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João de Sousa

Quinta-feira, Setembro 23, 2021

Budapeste, e um brinde com trago de pálinka!

De um lado, Buda. Do outro, Peste. No meio um rio. Buda espreita sobranceira. Peste contempla-a sem desdém. Em pleno coração da Europa Central, esta antiga cidade do bloco de Leste – ora imponente ora majestosa – despede-se da selecção das quinas. O destino é o futuro, brindemos.

«Quando se abriu um buraco nas nuvens, me pareceu que sobrevoávamos Budapeste, cortada por um rio. O Danúbio, pensei, era o Danúbio mas não era azul, era amarelo, a cidade toda era amarela, os telhados, o asfalto, os parques, engraçado isso, uma cidade amarela, eu pensava que Budapeste fosse cinzenta, mas Budapeste era amarela». É assim que José Costa, personagem do romance Budapeste, de Chico Buarque, pinta a cidade que fala húngaro – o idioma que o fascinou, a «única língua que o diabo respeita».

Os lugares são muito o que neles vemos, o jeito como os sentimos, aquilo que neles buscamos. Provavelmente não vai pintar Budapeste de amarelo, mas de vermelho paprika. Ou, pelo contrário, até achará absurdo aplicar cor a um lugar. Bem, o melhor mesmo é seguir, e deixar os próprios olhos esclarecerem dúvidas! Mas uma certeza leve na bagagem: se procura uma cidade majestosa e altiva, onde pode ser surpreendido ao virar de cada esquina, esta é a escolha acertada.

Oficialmente unidas desde 1873, Buda e Peste dão corpo e alma à rainha do Danúbio. Com histórias conturbadas de invasões e lutas, a cidade que se intitula a «Paris do Leste», herdou uma impressionante paisagem urbana, e o seu reconhecimento chegou com a declaração de Património Mundial pela Unesco das margens do Danúbio, da colina de Buda e da avenida Andrássy.

Os Magiares foram os fundadores da nação húngara, e nem os períodos negros da sua história apagaram essas raízes: a invasão turca no século XVI; o domínio dos Habsburgos até 1867; ou a devastação causada pela II Guerra Mundial, após apoio dado à Alemanha. A Hungria viria a tornar-se República em 1989, na sequência do colapso do comunismo, e as primeiras eleições livres chegam depois de as tropas soviéticas se retirarem do terreno, em 1991. Por tudo isto, a cidade Pérola do Danúbio é uma mistura imponente de estilos e revivalismos arquitectónicos.

Seis paragens

Bairro do Castelo

Percorrer as muralhas do castelo e do bairro de Buda vai levá-lo a apreciar a zona da Cidade Velha e o Palácio Real, reconstruídos depois da guerra.

As suas ruas medievais convivem com fachadas barrocas e neoclássicas, numa amálgama de vários estilos que exibem tamanha riqueza arquitectónica. A maior parte das residências respiram histórias de reis, rainhas e nobres de outrora, e como muitas ainda são habitadas, o bairro conserva uma intensa aura romântica. Por aqui destaca-se a Igreja Mátyàs, a Rua dos Lordes, o miradouro do Bastião dos Pescadores (com vista soberba sobre Budapeste, onde pode arriscar a melhor pose) e o Palácio Real, que alberga a Galeria Nacional, a Biblioteca Nacional e o Museu de História de Budapeste.

Parque das Estátuas

Logo após a queda do regime comunista na Hungria, muitas das estátuas e monumentos foram imediatamente retirados das praças e avenidas do País.

Mas ao contrário do que foi feito noutros Estados, todas estas obras do período soviético estão reunidas num museu a céu aberto, também chamado Memento Park, ou Szoborpark. Entre as obras expostas encontram-se estátuas de Lenine, Karl Marx e Friedrich Engels, assim como os líderes comunistas húngaros Béla Kun e Georgi Dimitrov. O parque fica situado num subúrbio a sul de Buda, e é uma das visitas mais interessantes a fazer.

Parlamento

Um dos monumentos mais sumptuosos de Budapeste pode ser avistado de inúmeros pontos de Buda, no lado oposto do Danúbio.

