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Sexta-feira, Dezembro 9, 2022

A história bem contada e a luta da classe trabalhadora no cinema

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

Dois filmes da década de 1980 se revelam importantes para a compreensão sobre a necessidade do conhecimento da História. Por diversos fatores, conhecer o passado se mostra essencial para o entendimento do presente e, com isso, ter consciência da necessidade de construir um futuro diferente, melhor.

“Eles Não Usam Black-tie” (1981), de Leon Hirszman (1937-1987) – um dos principais nomes do Cinema Novo – mostra a reorganização do movimento operário na capital paulista. O filme se passa em 1979, quando metalúrgicos decidem realizar uma greve por melhorias salariais, condições de trabalho e por democracia.

Hirszman se baseia na peça homônima de Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), de 1958, e mostra as diferentes linhas de entendimento para o encaminhamento das lutas. Guarnieri é o líder sindical Otávio. Em plena ditadura (1964-1985), as greves eram proibidas, mas o movimento popular já se reorganizava em defesa da democracia e contra o Estado repressor e extremamente violento contra os mais pobres.

Toda a trama destaca as posições ideológicas das lideranças dos trabalhadores e a apatia ao movimento de setores do operariado, como o próprio filho de Otávio, Tião (Carlos Alberto Riccelli), que fura a greve com medo de perder o emprego. Tião está prestes a casar com Maria (Bete Mendes), também operária e pobre. Ela, no entanto, não se dobra à tentativa autoritária de Tião em proibir-lhe de participar da greve.

Eles Não Usam Black-tie (1981), de Leon Hirszman

Numa entrevista para a Central Única dos Trabalhadores, em 2001, Guarnieri disse que “quando foi retomado o tema do black-tie, a história do black-tie, para nós, era uma alegria – talvez esse não seja o termo, porque vinha uma tristeza junto. Mas era essa alegria do fazer, do falar, de se comunicar a respeito de coisas tão importantes, porque dizem respeito profundamente à vida. E à vida de quem? Da maioria, do grande coletivo que é o povo. Para nós, por exemplo, artistas, que estamos sempre preocupados com esse tipo de problema, era fundamental ver ressurgir o movimento operário, ressurgir o movimento sindical na sua pujança”.

O filme, que ainda tem no elenco Fernanda Montenegro, como Romana, companheira de Otávio, e Fernando Ramos da Silva (1967-1987) – que em 1980 protagonizou o filme “Pixote: a Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco –, como Bié, irmão adotivo de Maria. Além de Francisco Milani (1936-2005), Milton Gonçalves, João Acaiabe e Lélia Abramo (1911-2004). Não fosse o grande trabalho de Hirszman e a qualidade do roteiro, esse elenco bastaria para atrair a atenção.

Eles Não Usam Black-tie (1981), de Leon Hirszman

“Eles Não Usam Black-tie” se mostra importante em 2020, com todas as importantes conquistas da classe trabalhadora sendo jogadas no lixo por um desgoverno interessado em destruir tudo. O movimento sindical vive um dilema fundamental para a sua reorganização, que vem sendo construída mesmo com todas as dificuldades postas no caminho pelos neoliberais no poder no Estado.

O filme pode ser assistido no canal de TV paga Curta. Vale acompanhar a programação desse canal ou assistir pelo YouTube.

 

Trailer oficial de A História Oficial (1985), de Luís Puenzo

Outra obra-prima do cinema é o argentino “A História Oficial” (1985), de Luis Puenzo. Além de ganhar o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em 1986, a obra retrata um período triste da história argentina através do olhar de uma professora de História, bastante conservador inicialmente, Alicia (Norma Aleandro).

Alicia é casada com Roberto (Héctor Alterio), um executivo de sucesso. O casal adota Gaby (Analía Castro) e com a volta de Ana (Chunchuna Villafañe) do exílio, Alicia passar a suspeitar de que Roberto era um colaborador da ditadura e Gaby filha de presos políticos assassinados pela repressão.

“A História Oficial” (1985), de Luis Puenzo

O filme mostra com sensibilidade a repressão contra os movimentos pela democracia e da dificuldade de se estabelecer a verdade quando a verdade envolve a possibilidade de perder a filha para a família da qual a menina foi roubada. Mesmo assim mostra que estabelecer a verdade é mais importante do que viver uma mentira. Muito atual nestes tempos de fake news.

Em pleno século 21, com a ascensão do fascismo em diversas partes do mundo, este filme traz importantíssimas reflexões sobre a necessidade de engajamento permanente em defesa da liberdade, de justiça e de respeito às diferenças, sejam de pensamento ou comportamentais. “A História Oficial” pode ser assistido pela plataforma Netflix.


Texto em português do Brasil


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