antiga igreja conventual é hoje a Biblioteca Municipal António Botto. O poeta que dá nome ao equipamento nasceu no concelho e conviveu com gente como Pessoa, Almada, Teixeira de Pascoaes, António Ferro e até Eugénio de Andrade. Demitido da Função Pública, Botto terá dito ser o único homossexual reconhecido do país. Os velhos claustros dominicanos merecem uma visita, mas não se esqueça de entrar também no parque de estacionamento, dentro da cerca do convento. Aproveitar a ampla vista do Tejo e dos campos dos arredores da cidade.

Daí siga para o castelo. Vestígios arqueológicos indiciam que o lugar já seria fortificado no ano de 130 a.C. Saltando vários séculos, terá sido nesta fortaleza que se juntou o grosso das forças do Mestre de Avis e de Nuno Álvares Pereira antes de defrontarem os castelhanos em Aljubarrota, em 1385. João II e Manuel I chegaram a viver no paço desta fortaleza. No século XVII, as muralhas foram adaptadas às novas técnicas de tiro de artilharia e, no início do XIX, o castelo foi ocupado pelo general Junot, no decurso das invasões napoléonicas. O viajante nunca ouviu dizer “Tudo como dantes, Quartel-general em Abrantes”? A frase virá daí, diz-se, do tempo demorado que os portugueses terão levado a desalojar os franceses da então vila.

No interior da cerca, fica a Igreja de Santa Maria do Castelo, que é monumento nacional. E, em redor das muralhas, há outro jardim a explorar. Com lagos, gaiolas e inúmeras plantas e árvores exóticas. Além de iucas, palmeiras, cactos de grandes dimensões, até uma enorme Chorisia especiosa árvore espinhosa oriunda da América do Sul que, se tiver sorte, ainda estará com a sua típica floração rosada.

Está prestes a terminar mais uma jornada. Siga Viagem até Vila de Rei. Alferrarede fica no caminho, logo à saída de Abrantes. A localidade teve importante indústria de azeites e adubos e a força industrial ainda se nota na riqueza emergente de parte das habitações. Vila de Rei poderia ficar à parte, num outro roteiro que incluísse, por exemplo, o vizinho Sardoal ou a Sertã. Hoje é de toca e foge embora passe por lá para comer.

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Vila de Rei

picoto_melricaÉ aqui o centro geométrico do país. Esse exacto lugar fica no pico da Milriça e está assinalado por um gigantesco marco geodésico. Daí tem uma perspectiva de 360º sobre chamada região do Pinhal Interior. Lá do alto perceberá o porquê do nome.

Vila de Rei está desertificada e envelhecida, e em tempos a câmara da histórica presidente Irene Barata até chegou a oferecer dinheiro a quem tivesse filhos no concelho. A Albergaria D. Dinis pode ser um sítio para recuperar forças. Além da perfumada sopa de peixe pode experimentar, se não conhece, os dois mais típicos enchidos da região: os maranhos e o bucho.

Com as primeiras chuvas, a região já se encheu de pequenas cascatas, como a das quedas de água dos Poios. É até provável que tenha de ter cuidado com as estradas molhadas, atravessadas por águas desviadas do seu curso natural.

Leia a Parte 1  Roteiro para uma ponte | Tomar

 

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