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Terça-feira, Maio 24, 2022

A perestroika saudita

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Conseguirá o jovem príncipe vencer o poderoso clero do país e todos os insatisfeitos que conspiram contra ele? Conseguirá ele manter o apoio norte-americano e furar o cerco montado pela teocracia, pela Irmandade Muçulmana e suas dissensões?

  1. A tomada da Kaaba

Estávamos nos finais de 1979; um grupo islâmico radical, inspirado pela Revolução Islâmica Iraniana e organizado em torno de um suposto “Mahdi” – figura mítica redentora que deverá aparecer no final dos tempos para salvar a humanidade – tomou de assalto a Grande Mesquita de Meca.

A monarquia saudita, ela mesmo iniciada depois de uma guerra santa que conquistou o Xerifado de Meca à família que governou a cidade durante séculos, balança no fio da navalha durante uma semana, e acaba por ser salva in extremis por tropas especiais paquistanesas.

O clã dos Sahud, oriundo de uma das mais inóspitas zonas da Arábia, tinha feito no século XVIII uma aliança com os seguidores de um dirigente religioso integrista, Muhammad ibn Abd al-Wahhab, e essa aliança viria a conquistar a Arábia já no século XX.

A aliança entre a família real e o clero integrista é o pilar dessa construção sui generis que dá o nome ao país e onde subsistem lado a lado um conservantismo extremo e uma família real inundados pelo dinheiro do petróleo.

A família real, corroída pelas múltiplas quezílias e rivalidades internas – existem dezenas de subclãs reconhecidos oficialmente dentro da família real – tentada pelo poder e dinheiro vê no clero a sua fonte de legitimidade, enquanto este vê na realeza o sustentáculo do seu proselitismo.

Principal patrocinadora do integrismo islâmico em todo o mundo, encontrando no Ocidente um aliado precioso, dado que este julga ver no islamismo um excelente instrumento para combater o comunismo e todas as formas de contestação, a monarquia saudita fica em estado de choque com a revolução islâmica iraniana. Constata que tem ao seu lado um novo poder revolucionário teocrático que não só lhe disputa a liderança do integrismo mas como ameaça mesmo a sua existência.

A realidade é que só tropas estrangeiras evitaram que a monarquia saudita fosse deposta em 1979, dado que a generalidade dos poderes fácticos se manteve discreta durante o assalto. O poder dá-se então conta da sua grande fragilidade.

  1. A competição integrista

A leitura dos acontecimentos feita pelo regime saudita não é a de que o integrismo totalitário e revolucionário da Revolução Islâmica do Irão demonstrou que o islamismo podia dispensar uma família real e conquistar todo o poder para si, mas antes que a solução estava em ser mais fanático do que os fanáticos.

Dentro de portas, a Arábia Saudita segue os passos de Teerão, proibindo vestuário e manifestações culturais ocidentais; as mulheres vêm-se legalmente submetidas a um estatuto de menoridade e a lógica do apartheid de género tem consagração legal, com uma omnipresente polícia dos costumes.

A estratégia ocidental de confronto com Moscovo apoiando a Jihad no Afeganistão, irá também contribuir para a leitura saudita dos acontecimentos. A Arábia Saudita vai rivalizar com o Irão no apoio à Jihad, apoiando para isso o Paquistão no quadro do tabuleiro afegão e disputando directamente com a teocracia a influência junto da Jihad na Argélia ou na Bósnia, intensificando o apoio a mesquitas e muçulmanos fanáticos um pouco por todo o mundo.

A estratégia parece resultar no curto prazo. Alguns dos que tinham sido inspirados pelo assalto à Mesquita de Meca, por exemplo, Osama Bin Laden, vão aceitar colaborar com o regime saudita na Jihad afegã, enquanto a Irmandade Muçulmana reforça o seu papel no reino. A ilusão de que o problema está assim ultrapassado vai rapidamente desvanecer-se.

A invasão do Kuwait por Saddam Hussein – erro de catastróficas consequências – vai subitamente colocar a Arábia Saudita perante a inevitabilidade de solicitar o apoio americano e de aceitar a sua presença no seu solo, e isto faz explodir a estratégia penosamente posta em marcha pela monarquia.

A Irmandade Muçulmana nas suas várias formas e derivas – incluindo o grupo de Bin Laden – vai aproveitar o ensejo para lançar o opróbrio sobre a Monarquia, afirmando que o território sagrado do Islão tinha sido ocupado pelos cruzados, iniciando um período de cerco ideológico que dura até hoje.

A teocracia iraniana começa aqui o seu brilhante jogo duplo; principal beneficiária da invasão do Kuwait e da pesada derrota infligida ao Iraque, ela vai apoiar sem restrições a constelação do jihadismo “sunita” que reclama contra a presença americana no Golfo, organizando mesmo atentados terroristas de grande envergadura contra as forças americanas estacionadas na Arábia Saudita.