O Parlamento Húngaro impõe-se pelo seu esplendor em estilo gótico, dezenas de torres e pináculos e centenas de salões ornados com estátuas de húngaros célebres. Se tiver paciência para esperar e enfrentar longas filas, vai ver que a visita ao interior do edifício valeu a pena. Bem perto, encontra na Praça Roosevelt, a Academia Húngara das Ciências, a neoclássica Basílica de Santo Estevão (maior igreja da cidade) e o Palácio Gresham.

Aproveite o percurso para visitar a Ópera Nacional e assistir a um espectáculo, onde o pode fazer a preços reduzidos, durante o dia e sem traje de gala. Ir à ópera na Hungria é um hábito tão comum como assistir a uma peça de teatro ou ir a uma sessão de cinema.

Praça dos Heróis

O anjo Gabriel petrificado no cimo de uma colunata que mede 36 metros de altura assinala a Praça dos Heróis (Hösök Tere), onde estão representadas as figuras dos reis húngaros e outros vultos famosos das guerras de independência.

No centro da praça mais importante do lado Peste, que fica no extremo da avenida Andrássy, ergue-se o Memorial do Milénio e as estátuas dos líderes das sete tribos magiares, que fundaram a Hungria no século IX. A partir daqui entra-se no Parque da Cidade, extensa área ocupada pela ilha do lago de Városliget e pelo Castelo Vajdahunyad, que mais parece um castelo de conto de fadas. No inverno, transforma-se em pista de gelo, no Verão é ladeado por um lago onde gaivotas e barcos a remo podem ser contratos. Também aqui no parque da cidade se situa o maior complexo balnear termal da Europa.

Banhos públicos

Não é de estranhar que os romanos tenham colonizado esta área do Danúbio, onde fontes de águas termais brotam desde os primeiros séculos da humanidade.

Entre as colinas de Buda e a planície de Peste, a tradição dos banhos medicinais, que começou no distante século II e ganhou força quando os turcos ocuparam o país (séculos XVI e XVII) atrai visitantes de todos os cantos do mundo com promessa de cura para diversos males.

Há mais de um milhar de termas em todo o País, cerca de cinco dezenas estão em Budapeste. Mesmo em pleno inverno, grandes complexos de sauna a céu aberto proporcionam um espectáculo único, onde o vapor das águas aquecidas a 45 graus contrasta com o cenário de neve exterior.

Sejam como piscinas interiores ou exteriores, os banhos públicos estão espalhados por toda a cidade. Os mais são famosos são os banhos de Király, cuja construção começou em 1565, no auge turco; os banhos Rudas; os de Gellért, com as suas águas naturais vindas da montanha com o mesmo nome, ricas em cálcio, sulfato e magnésio; e os de Széchenyi, no parque da cidade.

 O Mercado Central

Para começar a manhã da melhor forma dê uma saltada ao mercado, perto da ponte da Liberdade, e comece por provar a típica pálinka, a aguardente húngara com alto teor alcoólico, produzida a partir do bagaço fermentado de diversas frutas.

Estará depois cheio de energia para entrar num verdadeiro espectáculo de luz e cor, percorrer as bancas caprichosamente ornamentadas de frutas, legumes e, claro, da famosa paprika, em todos os tamanhos e tonalidades. A altura é óptima para comprar a colorida matrioska reproduzida às centenas nas mesinhas do artesanato, ou para experimentar outros petiscos da terra, como o goulash. Entre outros pratos da gastronomia húngara destaca-se a halászlé (sopa de peixe com paprika); o porkolt (estofado de carne variada); ou o ranttott (carne empanada). E não se esqueça: deixe espaço para o delicioso strudel, que é soberbo!

  • Os doces e tortas são tradicionais no país.

 

Momentos

Regresso à “idade das trevas”, acusa AI

A 15 de Junho último, o Parlamento húngaro aprovou uma lei contra a pedofilia, proibindo a “representação” e a “promoção” da homossexualidade e transexualidade junto dos menores de 18 anos. A medida do Governo conservador de Viktor Orbán, que tem multiplicado restrições à comunidade de gays, bissexuais, trans e intersexuais (LGBTI+) magiar, desencadeou uma onda de inquietação juntos dos defensores dos direitos humanos. Nesse mesmo dia, a Amnistia Internacional (AI) acabou por distribuir bandeiras com as cores do arco-íris no jogo do Euro2020 entre a Alemanha e a Hungria. Durante o evento que decorreu em Munique, a AI pretendeu assim protestar contra o diploma do ultranacionalista Orbán, acusado de regressar à “idade das trevas” e de criar um ambiente “hostil e intolerante” para com a comunidade LGBTI+.

