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Sábado, Setembro 18, 2021

A abstenção é um perigo para a democracia

Pode a crescente abstenção vir a pôr a Democracia em risco, no futuro? - sociólogo Elísio EstanquePode a crescente abstenção vir a pôr a Democracia em risco, no futuro? O sociólogo Elísio Estanque, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, acredita que “É perigoso!” e aponta a “desconfiança das pessoas nos políticos” como uma causa principal para ausência do povo nas urnas.

“Em Democracia quanto maior for a abstenção mais a legitimidade democrática é posta em causa, sem dúvida. Portanto essa tendência para a abstenção mostra uma crescente desconfiança dos cidadãos em relação às instituições e à chamada classe política”, considera Elísio Estanque. “Por isso numa altura de dificuldades, de crise, que temos passado nos últimos anos, com retrocessos sociais em termos de direitos, em termos económicos, entre outros, a confiança que existia no passado tem-se vindo a perder. Cada vez mais as pessoas rejeitam disponibilizar tempo para a vida política e nota-se que há uma recusa, uma atitude de descrença muito grande em relação à capacidade dos actuais líderes políticos, de todos os sectores. Há uma parte da sociedade que já não revê na política. Não por uma questão de ignorância ou falta de esclarecimento político, mas sim por um sentimento de frustração, de abandono e de descrença”. O nosso interlocutor não tem dúvidas que “Está ameaçada a nossa esperança no futuro”. A crescente desconfiança explica-se “quando há políticos que saem vencedores dos actos eleitorais e, no dia seguinte, começam a pôr em prática uma politica que é exactamente o contrário do que disseram na campanha eleitoral”.

E uma situação destas não é perigosa para a Democracia? Elísio Estanque concorda que “obviamente que sim. A Democracia é um sistema que garante supostamente liberdade, progresso, bem-estar, justiça social, direitos individuais colectivos etc, mas por outro lado é um sistema muito frágil.  Eu acho que as diferentes gerações de políticos da nossa Democracia não conseguiram transmitir ao comum dos cidadãos a necessidade de dedicarem parte do seu tempo ao reforço da Democracia. Os governantes dos sucessivos ciclos políticos não mostraram um genuíno interesse em que houvesse mais sectores da sociedade civil politizados, conscientes dos seus direitos, mas também dos seus deveres”.

E como se pode combater a abstenção? Elísio Estanque considera que são precisas “novas linhas de credibilização na classe política e, eventualmente, alterando as regras do jogo de forma a ajustá-las mais à situação actual da sociedade e do país. Talvez o sistema eleitoral tenha de mudar”, referiu.

Implementar o voto obrigatório como acontece no Brasil e na Bélgica não seria a medida certa e radical para acabar com a abstenção? O investigador não concorda com esta solução e apresenta o caso do Brasil, país que conhece bem, e onde as pessoas se queixam do voto ser obrigatório, pois assim, dizem “as pessoas vão votar sem qualquer qualquer conhecimento político”. E realça que “a solução em Democracia deve ser por via da acção pedagógica, cívica, da acção formativa. E a classe política tem de dar o exemplo. Enquanto isso não acontecer, a desconfiança e afastamento vão ser maiores”, realçou.

Para Elísio Estanque pode mesmo acontecer que no futuro próximo as “as propostas politicas com maior adesão sejam aquelas que falam contra a política, o que aliás já começa a acontecer com propostas populistas, centradas num discurso muito demagógico”.

 

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