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Quinta-feira, Julho 7, 2022

Libra vs e-yuan – na rota de uma nova geopolítica monetária

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

A profunda estagnação de uma zona do euro presa numa UE em ruínas provocou muitos erros, mas os recentes anúncios do lançamento de uma moeda virtual, a libra, pelo Facebook, e do yuan digital (Digitial Currency Electronic Payment ou, na sigla abreviada DC/EP) constituem dois factores de mudança que estão a agitar a letargia da união monetária.

Embora uma e outra proposta já tenham registado adiamentos nas datas dos respectivos lançamentos e até Mark Zuckerberg, o CEO do Facebook, já tenha admitido durante uma audição na Câmara dos Representantes dos EUA que só avança com a criptomoeda se tiver luz verde das autoridades, parece inegável o nível de susto entre as autoridades da zona do zona euro e instituições como o BIS (Bank for International Settlements ou Banco de Compensações Internacionais) e o Banco de Inglaterra (BoE) e só o ex-governador do FED, Alan Greenspan, parece acreditar que não há razões para os bancos centrais emitirem moedas digitais, observação que tanto pode ser atribuída à sua idade quanto à sua nacionalidade, pois estas constituirão a maior ameaça à hegemonia do dólar. Uma terceira razão para justificar a resistência lógica de Greenspan às moedas digitais dos bancos centrais (também conhecidas pela sigla CBDCs) será o facto da libra poder configurar um novo dólar, ou seja, uma moeda global emitida não pelos EUA, mas a partir do seu território.

Conhecidas que são as tendências modernas da governança global centrada no território norte-americano, essa transição talvez possa ser assegurada ainda pelos norte-americanos, pois enquanto os GAFA (acrónimo que se refere a quatro das maiores companhias da Internet – Google, Amazon, Facebook e Apple –, mas que se pode também referir aos gigantes da tecnologia em geral), se preparam para emitir uma nova moeda para o comércio internacional, o FED continuaria a manter o controle de um dólar cada vez mais reduzido ao seu papel doméstico.

Outra leitura possível revela a abissal diferença e o quase simbolismo que existe entre uma proposta de moeda criptográfica descentralizada, baseada na tecnologia blockchain e especialmente adaptada a um modelo liberal enquanto a outra é uma moeda digital regulada por um Banco Central (Banco Popular da China) segundo o modelo económico socialista, embora o presidente chinês, Xi Jinping, tenha recentemente declarado que via naquela tecnologia (blockchain) uma base muito boa para assegurar a governança das finanças internacionais. A polarização destes dois modelos revela já as sementes de uma geopolítica monetária como evolução da actual guerra comercial entre EUA e China, com esta a distinguir dois níveis de moedas indispensáveis e complementares entre si: os das nacionais centralizadas (ou supranacionais, como o euro) e o sistema monetário internacional descentralizado que exige.

A entrada da libra e do e-yuan nos circuitos económicos, em 2020, deverá significar a abertura de uma nova frente no confronto que actualmente opõe EUA e China, numa luta que será parcialmente territorial porque um e o outro se excluirão inicialmente. Assim prevê-se que a libra abranja 1,56 mil milhões de utilizadores, tantos são os utilizadores do Facebook espalhados pelo mundo (esta é a principal razão por que é que foi o Facebook a lançar a nova moeda e não a Amazon, que possui “apenas” 150 milhões de contas de clientes) e que, segundo dados da CNBC, apresentavam no primeiro trimestre deste ano a seguinte distribuição: 286 milhões na Europa, 186 milhões nos EUA e Canadá, 600 milhões na região Ásia e Pacífico, e 490 milhões no Resto do Mundo. Já o e-yuan deverá contentar-se com 1,5 milhões de chineses, número que poderá crescer mais 600 milhões se incluir a área do RCEP (Regional Comprehensive Economic Partnership, o acordo de comércio livre que junta os dez membros da ASEAN – Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietname – aos cinco parceiros com acordos de comércio livre – Austrália, China, Coreia do Sul, Japão e Nova Zelândia – pois a Índia optou este ano por não participar no acordo), a oficializar no início do próximo ano e ainda os 3 mil milhões da Ásia Menor, África e Europa que integram os sues principais parceiros da Nova Rota da Seda.

E se numa primeira fase, as zonas intermediárias terão liberdade para usar as duas moedas no seu comércio internacional, além de sua própria moeda local, rapidamente se deverão ver fortemente pressionadas para “escolher o lado”, pois essa é a prática habitual em todas as lutas pelo poder. E esta será apenas mais uma…


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