A polémica lei de Orbán levou 13 Estados-membro a pedir à Comissão Europeia para tomar medidas contra a Hungria. A carta conjunta em defesa dos direitos da comunidade LGBTI+ e pelo “pleno respeito do direito europeu” não foi assinada por Portugal, que alegou o “dever de neutralidade” enquanto país que preside ao conselho da União Europeia. Entretanto, o Governo de António Costa vai assinar a carta a 1 de Julho, dia em que já deixa a presidência rotativa para a Eslovénia.

Ainda em Dezembro do ano passado, a Hungria proibiu a adoção de crianças por casais do mesmo sexo e interditou o registo civil de mudanças de sexo. Desde 2004 que o país é um estado-membro da União Europeia, cuja Carta dos Direitos Fundamentais proíbe qualquer discriminação com base na orientação sexual. Recorde-se que a Hungria chegou a ser considerado um dos países mais progressistas da Europa central, já que a homossexualidade foi descriminalizada no início dos anos 60 e a união civil entre pessoas do mesmo sexo passou a ser possível em 1996. Na primavera de 2022, volta a haver eleições legislativas no país.

 Viktor Orbán é primeiro-ministro desde 2010. Antes já tinha ocupado o cargo: entre 1998 e 2002. De 1 de Janeiro até 30 de Junho de 2011, a Hungria assumiu a presidência do Conselho da União Europeia, pela primeira vez desde a sua adesão. No entanto, o país ainda não pertence à zona euro devido ao não cumprimento dos critérios de convergência, e continua a utilizar a sua moeda nacional – o florint húngaro.

Em pleno Danúbio repousa a Ilha Margarida, uma mancha verde de dois quilómetros e meio, assumida como o pulmão da cidade. Aqui, onde cabem 250 campos de futebol, ficou o quartel-general da selecção nacional durante a fase de grupos do Euros 2020. As atracções do local convidam ao exercício e ao lazer. Desde estádio desportivo, campos de ténis, complexos de piscina, teatro ao ar livre, jardins, o local tem ainda dois hotéis com spa, esplanadas, restaurantes e banhos termais. A ilha é habitada desde o século XII e deve o seu nome ao facto de a princesa Margaret, filha do rei Bela IV, ter aqui vivido num convento, depois da promessa de seu pai que lutava contra os invasores mongóis.

Budapeste abrange sete milhas do rio Danúbio, o segundo maior da Europa depois do Volga. Dez pontes ligam Buda e Peste, sendo a mais conhecida a das Correntes (Széchenyi) destruída nas duas guerras mundiais. No Bairro Judeu situa-se a maior Sinagoga da Europa e a segunda maior do mundo (depois da de Nova Iorque).

 

Dicas para viajantes

Qualquer altura do ano tem os seus encantos, mas aconselha-se vivamente a Primavera e o Outono, alturas em que Budapeste se mostra mais amena e tranquila. O Verão, quente e repleto de acontecimentos, é sempre muito animado, mas as multidões de turistas podem revelar-se um inconveniente. E o Inverno é muito frio, altura em que também fecham alguns museus e outras atracções turísticas.

Budapeste é muito bem servida de transportes públicos. Além de aquecidos, os autocarros, eléctrico e metro permitem-lhe deslocações por toda a cidade sem longos tempos de espera. Mesmo sem entender a língua não é difícil orientar-se. Procure sempre validar seus tickets de transporte, se qualquer máquina não funcionar, procure outra. A fiscalização é apertada e não perdoa, nem à «chico-espertice» do portuga.

A melhor forma para observar a cidade de forma confortável, e em versão romântica, é percorrer as águas do Danúbio a bordo das embarcações turísticas que partem dos cais junto à ponte Lánchid. Os passeios têm uma hora de duração.

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