A deriva estratégica saudita é total. É confrontada a Sudeste – zona de fronteira com o Yemen – com uma organização satélite dos guardas revolucionários iranianos, a Ansar Allah (conhecida hoje como os “Houthis”) que começa a guerrilha que veio em crescendo até à actualidade, enquanto a Nordeste e no Bahrain outro dos seus satélites, o Hezbollah Al-Hejaz, começa os seus ataques terroristas e o trabalho de desestabilização.

Internamente, o poder da coroa é completamente minado mesmo no interior da família real. Vários pretendentes marginalizados na corrida à coroa não hesitam em financiar todos os grupos terroristas que possam criar dificuldades ao monarca.

A expulsão de Bin Laden, em vez de solucionar, agrava ainda mais o problema, dado que primeiro no Sudão e depois no Paquistão, Bin Laden se revela muito mais eficaz e perigoso do que o que tinha sido dentro de portas.

O gesto “amigo” do Paquistão de acolher Bin Laden – supostamente para reforçar a Jihad no Caxemira – vai-se revelar desastroso e, como se confirmou com o 11 de Setembro, os cidadãos sauditas transformam-se no principal centro de recrutamento para a Jihad contra os EUA, com o apoio logístico de Teerão.

Contra a evidência, os dirigentes sauditas insistem na quadratura do círculo, combatendo os jihadistas que os cercam sem confrontar a ideologia jihadista, até à eclosão da era de Mohammad Bin Salman (MBS).

  1. A era MBS

Em 2015, o então mais jovem líder do mundo chega ao comando do país, numa altura em que o cerco montado pelo Irão aperta, quer através dos destacamentos dos guardas revolucionários, quer através dos grupos jihadistas sunitas. As receitas petrolíferas que servem para manter a paz social entram em queda acentuada, a Administração Obama e a Rússia apoiam abertamente o Irão na sua escalada expansionista e a Irmandade Muçulmana, em crescendo na Turquia, no Qatar e na Síria completam o isolamento do regime.

Em três anos, e contando apenas como verdadeiros aliados com os Emiratos Árabes Unidos, o jovem soberano consegue afirmar-se no seu país, prendendo largas centenas de dirigentes (muitos fazendo parte do círculo mais importante da família real), começando o desmantelamento das leis misóginas, do poder da polícia dos costumes e dos pregadores jihadistas. Na frente externa, consegue conter o Ansar Allah a sudeste e o Hezbollah al Hejaz a Nordeste, bem como a Al Qaeda e a sua dissidência autodenominada de Califado (ISIS).

A chegada de Donald Trump à Casa Branca retira o apoio velado americano à agressão iraniana, embora nada tenha mudado até agora no que respeita à atitude americana perante ameaça da Irmandade Muçulmana que desestabiliza directamente a monarquia saudita através do Qatar. No início deste ano, MBS lança uma ofensiva diplomática nos EUA onde reconhece o direito do povo judeu à autodeterminação e afirma querer modernizar e liberalizar o velho regime arcaico numa lógica de despotismo iluminado.

No contexto da sua visão 2030, anuncia a promoção de um vasto programa modernista e, mais importante do que tudo o resto, anuncia a reconversão do esforço internacional do apoio à construção de mesquitas e sustentação de uma rede de doutrinadores jihadistas em apoio a iniciativas culturais e de recreação.

Promete aos iraquianos financiar a construção do maior estádio de futebol do mundo em Basra – em contraponto ao financiamento do jihadismo pelo Irão – enquanto anuncia a construção de parques temáticos e de centros de animação nocturna no seu país, declarando-se frontalmente contra o lado taciturno, negro e deprimente do fanatismo religioso que domina culturalmente o seu país.

A máquina de desinformação irano-russa não perde uma oportunidade para denegrir o jovem monarca e para distorcer ou inventar todo o tipo de histórias contra o jovem príncipe e a monarquia. Entre nós, por exemplo, a Dr.a Ana Gomes veio invectivar as mesquitas financiadas pela Arábia Saudita no DN, passando naturalmente em silêncio a rede clandestina de mesquitas organizada pelas autoridades iranianas em território nacional. Enquanto em tempos idos, seria um ataque sem resposta, desta vez as autoridades sauditas convidaram o DN a visitar o país, o que este fez, dando uma visão positiva da perestroika saudita aos seus leitores.

Conseguirá o jovem príncipe vencer o poderoso clero do país e todos os insatisfeitos que conspiram contra ele? Conseguirá ele manter o apoio norte-americano e furar o cerco montado pela teocracia, pela Irmandade Muçulmana e suas dissensões?

É certo que não se trata de um desafio fácil de vencer e é ainda muito cedo para saber. O que temos como seguro é que se trata da maior revolução pacífica que se desenrola hoje no mundo e também aquela de que as consequências poderão revelar-se as mais notáveis para a paz e a liberdade.

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