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Segunda-feira, Agosto 8, 2022

A perversidade permanece no Brasil revela o Atlas da Violência 2020

Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Marcos Aurélio Ruy, em São Paulo
Jornalista, assessor do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo

De acordo com o Atlas da Violência 2020, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ocorreram 57.956 homicídios no Brasil em 2018, o menor índice desde 2015. Mas o que era para ser otimismo, estampa o racismo, a cultura do estupro e e o ódio à juventude, essencialmente pobres e moradores da periferia.

Na foto acima, ativistas da Anistia Internacional encenam a morte de jovens, pretos e pobres na periferia das grandes cidades. 

De acordo com o Atlas da Violência 2020, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ocorreram 57.956 homicídios no Brasil em 2018, o menor índice desde 2015. Mas o que era para ser otimismo, estampa o racismo, a cultura do estupro e e o ódio à juventude, essencialmente pobres e moradores da periferia.

Além disso, os especialistas apontam o crescimento de 25,6% de homicídios sem causa definida como o fator desse recrudescimento de homicídios. Foram 12.310 mortes sem que a justiça consiga definir a causa em 2018, ficando atrás somente das mortes sem causa definida registradas em 2009, com 13.253 mortes.

Mais de 70% dos crimes ocorreram por armas de fogo, isso antes de Jair Bolsonaro assumir a Presidência com a sua defesa enfática da utilização de armas por qualquer indivíduo como política de segurança pública.

Veja o Atlas da Violência 2020 completo

“Os números são graves e ainda antes do desgoverno Bolsonaro assumir, o que pode ter piorado e muito a situação, além do sucessivo crescimento de violência doméstica durante a pandemia”, alega Vânia Marques Pinto, secretária de Políticas Sociais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

A sindicalista justifica sua preocupação com o discurso beligerante do atual presidente e com o avanço da crise econômica. “A quarentena provocada pela pandemia do coronavírus desnudou a face cruel da sociedade contra as mulheres, os jovens, a população negra, principalmente entre os mais pobres”, diz.

As preocupações dela têm sentido porque entre os homicídios de 2018, em números absolutos, 61,89% da vítimas foram pessoas entre 15 e 29 anos, num total de 30.783 jovens assassinados.

O racismo prevalece. As vítimas negras representaram 75,7% dos crimes fatais. Além desse número exorbitante houve crescimento de 11,5% de homicídios de pessoas negras ao mesmo tempo em que ocorreu diminuição de 12,9% desses crimes entre os não negros.

“Os números destacam mais uma vez a necessidade urgente de políticas afirmativas para dar visibilidade e oportunidades à população negra”, acentua Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da CTB.

Se não forem adotadas essas medidas para conter esse verdadeiro genocídio de negros, principalmente entres os jovens, o Brasil continuará perdendo vidas de pessoas que poderiam estar ajudando o país a sair da crise”.

Apesar do alto número de jovens assassinados, o estudo mostra que sem o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a situação seria muito pior. Antes do ECA o crescimento anual de assassinatos de jovens era de 7,8% e depois da legislação ser adotada em 1990, o índice passou a ser de 3,1%, menos da metade.

Para Luiza Bezerra, secretária da Juventude Trabalhadora da CTB, os números evidenciam a importância de leis de proteção às populações mais vulneráveis.

O problema está em que o atual desgoverno insufla o ódio, defende mais repressão, o trabalho infantil e corta investimentos em educação, cultura, esportes, o que só pode piorar as coisas”.

Foto: Felipe Carneiro/Sul 21

Para ela, o movimento sindical, os movimentos sociais e os partidos políticos democráticos devem “precisamos de mais cultura, mais educação, mais saúde, mais esporte, mais lazer, mais livros e menos armas”, defende. “É importante somar esforços para garantir políticas públicas que promovam a paz e o avanço civilizacional para o Brasil superar de uma vez suas mazelas”.

Outra questão fundamental se refere ao crescimento de assassinatos de mulheres. Em 2018, uma mulher foi assassinada a cada duas horas no país, num total de 4.519 vítimas, 68% delas mulheres negras.

Além disso, 30,4% dos assassinatos foram classificados como feminicídios (assassinatos de mulheres pelo fato de serem mulheres) e a maioria ocorreu dentro de casa. “Imagine a situação das mulheres em quarentena nesta pandemia?”, questiona Celina Arêas, secretária da Mulher Trabalhadora da CTB.

Em relação a 2017, houve crescimento de 6,6% no número de feminicídios aponta o estudo. Além do crescimento nos feminicídios – a cada 6h23 uma mulher foi morta dentro de casa, em 2018 –, ocorreram 1.685 denúncias de violência contra a população LGBT. Lembrando que o Brasil é país mais violento contra os LGBTs.

Para Vânia, é preciso romper coma lógica do se dar bem a qualquer custo.

Sem solidariedade e entendimento de que todas as pessoas que vivem do trabalho estão no mesmo barco, não há saída para a superação desse sistema injusto e desumano no qual vivemos”.

Segundo Celina, “o Brasil precisa acordar para o Brasil”. Para a sindicalista, “vivemos uma verdadeira guerra civil, onde a população mais pobre, os negros, os indígenas, os jovens, as mulheres levam sempre a pior” porque “o Estado protege o patrimônio em vez da vida e da dignidade humana”.


Texto em português do Brasil


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